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“Não somos vítimas. Queremos só que saiam da frente com as vossas leis medievais”

FOTO JOSEPH EID/AGP/GETTY IMAGES

Estamos numa localização que não podemos revelar. É um dos poucos locais seguros em todo o Líbano para membros da comunidade LGBTI. Tarek Zeidan, o presidente da Helem, a primeira associação LGBTI do mundo árabe, diz ao Expresso que a discriminação é um problema de classe social, que a violência é patrocinada pelo Estado libanês e que o maior perigo da luta LGBTI é tornar-se um joguete na densa arena política do país. Este é o primeiro retrato de uma série de cinco que o Expresso publica a partir de Beirute, capital do Líbano, onde uma em cada seis pessoas é refugiada

Ana França

Ana França

em Beirute

Jornalista

Helena Bento

Helena Bento

em Beirute

Jornalista

Tarek senta-se, começa a falar e depois, como se se tivesse sentado em cima de um alfinete, dirige-se a uma das portas do escritório onde nos recebe: “Veem aqui? Estes buracos todos?”. A porta amarela, de madeira, está cheia de protuberâncias, é irregular, e os buracos, enchidos com estuque, notam-se perfeitamente. “Já fomos invadidos cinco vezes, roubados, estamos sempre a mudar as fechaduras.”

Estamos numa morada que não podemos revelar. As direções para aqui foram-nos dadas através de pontos de referência. É um dos poucos centros comunitários para membros da comunidade LGBT totalmente seguros em todo o mundo árabe - “ou mesmo o único”, diz Tarek Zeidan, presidente da Helem, ou “sonho”, em árabe, a primeira associação de defesa dos direitos desta comunidade em toda a região. Se escrevermos “Helem Beirut” no Google Maps, não chegamos aqui mas a uma morada totalmente diferente noutro ponto da cidade.

“Fazem-nos rusgas, roubam-nos, vandalizam isto e a nossa página na internet foi recentemente invadida pelo Daesh. O que até foi bom, era muito má a página, deu-nos motivação para fazermos uma coisa melhorzinha”, ironiza Zeidan, que também é membro do Instituto Carr de Estudos de Direitos Humanos na Harvard Kennedy School. “Recebemos uma mensagem deles que dizia: ‘vocês são a imoralidade’. Ok, obrigada”, acrescenta com um sorriso.

A Helem começou em 2004 mas nunca teve autorização do Ministério do Interior para se tornar uma organização oficial. São reconhecidos mas não têm, por exemplo, identidade fiscal. “Não podemos ter uma conta bancária, o que dificulta muito a nossa estratégia de angariação de fundos. É compreensível que as pessoas e as empresas queiram ter um registo do dinheiro que dão para organizações não-governamentais. A parte boa é que ninguém nos pode processar”, diz Zeidan. “Quando nos processam, porque processam, é contra ‘pessoa desconhecida’ e os juízes não dão seguimento àquilo.”

Tarek Zeidan é presidente da Helem, a primeira associação de defesa dos direitos desta comunidade em toda a região

Tarek Zeidan é presidente da Helem, a primeira associação de defesa dos direitos desta comunidade em toda a região

d.r.

A casa onde Tarek nos recebe não tem qualquer referência ao movimento LBGTI, não há cartazes alusivos a paradas de orgulho gay, não há bandeiras às cores, não há frases pela inclusão nas paredes. Se alguém aqui vier não pode provar que isto é um centro da comunidade. “É o que é”, diz Tarek - e encolhe os ombros.

Em certas zonas de Beirute, como Mar Mikhael ou Gemmayzeh, zonas turísticas cheias de bares modernos e restaurantes franceses, uma mulher dar a mão a uma mulher ou dois homens estarem abraçados já não é nenhum escândalo - e dentro de certos bares e discotecas passa-se tudo, mas o Líbano não é Beirute e não faltam histórias que aqui chegam vindas de zonas mais tradicionalistas. Sem dar detalhes sobre casos específicos, Tarek conta que já ajudou algumas raparigas, ainda na adolescência, que fogem de casa dos pais porque eles querem casá-las com um homem e elas gostam de mulheres. Transsexuais e homossexuais espancados pelos pais e, ainda mais frequentemente, pelos irmãos também é uma história comum.

A Internet foi o agregador de todas as vidas incompreendidas que, como Tarek, seguiam o seu rumo na solidão de não poderem expressar-se. Os homossexuais, transsexuais e todas as outras pessoas que não cabiam nas gavetas que o Líbano há muitos anos criou para compartimentar ressentimentos juntaram-se num canal do mIRC - “Gay Lebanon”. Quando, em 2001, mais de 30 homens, na sua maioria gays, foram presos, torturados e espancados no Egito por terem organizado uma festa a bordo de um barco no Nilo, Tarek começou a pensar que era preciso sair daquele ecrã. “Isto despertou-nos, enervou-nos. Isto e outras coisas que se estavam também a passar aqui no Líbano: as pessoas eram presas pela polícia por demonstrações de afeto, chegavam notícias de chibatadas a pessoas da comunidade LGBTI em comunidades mais fechadas.”

A primeira vez que a bandeira arco-íris foi desfraldada em solo árabe foi aqui, em Beirute, não longe deste espaço seguro, durante um protesto contra a invasão do Iraque, em 2003.
“Nascemos, em primeiro lugar, para isto: tirar pessoas da cadeia. Seja pagando as fianças ou encontrando um advogado ou com coisas ainda mais simples, como levando comida e produtos de higiene básica para estas pessoas que, na cadeia, não tinham acesso a nada disto nem podem ligar aos pais a pedir ajuda. Há uma razão pela qual estão presas e é uma razão que os pais não querem ouvir”, diz o ativista.

FOTO JOSEPH EID/AFP/GETTY IMAGES

A criação de uma linha 24 horas para o apoio a estas pessoas, a criação de um espaço onde pudessem conviver e a realização de sessões de esclarecimento sobre doenças sexualmente transmissíveis também estiveram na base da criação da Helem, mas para Tarek há claramente uma luta histórica que o move: o fim do “artigo 5.3.4”, uma lei colonial francesa que criminaliza as demonstrações de homossexualidade.

Em maio deste ano, a polícia mandou cancelar todos os eventos previstos para a semana das celebrações do orgulho gay e as prisões ainda acontecem. Em 2016, 79 pessoas foram detidas ao abrigo desta lei. O lado bom é que cada vez mais juízes têm recusado prender pessoas por “deboche” ou “atentado ao pudor” ou “relações contranatura”, o que tem levado os advogados de defesa a alegarem a existência de precedente jurídico para “salvar” os membros da comunidade de penas de prisão efetiva.

Um Estado conivente com a violência

Tarek transforma-se de repente num daqueles professores de História que durante décadas estudaram uma tese que tem pouca adesão entre os seus pares: “Nesta parte do mundo nunca foi ilegal manter relações com pessoas do mesmo sexo, estas restrições chegaram com a colonização. Há relatos deste tipo de relações durante a Era dos Califados e no Império Otomano, era muito comum naquilo que hoje é a Turquia”, conta Tarek, que cita um estudo muito querido na comunidade: segundo ele, “não há uma única decisão judicial, de 1600 até 1900, em todo antigo Império Otomano, que criminalizasse um gay”.

E como se revolve o problema das prisões? Tão “à bruta” quanto os polícias. Em 2012, depois da prisão de alguns membros da comunidade, Tarek dirigiu-se às autoridades e ameaçou diretamente os polícias: “Cheguei lá e disse: ‘Sabemos que esta embaixada e aquela embaixada estão a financiar a reabilitação desta esquadra. Querem que pare?’. E eles libertaram-nos porque na altura os Estados Unidos tinham passado uma lei que dizia que todo o dinheiro destinado à ajuda internacional não poderia ser dado a instituições que violassem os direitos humanos”, conta Tarek sobre os “métodos de guerrilha” da Helem. Mas a confrontação não leva a um porto seguro, apenas a vitórias necessárias de alcance curto. “É preciso trabalhar com estas pessoas de forma a mostrar-lhes que a violência é uma coisa má, não podemos simplesmente obrigá-los a fazer uma coisa porque, se o fizermos, eles vão continuar as torturas de uma forma ainda mais secreta.”

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O maior problema da comunidade aqui no Líbano, diz Tarek, é a “violência patrocinada pelo Estado”, principalmente “contra as mulheres transgénero, que são todas consideradas prostitutas e são agarradas na rua, presas - torturadas muitas vezes”. Recentemente, surgiu um outro problema que fez a Helem passar a ver como missão, além da defesa dos direitos da comunidade LGBT, o apoio à integração dos refugiados e dos trabalhadores imigrantes, que são atacados pela sua “diferença” e pela “ilegalidade” da sua condição. “Os sírios levam com a grande maioria da violência e das prisões”, refere Tarek, que recentemente notou um aumento no número de membros da Helem, que diz não poder especificar, que também são refugiados. “Hoje temos outros problemas, indissociáveis da luta pelos direitos da comunidade. Há políticos que defendem que os sírios sejam mandados embora. Não podemos deixá-los sozinhos porque sem eles não seríamos o movimento que somos hoje.”

Um dos maiores problemas é a habitação. Como não é suposto dar cobertura a “comportamentos imorais”, há muitos senhorios que nem sequer aceitam membros da comunidade. “Outros dizem aos homens transsexuais que podem ficar num quarto desde que se vistam sempre como homens, outros dizem às mulheres transsexuais que lhes dão um quarto se ela aceitar ter relações sexuais com ele, outros expulsam as pessoas quando descobrem que são gays, outros pedem mais dinheiro” e, por isso, um dos próximos projetos da Helem é a construção de um abrigo em 2019, também em localização desconhecida, para acolher estas pessoas.

O perigo do aproveitamento político

Por se terem tornado mais conhecidos, a Helem tornou-se também uma instituição que representa uma fatia da população que várias forças políticas querem captar e essa é a nova luta de Tarek - não deixar o movimento servir de joguete político, não deixar que a luta desta comunidade seja absorvida para dentro de uma das fações político-religiosas que dominam o Líbano.

“Como é que fazemos esta luta sem sermos usados como peões políticos de vários lados? A nossa luta não pode ser usurpada por um grupo religioso qualquer, que nunca quis saber dela mas agora, de repente, já quer só porque isso lhes dá votos junto de uma determinada camada. E dizem coisas do género: ‘Somos a favor dos direitos dos LGBTI porque estes bárbaros do Hezbollah não são’”. No Líbano, “há um balanço de poder muito precário e, assim, todos os temas se tornam armas de arremesso, todos se tornam uma moeda”.

JOSEPH EID/AFP/GETTY IMAGES

O bom gay e o mau gay

“Ainda há um bom gay e um mau gay na mente da polícia libanesa. Eu sou um bom gay. Eu vou a um restaurante bom, eu visto-me como um homem e pareço um homem, sei falar bem, várias línguas. Tenho algum poder económico, algum poder na sociedade, estudei, sou académico. Um mau gay é uma pessoa transsexual, um refugiado, uma prostituta - não são ‘apresentáveis’.” E é por isso que Tarek diz que é tudo uma questão de classe social: “Se não tens um estatuto socioeconómico superior, estás sozinho”.

Mas mesmo sendo alvos, ninguém é uma vítima, porque “as pessoas aqui têm poder, são atacadas por serem elas próprias e por isso não estão à espera de salvação”. Um bom exemplo, explica Tarek, é Israel. “É uma das diretrizes políticas do governo de Israel demonstrar o quão amigos dos gays eles são e, ao mesmo tempo, quão bárbaros os palestinianos são porque não tratam os gays de forma decente. É uma desculpa para justificar a violência. É por isso que não somos vítimas, não queremos defesas dessas. Precisamos só que saiam do caminho com as vossas leis medievais.”

A estrutura desigual que sustém os privilégios

“Nesta parte do mundo está tudo robustamente sustentado na divisão de género. Todo o sistema assenta na separação dos dois sexos - no casamento, no divórcio, nas heranças, no funeral, no direito de custódia das crianças, no acesso ao emprego, no poder político”, diz Tarek. “Se não tivéssemos essa divisão, o poder destas elites religiosas, destes académicos radicais, cairiam por terra, eles não teriam emprego, não teriam dinheiro, não teriam seguidores.”

O também académico considera que, no Líbano, as pessoas têm maioritariamente medo umas das outras e é por isso que ainda se escudam nas divisões sectárias que, na sua opinião, já não têm razão de existir. Para evitar uma segunda guerra civil, o parlamento libanês está dividido a meio: 64 lugares para cristãos e todos os septos, outros 64 para muçulmanos, e este é apenas um dos exemplos da falta de elasticidade da estrutura sócio-política em que assenta o dia a dia.

“Quando chegamos ao pé destas pessoas e dizemos que o género é uma fabricação, não há diferença entre homem e mulher, gays, heteros e transsexuais, todo o mundo deles explode e ficam muito zangados com essa suposição. Pensam assim: ‘Estás a lixar-me o sistema meu!, um sistema que funcionou perfeitamente nos últimos 3000 anos’.”