Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Não espero que nada mude no Brasil, o que ainda assim é bem melhor que o fascismo”

Sofia Perpetua

Sofia Perpétua, no Rio de Janeiro

Mariana Vieira subiu as escadas do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti com uma t-shirt com o rosto de Marielle Franco e vários adesivos do PT e do PSOL e procurou a sua sala de voto pelos corredores onde centenas de pessoas aguardavam em fila a sua vez de votar. As urnas abriram às 8h de domingo num Brasil autorizado a vestir as cores dos seus partidos e a segurar as bandeiras das suas convicções naquelas que são as eleições mais disputadas dos últimos anos. A direita reclamou para si as camisas amarelas da seleção de futebol, a esquerda coloriu-se de vermelho e adesivos de partido.

“O que está em causa é a própria democracia”, desabafa a jovem arquiteta enquanto verificava num papelinho todos os números e os códigos de cada candidato em quem decidiu votar. “Eu voto Haddad.”

Mas não foi a Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores indicado pelo ex-presidente Lula da Silva, que as sondagens de sábado atribuíram a vitória. Era dada quase como certa uma vantagem de Bolsonaro. A esquerda, dividida entre o voto em Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT), discutia quem teria mais hipóteses de ganhar num segundo turno. Alguns eleitores confessaram um dia acordar ‘Haddad’ outro dia acordar ‘Ciro’, confirmando a indicação de que 30% do eleitorado poderia mudar a sua intenção de voto no dia da eleição.

“Eu só quero conseguir dormir de noite, eu só quero que isto acabe logo”, comenta outro eleitor antes de votar. O novo sistema de voto biométrico foi recentemente adotado no Brasil fazendo com que votar se tornasse este ano um pouco mais demorado em alguns locais. No Rio de Janeiro, este sistema ainda não é obrigatório mas noutros estados causou até o cancelamento por falta de cadastro de 3,3 milhões de títulos eleitorais por parte do Tribunal Superior Eleitoral, um número que poderá influenciar a eleição.

Mariana aguardou na companhia da irmã e dos amigos a apuração dos resultados do primeiro turno na Praça São Salvador no bairro de Laranjeiras. Juntos assistiram através das televisões nos cafés em volta ao pior resultado do Partido dos Trabalhadores desde 1994, sendo que o candidato de esquerda em quem Mariana votou ficou 17 pontos percentuais abaixo do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro. Bolsonaro registou 46% dos votos, Haddad 29,3%, Ciro apenas 12,5%. Nenhum candidato poderia registar mais do que 51% para que um segundo turno fosse possível e foi isso que se verificou. Bolsonaro acabaria por vencer em todos os municípios do Rio de Janeiro.

Sofia Perpetua

Apesar de tudo, na Praça São Salvador o ambiente foi de festa da esquerda e alcançar o segundo turno teve um gosto de pequena vitória.

Rejane Laeta, Tainá Laeta e Mairce Araújo pularam de alegria com a confirmação de que haverá segundo turno e de que Haddad enfrentará Bolsonaro. As três são integrantes da ala das baianas da Mangueira e desfilam juntas todos os carnavais. Tainá termina um mestrado em Portugal, tentará conseguir votar em Haddad no segundo turno e confia na união das esquerdas contra o ‘coiso’ (nome utilizado em referência ao candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro).

Enquanto Natália brinda em jeito de festejo com a chegada ao segundo turno do seu candidato, ela olha o telemóvel mais uma vez, acusa as notícias falsas que são utilizadas como arma pelos apoiantes de Bolsonaro pelos resultados alcançados pela extrema-direita no Brasil. Outro dos protagonistas desta eleição foi o WhatsApp, o aplicativo de mensagens através do qual a maioria dos eleitores recebe informação - muitas dessas informações são fake news que se propagam rapidamente nas redes e influenciam o voto.

Mariana Telles e André Caiado são namorados. Ela votou na candidata Marina Silva (REDE), ele votou em Jair Bolsonaro (PSL).

“Acredito que Bolsonaro é quem vai combater a corrupção que está instalada no país”, afirma Caiado.

Mas a namorada não concorda.

“A nossa população no Brasil não consegue ter discernimento e consciência crítica para entender certas coisas. Bolsonaro estimula um discurso que é fascista e que é muito extremista. Muitos judeus afirmaram que votaram no Hitler porque achavam que o discurso dele era só para inflamar as massas. Dizer que as mulheres merecem ganhar menos porque têm filhos ou porque têm licença de maternidade é um pensamento retrógrado.”

O engenheiro militar Luan Kaique veste a camisa de futebol canarinha e exibe com orgulho os seus adesivos de apoio a Jair Bolsonaro, alguns dos seus amigos exibem adesivos de partidos de esquerda.

“Achei um resultado normal, é normal não ser tudo exatamente como nas pesquisas. A polarização é um resultado da democracia. Aguardo uma provável vitória de Bolsonaro no segundo turno.”

J. é um jovem negro que não quer revelar o seu nome. Ajusta os óculos e aproxima-se de Kaique. A conversa foi longa.

“Só ele ter tido essa abertura para que pudéssemos conversar foi bom. Eu convivo com eleitores de Bolsonaro todos os dias e não consigo ficar calado. A minha própria namorada votou no Bolsonaro, relembro-a que se tivermos um filho ele pode ser negro como eu mas mesmo assim é difícil conversar com ela.”

Sofia Perpetua

Rui Viera é português e vive no Rio de Janeiro há dois anos. Exibe com orgulho e recusa tirar do peito - mesmo depois de conhecidos os resultados - o seu adesivo de apoio ao candidato Ciro Gomes.

“Eu tinha esperança que o Ciro passasse ao segundo turno mas mesmo assim o resultado foi bom. Quem votou no Ciro vai dar um voto inteligente ao Haddad. Espero agora um segundo turno muito disputado, uma vitória na margem pela esquerda e uma governabilidade muito difícil. Não espero que nada mude no Brasil, o que ainda assim é bem melhor que o fascismo.”

Um apoiante de Bolsonaro sentado numa mesa de bar justificou o voto no candidato como ele sendo o único que faz frente ao PT, à corrupção e aos jornalistas.

“Eu não ouvi nenhuma declaração em que Bolsonaro diga algo de diferente do que o brasileiro que está aqui diz”, tentou explicar antes de a entrevista ser interrompida com gritos de “Haddad!” e “ele Não!”.

O segundo turno é no próximo dia 28 de outubro. O Brasil terá oportunidade de votar num projeto de governo para os próximos quatro anos - ou será pela esquerda de Fernando Haddad ou pela extrema-direita de Jair Bolsonaro. Até lá, pelas ruas intercalam-se vindos dos prédios, da rua, dos carros que passam, dos bares, gritos de “mito”, “Bolsonaro”, “Lula Livre”, “fascistas”, “racistas”, “pobres de direita” e “ele não!”.