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Violada e assassinada. Victoria Marinova é a 44.ª jornalista morta em 2018

HANDOUT/ Reuters

Jornalista, 30 anos. Estava envolvida numa investigação que denunciava uma alegada fraude com fundos europeus e políticos búlgaros. Foi assassinada. Não há suspeitos nem certezas de que foi o seu trabalho que motivou a sua morte. Mas há suspeitas. Victoria Marinova é a 2.ª jornalista morta na Europa este ano, a 4.ª em pouco mais de um ano

Victoria Marinova morreu no pior país europeu para se ser jornalista. Ou melhor, mataram-na. Mas primeiro violaram-na. E agrediram-na. E estrangularam-na. O seu rosto estava desfigurado e não foi possível reconhecê-la quando as autoridades encontraram o corpo junto às margens do rio Danúbio, na cidade de Ruse, no norte da Bulgária, perto da fronteira com a Roménia. Victoria Marinova foi a quarta jornalista assassinada na Europa em pouco mais de um ano.

“O que está aqui em causa é violação e homicídio.” A garantia foi dada por Mladen Marinov, ministro do Interior búlgaro, que diz que nada aponta para que o homicídio tenha sido motivado pelo trabalho que Victoria estava a desenvolver. No entanto, os jornalistas que trabalhavam com ela, têm outra versão. “A morte da Victoria, pela forma brutal como foi morta, é uma execução. Tinha o objetivo de servir como exemplo, uma espécie de aviso”, assegura Asen Yordanov, jornalista e detentor da página Bivol.bg, com a qual a jornalista estava a colaborar.

O corpo foi encontrado no sábado por um homem que passeava junto ao rio, refere o “Balkan Insight”. Só no domingo se confirmou a identidade da vítima: Victoria Marinova, 30 anos. Segundo os procuradores, em conferência de imprensa e citados pelos meios de comunicação internacionais, morreu devido a uma pancada na cabeça e asfixia. Antes, foi violada, agredida, mutilada e estrangulada. Torturaram-na antes de a matarem. Deixaram-na junto ao rio. Telemóvel, chaves do carro, óculos e roupas desapareceram - continuam desaparecidos. Ainda não há suspeitos.

Além de jornalista, Victoria Marinova fazia parte da administração do TVN, um canal de televisão sediado em Ruse e um dos mais populares no norte da Bulgária. Apresentava o talk show “Detector” e a última vez que apareceu no ecrã foi a 30 de setembro.

“Estamos em choque. Nunca, sob qualquer forma, recebemos ameaças contra ela ou a estação”, disse um jornalista do canal que não se identificou, citado pela AFP. Hoje, todos eles temem pela sua segurança, acrescentou.

O último episódio emitido era sobre uma investigação do Bivol.bg, um site que se define como “privado e independente”, uma “outra forma de ter jornalismo de investigação de qualidade, opiniões objetivas de especialistas e análises dos assuntos mais importantes do quotidiano”. O trabalho em causa envolvia a alegada fraude que envolvia fundos europeus, empresários e políticos importantes do país. Victoria Marinova entrevistou Dimitar Stoyanov e Attila Biro, que recentemente haviam sido detidos pelas autoridades búlgaras enquanto investigavam a destruição de documentos - e isso foi motivo de condenação por parte da organização Repórteres Sem Fronteiras.

Estes dois jornalistas entrevistados por Victoria Marinova, refere o Conselho Europeu, denunciaram “a corrupção em larga escala e generalizada na Bulgária através de projetos com fundos da União Europeia que valiam centenas de milhares.”

“Extremamente disciplinada, ambiciosa e dava tudo de si nos assuntos em que trabalhava”, descreveram-na alguns colegas de trabalho ao “Guardian”. “Alguém com um enorme extremo sentido de Justiça.” Victoria Marinova deixou uma filha de sete anos.

Em 2018, segundo dados do Comité para Proteção dos Jornalistas, já morreram 44 jornalistas. Mais de metade foi assassinada (27), oito morreram no decurso de trabalhos perigosos e oito no meio de fogo cruzado (todos na Síria). Ainda permanece uma interrogação: Victoria Marinova.

“Estou convencido que é uma questão de tempo até o responsável ser apanhado”, considerou o primeiro-ministro búlgaro, Boyko Borissov.

A 44ª vítima

Jan Kuciak, Eslováquia, entre 22 e 25 de fevereiro de 2018.
Daphne Caruana Galizia, Malta, 16 de outubro de 2017.
Kim Wall, Dinamarca, 10 agosto de 2017.
Pavel Sheremet, Ucrânia, 20 julho 2016. Também mataram Shah Marai, Abadullah Hananzai, Sabawoon Kakar no Afeganistão; ou Carlos Domínguez Rodríguez e Leobardo Vázquez Atzin no México; ou Wendi Winters, Gerald Fischman e John McNamara nos EUA; ou Juan Javier Ortega Reyes e Paúl Rivas Bravo na Colômbia; ou Navin Nischal e Sandeep Sharma na Índia; ou Jefferson Pureza Lopes no Brasil. Todos eles foram assassinados.

Mas há muitos mais. Desde 1992 morreram (foram mortos) 1322 jornalistas. Em 2016 foram 50; em 2017, 46; e em 2018 já são 43. 44 com Victoria Marinova.

A Europa como um todo não é dos piores lugares para se ser jornalista. Mas se olharmos país a país, a Bulgária é um dos mais complicados para se exercer a profissão. No Índice Mundial para a Liberdade de Imprensa, que lista 180 países, está em 111.º, bem próximo de países como a Bolívia, República Centro Africana, Zâmbia e Congo (Portugal está em 14.º).

“A Bulgária continua a cair no índice e está na posição mais baixa entre os países da União Europeia”, lê-se na na descrição da classificação. “A corrupção e a colisão entre media, políticos e oligarcas é generalizada”, acrescenta o mesmo documento, sublinhando a “falta de transparência” no financiamento de alguns meios de comunicação social através de fundos europeus e o facto de nos últimos meses se terem intensificado “as ameaças e ataques a jornalistas”. “É a prova que ser jornalista na Bulgária pode ser perigoso.”

Há exatamente um ano, em Sófia - capital da Bulgária -, os jornalistas juntaram-se em protesto. Gritavam pelo fim da censura, pela liberdade de perguntarem o que quiserem. Valeri Simeonov, político nacionalista e membro do gabinete do primeiro-ministro, acusara os meios de comunicação tradicionais de estarem a levar a cabo “uma campanha maciça” contra si. Mais de 300 jornalistas reuniram-se em frente ao edifício do Executivo.

“O nosso protesto foi desencadeado pela acumulação de uma grande pressão nos órgãos de comunicação social por parte desta legislatura e do Governo. Impor condições e ultimatos é, de facto, interferir com os conteúdos editoriais e censura em todas as suas definições”, justificava na altura Irina Nedeva, responsável no país pelo Associação Europeia de Jornalistas, citada pela Bloomberg.