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Internacional

De governadora da Carolina do Sul às Nações Unidas, a embaixadora que entrou e saiu de surpresa

Drew Angerer

Foi inesperada a escolha de Nikki Haley no final de 2016. Não era próxima de Trump e tinha pouca experiência em política externa. Abandona o cargo de respresentante dos EUA na ONU, a seu pedido, apanhando também desprevenidos até os mais atentos. Quem é e de onde veio?

“Será uma grande líder para nos representar na cena mundial.” Em novembro de 2016, Donald Trump ainda como Presidente eleito, apresentava desta forma, confiante, a pessoa escolhida para ocupar o cargo de embaixadora norte-americana nas Nações Unidas. Sobre Nikki Haley, a filha de imigrantes indianos, então com 44 anos e governadora do Estado da Carolina do Sul, Trump dizia também ser uma “negociadora reconhecida”.

O nome causou surpresa. Não só Haley foi uma das vozes mais críticas de Trump durante a campanha presidencial, como era escassa a sua experiência em política externa. Mas nas primeiras declarações dirigidas aos jornalistas na sede da ONU, em janeiro de 2017, a embaixadora assumiu a postura da administração Trump, nomeadamente passando um recado importante: vinham aí novos tempos na relação dos Estados Unidos com as Nações Unidas.

Se entrou com surpresa, com surpresa saiu. Ao apresentar esta terça-feira a demissão, a embaixadora não explicou os motivos e Trump apenas deixou cair que a vontade de Haley se afastar “por uns tempos” lhe tinha sido transmitida pela própria, há seis meses.

O futuro talvez revele mais mas por enquanto é mais seguro recuar e lembrar o percurso daquela que foi a primeira mulher (e a pessoa mais jovem) a chegar a governadora da Carolina do Sul. Aconteceu em 2010, para repetir a eleição em 2014, mandato que interrompeu para seguir para a ONU.

Em termos nacionais, ganhou notoriedade em 2015 pela forma como reagiu a um tiroteio numa igreja predominantemente afro-americana, em Charleston. Pelo facto de ter mandado retirar a bandeira da Confederação foi unanimemente elogiada e ganhou maior atenção.

Às vezes crítica de Trump, mas firme na defesa das políticas do Presidente

Se durante as primárias republicanas criticou as propostas de Donald Trump, especialmente no que diz respeito à proibição temporária de entrada no país que o candidato prometeu impor aos muçulmanos, já nas Nações Unidas, Haley entrou em choque com a Casa Branca quando um assessor sugeriu que ela anunciara prematuramente uma nova ronda de novas sanções à Rússia, devido a uma “confusão momentânea”.

“Com todo o respeito, não houve qualquer confusão da minha parte”, reagiu a representante norte-americana horas depois, através da Fox News.

Em dezembro de 2017 também disse publicamente que as mulheres que acusavam Donald Trump de assédio sexual “deviam ser ouvidas” e não escondeu que a retórica do Presidente podia levar a uma terceira guerra mundial.

Alfinetadas à parte, não deixou de ser uma voz audível na defesa das políticas do seu país nas Nações Unidas. Anunciou em junho a saída dos EUA da comissão dos Direitos Humanos da ONU, considerando que o organismo “não faz jus ao seu nome”.

Ao lado do secretário de Estado, Mike Pompeo, criticou a pertença ao órgão de países como China, Cuba e Venezuela, eles próprios acusados de violação dos Direitos Humanos. E disse ainda que a comissão tem um “preconceito crónico contra Israel”. Se a comissão mudar, os EUA “regressarão com satisfação”, garantia Haley.

Há pouco mais de um ano, quando a assembleia geral da ONU votou maioritariamente contra a decisão de Donald Trump relativa a Jerusalém (a mudança da embaixada norte-americana), a votação foi precedida de avisos inéditos vindos da embaixadora. Firme, Nikki Haley avisou que os países que estavam a pensar votar contra Washington deviam preparar-se para sofrer as consequências dessa decisão.

Disse mais: a pedido do Presidente iria anotar “os nomes” de quem votasse contra a administração norte-americana, com Trump a ameaçar logo a seguir que ia cancelar a ajuda financeira a todos esses países.

Na Sala Oval, Trump elogiou-a esta terça-feira pelo “trabalho incrível” que deixa para trás e deixou-lhe uma porta aberta, para voltar, para o lugar que escolher. Ela retribuiu, dizendo ter sido uma honra “para toda a vida”. Sobre o que a sós discutiram na mesma Casa Branca, apenas se podem fazer palpites.