Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Irmã de Marielle Franco intimidada, mestre de capoeira morto com 12 facadas por apoiar o PT: o Brasil depois da 1ª volta

getty

Jair Bolsonaro não fez declarações sobre os atos de violência registados no dia seguinte à eleição, apesar de em declarações durante a campanha ter manifestado a sua vontade de ver todos os ‘petralhas fuzilados’. O candidato de esquerda, Fernando Haddad, manifestou esta segunda-feira o seu repúdio pelas situações de ódio que se vivem nas ruas

Sofia Perpétua, no Rio de Janeiro

Anielle Franco caminhava na rua sem qualquer adesivo ou cor partidária e segurava no colo a sua filha de dois anos quando foi atacada e intimidada por apoiantes do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro. A criança ficou assustada com os gritos de “esquerda de merda”, “sai daí feminista”, “Bolsonaro, piranha!” de homens com camisas com o rosto de Bolsonaro.

“Hoje eu tive medo! Medo mesmo. Não deveria, mas tive. Foi assustador. Ainda mais com minha filha no colo.” A família de Marielle Franco recebe ameaças de morte desde o dia em que a vereadora do Rio de Janeiro foi brutalmente assassinada a 14 de março deste ano. Na semana passada, dois dos candidatos eleitos pelo PSL, o partido do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro, destruíram a placa com o nome de Marielle Franco durante um ato de campanha de Wilson Witzel, o candidato mais bem colocado na corrida a governador do estado do Rio de Janeiro, e partilharam com orgulho a foto nas redes sociais. Um deles, Rodrigo Amorim, foi o deputado estadual mais votado no Rio, o outro, Daniel Silveira, foi eleito deputado federal. O Rio de Janeiro foi o estado onde a extrema-direita alcançou mais apoio no primeiro turno, tendo Jair Bolsonaro vencido em todos os municípios da cidade.

Em Salvador da Bahia, o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katende, foi esfaqueado 12 vezes dentro de um bar ao manifestar o seu apoio ao candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad.

Num café do Rio de Janeiro, uma empregada de mesa contou com a voz embargada como não conseguiu conter as lágrimas enquanto esperava na fila pela sua vez de votar, este domingo.

“Eu estou muito apavorada. Tenho uma amiga que foi agredida com uma cadeira dentro de um restaurante só porque usava uma camisa vermelha, outra que foi perseguida de carro e recebeu ameaças de morte porque era gay.”

O clima de intimidação dos eleitores de esquerda intensificou-se na semana que antecedeu a eleição, com registo de vários incidentes - como o que aconteceu com a carioca G. (que pede ao Expresso para não ser identificada pelo nome e apelido por medo de represálias). Numa área residencial da zona sul do Rio de Janeiro, Caran pediu a alguns apoiantes de Bolsonaro que parassem de dizer palavrões junto das crianças que brincavam num parque infantil e foi ameaçada de morte, seguindo-se o disparar para o ar de sete tiros como intimidação.

Jair Bolsonaro não fez declarações sobre os atos de violência registados no dia seguinte à eleição de primeiro turno, apesar de em declarações durante a campanha ter manifestado a sua vontade de ver todos os ‘petralhas fuzilados’. ‘Petralha’ é o termo pejorativo utilizado pela direita para se referir aos apoiantes do Partido dos Trabalhadores, o PT do candidato Fernando Haddad, candidato escolhido pelo ex-presidente Lula da Silva, e seu adversário nas urnas no segundo turno.

(vídeo de Bolsonaro a fingir ter uma arma na mão a dizer ‘vamos fuzilar todos os petralhas do Acre!)

Há quem tenha medo de manifestar a sua opinião, dar o seu nome para uma entrevista, usar a cor vermelha na rua, escrever alguma coisa que o possa comprometer no WhatsApp, medo até de ter ter em casa livros que possam ser identificados como ‘comunistas’.

O candidato de esquerda, Fernando Haddad, do PT, manifestou esta segunda-feira o seu repúdio pelas situações de ódio que se vivem nas ruas um dia após as eleições de primeiro turno. “Um dia amargo para a democracia. A cultura do ódio precisa ser interrompida urgentemente.”

No primeiro turno, Jair Bolsonaro teve 46% dos votos, Fernando Haddad 29,3%. O segundo turno realiza-se a 28 de outubro.