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Achou assustadora a perspetiva de já não poder viver no planeta se as temperaturas subirem mais de 1,5º? Pode ser pior

Michel Porro/Newsmakers/Getty Images

O relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas confirmou que é mesmo importante que não se ultrapasse a marca para evitar “terríveis consequências” mas “apenas menciona os pontos críticos na Antártida Ocidental e na Gronelândia”, que já podem ter sido atingidos. O documento ficou aquém do nível de alerta necessário, criticam cientistas

Perigos importantes deixados de fora do relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC/ONU), divulgado esta segunda-feira, estão a alarmar alguns cientistas citados pelo jornal inglês “The Guardian”. Os profissionais ouvidos pelo diário temem que os impactos dos humanos no clima da Terra possam estar a ser subestimados.

O relatório do IPCC deixava o alerta: ou se intensificam as ações climáticas face às evidências inequívocas de que o aquecimento global não deve ir além de 1,5ºC acima das temperaturas verificadas na era pré-industrial, ou será difícil viver no planeta no final deste século. À taxa atual do aquecimento global, os termómetros deverão subir 1,5°C entre 2030 e 2052, ou seja, já em meados do século.

Os cientistas que trabalham para o organismo científico mais importante do mundo na área do clima vêm confirmar que é mesmo importante que não se ultrapasse os 1,5ºC por forma a evitar “terríveis consequências”. Considerado o mais importante relatório de ciência climática da década, o documento pretende influenciar a tomada de decisões de política climática internacional para os próximos anos.

Relatório do IPCC não deu a importância devida a pontos críticos

No entanto, o relatório pode ter pecado por defeito. Muitos cientistas estão cada vez mais preocupados com fatores sobre os quais se sabe muito pouco. Estas “incógnitas conhecidas” das mudanças climáticas constituem pontos críticos, limiares que, se ultrapassados, podem empurrar o planeta para uma espiral de mudanças climáticas incontroláveis. Ora, esses pontos críticos mereceram apenas algumas menções no relatório do IPCC, queixam-se os cientistas ouvidos pelo “Guardian”.

O fundador e presidente do Instituto para a Governação e Desenvolvimento Sustentável, Durwood Zaelke, disse que o documento “não foca o elo mais fraco da cadeia climática: os feedbacks autorreforçados que, se continuarem, aceleram o aquecimento”, fazendo escalar os pontos críticos e provocando um “aquecimento descontrolado”. O cientista referiu-se ao vapor de água no ar, que retém o calor na atmosfera, à perda de gelo polar, ao colapso do gelo permanente do subsolo e à migração de nuvens tropicais para os polos.

Por sua vez, Bob Ward, do instituto do ambiente e mudanças climáticas Grantham Institute, alertou que o relatório do IPCC “apenas menciona os pontos críticos na Antártida Ocidental e na Gronelândia”. Esses pontos críticos já poderão ter sido atingidos, avisa. O documento “sugere que os outros pontos críticos são muito pouco compreendidos ou não serão desencadeados sem quantidades mais elevadas de aquecimento”, refere. “Dadas as suas consequências, seria de esperar uma abordagem mais baseada no risco”, sugere.