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Separatistas catalães estão cada vez mais divididos

A polícia regional carregou sobre quem tentou invadir o parlamento catalão

Pedro Sánchez rejeitou o referendo exigido por Quim Torra. Estabilidade em risco?

Angel Luis de la Calle

Angel Luis de la Calle

correspondente em Madrid

Durou menos de 24 horas o desafio do presidente da Catalunha, Quim Torra, ao Executivo central. O ultimato, lançado terça-feira, exigia um referendo de autodeterminação “vinculativo, pactuado e reconhecido internacionalmente”. A proposta teria de vir de Madrid até ao fim do mês de novembro.

Num momento de divisão no bloco independentista, Torra obedece a ordens vindas de Waterloo, perto de Bruxelas, onde vive o ex-presidente fugitivo, Carles Puigdemont. Caso o Governo espanhol não acatasse a sua chantagem, avisou Torra, os separatistas retirar-lhe-iam o apoio no Parlamento nacional, podendo precipitar a queda do Executivo. Os votos das formações independentistas foram cruciais para, em junho, o socialista Pedro Sánchez destronar o conservador Mariano Rajoy, através de uma moção de censura.

O Executivo central foi claro. “Não é preciso esperar um mês para Torra saber o que opina o Governo de Espanha”, disse a porta-voz e ministra da Educação, Isabel Celaá, apenas duas horas após o surpreendente pronunciamento de Torra. “Autogoverno sim, independência não. Convivência sim, independência não.”

Quarta-feira foi divulgado o conteúdo de uma carta enviada por Torra a Sánchez. O governante catalão pede, em tom respeitoso e sem indicar prazo, uma reunião para “falar de tudo”. Enquanto Torra exprimia no parlamento regional — reunido pela primeira vez desde julho — a exigência do referendo, duas comissões bilaterais mantinham reuniões de trabalho normais sobre assuntos pendentes.

As duas principais forças separatistas não se entendem quanto à estratégia a adotar. Se Puigdemont, do Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCAT), insiste em desafiar Madrid, a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) prefere uma abordagem mais pragmática e dialogante. Ontem, divergências sobre a forma de delegação do voto dos seis deputados presos ou autoexilados (que conservam o mandato por decisão do parlamento regional, apesar de suspensos pelo Supremo Tribunal) levaram à interrupção da sessão parlamentar e deixaram o governo regional em risco.

Traição, acusam radicais

O ultimato de Torra pôs a nu, uma vez mais, os paradoxos dialéticos deste conflito, cujo momento mais notório aconteceu há um ano, com o referendo de autodeterminação convocado por Puidgemont à margem da lei espanhola e marcado por duras cargas policiais (ver texto ao lado). A política de apaziguamento patrocinada em Madrid por Sánchez provoca muitas críticas em sectores do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, social-democrata), de que é secretário-geral e que constitui a escassa base parlamentar do Governo (84 deputados num total de 350).

A aparente tibieza de Torra na Catalunha e as suas vacilações na implantação da República Catalã, desejada por parte da população da região, provocam a repulsa, por vezes violenta, de companheiros seus do bloco separatista, que o acusam de “traição”. Mesmo quando se decide a tomar a iniciativa, como no ultimato de terça-feira, Torra é alvo de críticas. No PDeCAT — de que Puigdemont é membro mas Torra não, embora tenha sido a formação que o indicou para presidente — caiu mal a ausência de aviso prévio ao desafio lançado a Sánchez.

A ERC alerta para os riscos de fazer ameaças difíceis de cumprir. O seu porta-voz-adjunto no Congresso dos Deputados, Gabriel Rufián, avisa que “o diabo dá cabo dos referendos”. Reagindo à ameaça de Torra de retirar o apoio parlamentar a Sánchez, Rufián garante que “as posições da ERC em Madrid são decididas pelo grupo da ERC em Madrid”.
O partido quer fazer o seu próprio caminho. Designou como candidato à Câmara de Barcelona o secretário regional dos Negócios Estrangeiros, Ernest Maragall (irmão de Pasqual Maragall, alcaide entre 1982 e 1997), procedente do socialismo catalanista não-independentista. Já o líder do partido, Oriol Junqueras, que está preso, encabeçará a lista da ERC ao Parlamento Europeu. Em ambos casos não houve concertação com o PDeCAT.

Direita quer artigo 155

É da ala radical do espectro soberanista — a Candidatura de Unidade Popular (CUP, extrema-esquerda antissistema) — que provêm os epítetos mais duros contra as contradições do governo regional. “O direito à autodeterminação não se negoceia, exerce-se”, sentenciou María Sirvent, uma das dirigentes mais conhecidas da CUP. “Desobedece ou demite-te”, lê-se em cartazes dirigidos a Torra, exibidos durante as agitadas manifestações comemorativas do 1 de outubro (aniversário do referendo), que mostraram bem a capacidade de convocatória e mobilização de rua desta formação política.

Do bloco constitucionalista chegam críticas a Sánchez. Partido Popular (PP) e Cidadãos (C’s), no leque do centro-direita, parecem estar em sintonia na oposição à contenção do Governo. Pedem nova e imediata aplicação do artigo 155 da Constituição, que é como quem diz a suspensão da autonomia.

O Podemos (P’s, esquerda populista) tornou-se o único apoio concreto de Sánchez, tanto nas posições que exprime como no sustento parlamentar. Já o Partido Nacionalista Basco, que apoiou a investidura do socialista, começa a agastar-se com o atraso do Executivo central na transferência de competências prometidas. Há dias o seu presidente, Andoni Ortúzar, recordava que “a paciência do PNV não é infinita”. É conhecida a história de choques entre o País Basco e Madrid.

A situação está tão enredada que certos peritos creem que o desafio de Torra esconde uma finalidade maquiavélica que seria vantajosa para as aspirações separatistas. Se forçasse o Governo a aplicar o artigo 155, como pede a direita espanhola, o executivo regional conseguiria voltar a unir (por reação) o disperso bloco independentista. Caso a retirada de apoio a Sánchez conduzisse a eleições antecipadas, o próximo Governo espanhol poderia ser mais do agrado dos separatistas se, por exemplo, PSOE e P’s formassem maioria. O partido esquerdista não é a favor da independência catalã, mas cultiva a ambiguidade e declara-se a favor do direito à autodeterminação. Resta saber, claro, se a pugna interna não causa antes eleições na Catalunha.