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O que está em causa no Brasil é o regime democrático

Os apoiantes de Jair Bolsonaro estão cada vez mais confiantes na sua vitória à segunda volta

FOTO PAULO WHITAKER/REUTERS

Presidenciais. Domingo vão às urnas 147 milhões de eleitores. Haddad, candidato do PT, fala ao Expresso prometendo diálogo e paz

Um clima de inquietude, com a ascensão do candidato de extrema-direita nas sondagens, marcou a semana que antecede as eleições presidenciais de domingo. Além do fôlego favorável ao capitão reformado Jair Bolsonaro, na segunda-feira o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Tofolli, defendeu que se chamasse “movimento de 1964” ao período da ditadura militar (1964-1985).

No mesmo dia, o juiz Sergio Moro, que lidera a operação ‘Lava-Jato’, divulgou parte da delação premiada de Antônio Palocci, ex-ministro de Lula, feita em abril. Tal contribuiu para acirrar a rejeição ao candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, que vinha em crescimento contínuo. O magistrado vê-se, e não pela primeira vez, acusado de partidarismo. “Porque é que Moro, que divulgou ilegalmente gravações entre Lula e Dilma pouco antes da destituição, revela uma delação de abril em vésperas da primeira volta?”, indaga Paulo Sérgio Pinheiro, académico e militante pelos direitos humanos.

Haddad diz ao Expresso estar pronto a “dialogar com a sociedade e fazer um Governo para todos, mas com atenção maior para quem mais precisa”. Promete que o país “voltará a ter diálogo, união e cooperação”. Está taco a taco com Bolsonaro nas sondagens da segunda volta (dia 28). “Subestimámos o avanço da extrema-direita”, alerta Pinheiro. “Houve a ilusão de que estaríamos protegidos da onda europeia e mundial. Mas não. As pessoas perderam a vergonha de expor o sentimento antipovo.”

Quarta-feira, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) encabeçou um manifesto assinado por 90 intelectuais que pede apoio a Geraldo Alckmin, em nome de um “compromisso radical com a democracia”. O problema é que o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) não descolou dos 10% nas intenções de voto.

Um dos signatários é o jurista José Gregori, ex-ministro da Justiça com Cardoso e embaixador do Brasil em Portugal entre 2002 e 2003. “Vejo o Brasil num momento muito preocupante, no qual prevalece um tipo de polarização entre duas forças que sempre conviveram mal e continuam assim. É uma disputa que só pode atrapalhar a superação da crise dos últimos cinco anos”, diz. Sobre uma possível frente democrática contra Bolsonaro na segunda volta, responde: “Não quero fugir à pergunta, mas seria antecipar algo que pode acabar não ocorrendo.”

Terceira via com Ciro Gomes

Nas redes sociais circulam manifestos pela desistência de Marina Silva (Rede Sustentabilidade) e Alckmin a favor de Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista (PDT). As sondagens sugerem que é quem tem mais chances de bater Bolsonaro na segunda volta. Sendo progressista, não suscita rejeição no PT e, com cerca de 11% das intenções de voto, tornou-se uma terceira via. Um manifesto que circula na rede prega: “Diante da polarização destrutiva, a frente democrática capaz de impedir o fascismo passa hoje pelo voto em Ciro Gomes!”

Marina não pensa assim. Apesar das evidências contrárias, declarou ao Expresso acreditar que chegará à segunda volta, pois as sondagens não refletem o entusiasmo nas ruas. “O eleitor saberá rejeitar os candidatos da polarização e perceberá que sou a única capaz de unir o país em torno de uma agenda de Brasil no século XXI.”

Ninguém quer abrir mão do sonho do poder, nem sequer em nome de uma estratégia cívica para impedir o possível regresso da ditadura militar e travar um candidato que defende a tortura e o assassínio, prega a misoginia e a homofobia. Nesse clima de tensão, o empresário Ricardo Semler, ex-professor da Faculdade de Direito de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), escreveu um artigo no jornal “Folha de S. Paulo” intitulado “Alô, companheiros de elite”. Refere os inúmeros erros cometidos pelo PT, no qual nunca militou, mas diz que é melhor do que uma ditadura.

Em viagem pela Europa, Semler reafirmou ao Expresso que o Brasil precisa de um Governo para quem tem pouco. Otimista, acredita que “o menosprezo pelo humilde estava escondido, veio à tona com Bolsonaro, mas ainda representa uma minoria da população”. O resto, diz “é ódio anti-PT de quem não está vendo as consequências que podem advir”.

Semler atribui um certo cinismo à elite brasileira (à qual pertence), que faz cara de espanto com o roubo dos cofres públicos, como se isso tivesse começado com o PT. No fundo, é um flagelo muito mais antigo.

Além da polarização e da retórica violenta, uma característica destas eleições é a força das redes sociais. “Antigamente o rádio e televisão pesavam muito. Isto mudou”, afirma Marco Antonio Teixeira, cientista social da Fundação Getúlio Vargas. Prova disto mesmo é que Alckmin, ex-governador de São Paulo, que tem direito a 12 minutos de tempo de antena (44% do total) não sobe nos estudos de opinião. Bolsonaro tem 15 segundos, mas grandes grupos de apoio nas redes com produção voluntária de notícias. “Ele possui um exército virtual.”

Apesar da força do movimento #EleNão, Bolsonaro cresceu entre as mulheres de alta e baixa escolaridade. A subida deve-se também ao apoio explícito dos evangélicos, liderados pelo bispo Edir Macedo, e do pessoal do agronegócio, com peso importante no Congresso, que quer leis que permitam a deflorestação fácil. Bolsonaro avisou que não vê sentido num Ministério do Ambiente.

Para ilustrar o ambiente de apreensão, recorda-se uma frase do músico Tim Maia (1942-1998), que dizia que o Brasil nunca pode dar certo, por ser um país onde “prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita”.