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“Não temos 42 milhões de fascistas, seria a maior concentração de fascistas da História. Temos é um pacto com Mefistófeles”

O Brasil quer “uma mudança, qualquer mudança”. Jair Bolsonaro, candidato de extrema-direita, venceu a primeira volta das eleições com 46% e vai discutir a presidência com Fernando Haddad, candidato do PT. Seja qual for o resultado da segunda volta, a 28 de outubro, há um país que “não quer conciliação”: “Temos rico contra pobre, sul contra nordeste, mulheres contra homens, mais educados contra menos educados”. Consequência: “Estamos dançando tango às cegas junto ao abismo”

Ana França

Ana França

Jornalista

MAURO PIMENTEL / Getty

Ainda sem ter ganho, Bolsonaro já ganhou. Há hoje quase 50 milhões de pessoas no Brasil, de entre um eleitorado de 140 milhões, que não só aceitam como guerreiam por algumas das políticas mais radicais que já foram manifestadas publicamente e em campanha no Brasil desde que a ditadura acabou.

Nos últimos meses, o país estilhaçou-se: de um lado, as hostilidades são conduzidas por um profundo ódio ao PT de Lula, ex-presidente do Brasil atualmente preso por corrupção; do outro está um país que continua pobre e que fez de Lula quase um enviado divino que possibilitou aos seus filhos negros ingressarem numa universidade, através de quotas, é certo, mas no Brasil ainda tem de ser assim. É apenas um exemplo. Alguém forçou uma mudança como quem opera um rolo compressor sobre alcatrão e, olhando para os resultados, há mais de 49 milhões de pessoas que acham que o PT foi demasiado longe. O herdeiro de Lula, Fernando Haddad, que não foi capaz de captar todo o capital político que Lula comandava, quase imune ao antipetismo, ficou-se pelos 29%.

“Em suma, não há paz à vista”, resume ao Expresso Wilson Gomes, filósofo e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Baía. “O resultado destas eleições mostra que os brasileiros não querem conciliação, negociação ou acordos possíveis. Estão apostados nos extremos e na contraposição. Estamos usando gasolina para apagar o fogo e dançando tango às cegas junto ao abismo”, acrescenta.

ALEXANDRE SCHNEIDER / Getty

Há cerca de 25 anos que o pingue-pongue entre PT e Partido da Social Democracia do Brasil (PSDB) é constante - ou entra um ou entra outro no Planalto - mas isso acabou este domingo, 7 de outubro. Jair Bolsonaro, um ex-militar que não se esquece dos “tempos áureos” da ditadura, que aliás, na sua opinião, “torturou de mais e matou de menos”, conseguiu 46% dos votos na primeira volta, o que o deixou a uns ínfimos 4 pontos de se eleger já como presidente. O simplismo da sua mensagem, a promessa de ruas seguras num Brasil dominado pela criminalidade e a “honestidade” da sua mensagem, ainda que ela seja bastante carregada de divisão social, parecem estar a abanar o Brasil, onde uma mudança, qualquer mudança, parece ser o que cada vez mais pessoas defendem.

A divisão, a polarização, o discurso “8 ou 80”, que já se verificou nas eleições de 2014, atingiu nesta campanha níveis “muito mais explícitos”, como dizem vários especialistas. "Temos rico contra pobre, sul contra nordeste, mulheres contra homens, mais educados contra menos educados. Existe uma estratificação muito mais explícita", aponta Andrea Freitas, professora de ciência política da Universidade Estadual de Campinas.

Na fila para votar, grávida de cinco meses e bastante emocional, Julia Assef, crítica de arte em Porto Alegre, no sul do Brasil, refere ao Expresso que tem medo de que “uma ditadura se instale novamente, medo do que essas pessoas vão fazer com porte de arma e medo dos extremistas que estão em ambos os lados e do ódio que se nota até na respiração das pessoas”. Convencida que está a testemunhar o retrocesso “demasiado triste” da sociedade brasileira, foi votar porque não quer que a filha nasça neste ambiente “machista, misógino e homofóbico” que viu brotar do discurso do mais comum cidadão nos últimos tempos.

Há poucos analistas que não sublinhem as divisões sociais como razão para esta ascensão de Bolsonaro, mas, no “El País”, Xosé Hermina, chefe de redação do diário em versão brasileira, é bem mais duro. É mais duro porque fala daquilo que, na sua opinião, realmente interessa às elites que escolheram o ex-militar - ressalvando, no entanto, que é impossível conseguir-se um resultado tão expressivo sem penetrar várias classes sociais. Escreve Hermina: “Até há poucos meses, o mundo do dinheiro ainda via Bolsonaro com suspeita. Não tanto porque ele disse que os direitos humanos são 'estrume', ou porque ele deu ordens para que os índios 'comam grama' em suas tribos ou porque ele se recusou a condenar o assassinato da vereadora esquerdista do Rio de Janeiro Marielle Franco. A discrepância subjacente foi a concepção estatista da economia que Bolsonaro herdou da sua querida ditadura militar (1964-1985). Os seus princípios não foram apreciados entre as elites, então ele contratou um guru económico ultraliberal e todas as dúvidas desapareceram”.

MAURO PIMENTEL / Getty

Já Tiago Cortês, sociólogo da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, não considera que existam riscos em Bolsonaro mas sim “oportunidades”. Organizador da campanha do candidato do PSL em São Paulo, Cortês diz ao Expresso que a polarização da sociedade “é de facto forte” mas isso porque a esquerda ficou “muito tempo no poder” e faltou “oposição incisiva durante muito tempo”. Considera que o discurso que está a ser construído pelo lado de Bolsonaro é de “união nacional”. Membro da equipa de arquitetos das políticas de Bolsonaro, o sociólogo garante que “não haverá revanchismo quando se formar governo”.

Por sua vez, Wilson Gomes sublinha que seria injusto dizer que todas as pessoas que votaram em Bolsonaro são fascistas e defendem uma sociedade militarizada onde o papel da mulher se reverteria, idealmente do dia para noite, para a cozinha e para a procriação. “Não podemos ter 42 milhões de fascistas, seria a maior concentração de fascistas na História, mas temos 42 milhões de antipetistas que, para conseguirem o que querem, aceitarão um pacto faustiano com Mefistófeles”, afirma. “Deram um cheque em branco ao fascista sem serem todos assim.”

Rafael Guedes tem 35 anos e é jornalista. Repele, como muitos, o rótulo “fascista”. “Os fascistas defendiam o Estado máximo, Bolsonaro defende o Estado mínimo. Os fascistas defendiam um nacionalismo obtuso, fechado; Bolsonaro defende um nacionalismo aberto, disposto a fazer alianças com os mais diversos países. Os fascistas defendiam o controle da mídia; Bolsonaro defende a liberdade de expressão”, escreve ao Expresso através do Facebook. O candidato do PSL de facto parece querer moderar o discurso. Depois de conhecidos os resultados, Bolsonaro falou aos seus eleitores através de um direto no Facebook e no YouTube e disse que o passo agora é “no caminho do centro-direita” e que o seu objetivo é “unir o país”.

Rafael Guedes votou Bolsonaro porque acredita que há “muita, muita gente” que não é representada pela classe política “de sempre”, incluindo as pessoas das zonas mais pobres, como o Nordeste, a quem o PT, no seu entender, também não serviu. “Do ponto de vista social, o resultado mostrou que a maior parte do Brasil quer Bolsonaro na Presidência da República. A parte que não quer é a menor, concentrada na região Nordeste do país, que vive escravizada a programas assistencialistas que o Partido dos Trabalhadores (PT) vinha usando para comprar votos”, escreve. “Acima de tudo, o resultado mostrou que o ‘establishment’ político do Brasil está contra os brasileiros. Mostrou que ele não entende os dramas da população brasileira. Mostrou que ele não se importa com o destino da população brasileira. Mostrou que o poder é tudo o que ele quer.”

Bolsonaro, que saiu fortalecido para a segunda volta, foi o primeiro, no entender de Rafael Guedes, “a defender uma agenda alinhada à direita, que ecoou profundamente no conservador povo brasileiro”. “Temos um político que zela pela liberdade religiosa, pela liberdade de expressão, pela família tradicional, pelo liberalismo económico e que zela pela segurança pública como nenhum outro candidato ou presidente jamais fez”, escreve o jornalista.

FOTO PAULO WHITAKER/REUTERS

O que aí vem

Há três tipos de voto em Bolsonaro no segundo turno, segundo o professor de História Bernardo Lucero, que também é apoiante do PT. “Primeiro aquelas pessoas que compram o discurso do radicalismo forte, que são uma minoria; depois o do antipetismo, para impedir o PT de governar pela quinta vez seguida; e o terceiro voto é das pessoas que estão totalmente descrentes na política, que não querem mais saber, nem de esquerda nem de direita.”

Se os níveis de polarização continuarem assim, as coisas ficam muito complicadas para a ala oposta a Bolsonaro. Se há esperança para Haddad é difícil dizer, mas o que há é quase um mês de luta pela frente - para ambos os candidatos. “Bolsonaro sai como favorito, sem dúvida, mas terá de se expor, participar em debates, apresentar propostas. Isto fará com que muitos que votaram apenas para se oporem ao PT reflitam e possam mudar seus votos. Entre o antipetismo e o fascismo, haverá quem abandone Bolsonaro”, diz ao Expresso Benedito Tadeu César, cientista político e escritor.

César acredita que o PT vai tentar ampliar as suas alianças “além da esquerda, incluindo parte do centro e, talvez, até mesmo alguns sectores da direita democrática”, mas deixa um aviso a Haddad: “Se o PT e sua coligação souberem trabalhar as suas próprias propostas e explicar os riscos de Bolsonaro, Haddad terá possibilidade de virar o jogo mas terá de centrar a sua campanha nas propostas económicas e sociais e fugir do debate moral e comportamental”.

“O segundo turno vai ser um voto de regiões”, diz Lucero. “O nordeste vai votar PT porque ganhou muitas políticas públicas. A grande disputa é pelos votos nos outros lugares porque o Nordeste viu a política funcionar, por isso votou mas o grosso da população não viu isso.”

Vinte dias são dezanove manhãs. Como escreveu Chico Buarque, “Apesar de você/ Amanhã há de ser / Outro dia / Inda pago pra ver / O jardim florescer / Qual você não queria”. Buarque tinha a certeza de que a música iria ser riscada pela censura mas não foi - isto, claro, até alguém se ter apercebido do que se tratava e ter invadido a fábrica da Phillips e destruído todos os discos, menos a matriz.