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Roménia: “Vivi a ignorar o meu coração e os meus desejos e não imaginas o mal que isso me fez”

Referendo sobre a mudança da Constituição romena decorre este fim de semana. Uma das alterações a votos prevê o não reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo

Foto REUTERS

Se o referendo passar este fim de semana, a Constituição da Roménia vai dizer que uma família só é reconhecida se resultar da união de um homem e uma mulher. Muitos romenos vão boicotar o voto, até porque os direitos dos homossexuais já são praticamente inexistentes. Igreja Ortodoxa movimenta as massas de que os partidos precisam e já há pouca autocensura ao discurso de ódio

Ana França

Ana França

Jornalista

Abateu-se um inverno ideológico sobre a Roménia, “a noite do pensamento”, como diz Nick, um ativista pelos direitos das minorias que não revela nem o segundo nome nem o da instituição onde trabalha. Não é a primeira manhã em que acorda com notícias de multas, rusgas e pressões sobre outras instituições que decidem denunciar o ambiente “claustrofóbico” que se vive por estes dias na Roménia. “É um espécie de ditado aqui, a noite de qualquer coisa é a parte pior, mais sinuosa, mais difícil de ultrapassar de uma problema”, conta ao Expresso ao telefone a partir de Bucareste.

Em maio do ano passado, o parlamento romeno aprovou a realização de um referendo que pode vir a modificar a Constituição do país. Se passar, uma família romena não será mais a união de dois cônjuges mas sim a união de um homem e de uma mulher. Esta redefinição não quer dizer que os casais homossexuais venham a ser presos ou agredidos por viverem juntos ou expressarem as suas opções, o que também já acontece, mas “é mais um passo na direção errada”, uma “justificação estatal para estes comportamentos”, diz Nick. O casamento entre pessoas do mesmo sexo não é permitido na Roménia, é o que diz a lei da família, tal como não é a adoção de crianças por casais homossexuais e por isso não é como se este referendo viesse retirar-lhes direitos - porque nunca os tiveram.

Alex Andronic, escritor e dono de um bar em Bucareste, escreveu no Facebook uma frase que se tornou viral para o movimento LGBT+ na Roménia. “Levem-me os direitos dos quais eu já não benefício se isso vos acalma, se isso vos leva para mais perto de Deus, para mais perto da tradição e se isso é importante para protegerem as vossas famílias. Façam o que manda o coração porque eu sei bem o que é não o poder fazer.” A frase tornou-se um grito de guerra e espalhou-se na internet como um fogo que se opõe a esta consulta.

“Defendam as crianças da Roménia e o casamento entre um homem e uma mulher. Votem SIM no referendo”, lê-se neste cartaz

“Defendam as crianças da Roménia e o casamento entre um homem e uma mulher. Votem SIM no referendo”, lê-se neste cartaz

Foto Daniel Mihailescu/AFP

Andronic, de 25 anos, foi alvo de violentos exemplos de discurso de ódio depois de ter publicado este suspiro. No geral, porém, a vida até melhorou. “Recebo pessoas de todo o país aqui no meu bar, a quantidade de clientes aumentou imenso e a esmagadora maioria vem cá apoiar-me. Até do estrangeiro recebo e-mails de pessoas que dizem que vêm cá de férias para virem ao meu bar”, diz ao Expresso depois de servir os almoços. O jovem explica a frase que tanto emocionou tanta gente. “Durante muito tempo eu não fiz o que o coração mandava. Vivi uma mentira, vivi uma vida a acreditar na moral dos outros e não na minha, a ignorar o meu coração e os meus desejos e tu não imaginas o mal que isso faz.” Como expiação, escreveu um livro, “Confuz”, sobre essa travessia do “deserto romeno da homofobia”.

“Eu quero que toda a gente se sinta livre, incluindo os que vão votar este fim de semana, mas não considero justo que uma pessoa vote sobre os direitos pessoais de outra. Não estou aqui para dizer a quem for o que tem de fazer, mas um dia os direitos destas pessoas podem ser-lhes retirados pelo voto de uma maioria que não tem nada que ver com as suas decisões pessoais”, acrescenta.

Andronic não vai votar de todo. “Estamos a tentar banir um tipo de relação que já está banida nas mentes e na lei, estamos a condenar de novo o que a sociedade já condena. Ainda não aprendemos que temos de nos preocupar apenas em sermos boas pessoas e com o que se passa na nossa vida, não na dos outros.”

Uma parte do argumento de Andronic encontra eco na justificação que os sociais-democratas, no poder desde dezembro de 2016, dão para a realização do referendo. Contactado pelo Expresso, o partido remeteu-nos para um comunicado em que se lê esta frase do vice-líder do partido, Daniel Gheorghe: “Nenhum direito está a ser posto em causa com esta medida, é apenas uma clarificação da legislação e um fortalecimento daquilo que significa a instituição da família para os romenos”. A outra parte da justificação do partido já é totalmente oposta ao que Andronic defende: “A identidade e os valores da sociedade em que vivemos estão sob ataque pelo mundo inteiro. A família é um alvo. Relativizam-se os valores morais e, assim, relativiza-se a importância da família”.

Mas quem tem um poder real no país é mesmo a Igreja Ortodoxa. Vários representantes políticos estão envolvidos em escândalos de corrupção que, no verão deste ano, trouxeram milhares de romenos às ruas, mas a Igreja, sobre a qual também recaem suspeitas, tem ainda imensos fiéis. “Há sítios sem escola e sem hospital mas há uma igreja e todas elas, por estes dias, têm à porta cartazes e faixas a defender o voto pela ‘família’”, diz ao Expresso um consultor na área da informática que trabalha para o governo e que, por isso, pediu para permanecer anónimo.

Um “não-assunto”

Como passa muito tempo perto dos políticos que acabaram por votar para que esta consulta fosse para a frente, este técnico, como, de resto, quase todas as pessoas com quem o Expresso falou, considera este referendo um “não-assunto”. Não só porque há outros problemas no país mas porque, de facto, não vem alterar nada. “Há um lóbi gigante da Igreja no governo mas isto é apenas uma cortina de fumo para que as pessoas não vejam o quão inapto o governo é, o quão incapaz de resolver até as coisas mais básicas. Há uma grande exploração de temas sociais para captação de capital político, de votos, mas os deputados nem falam disso, este referendo não tem nada que ver com isso, é para redirecionar a atenção do público”, diz.

Vlad Viski, direitor do grupo de defesa dos direitos da comunidade LGBT+, fala num protesto contra o referendo

Vlad Viski, direitor do grupo de defesa dos direitos da comunidade LGBT+, fala num protesto contra o referendo

Foto Octav Ganea/REUTERS

Para o referendo passar são precisos cinco milhões de votos, mas para que parlamento considerasse este referendo foram recolhidas três milhões de assinaturas - mais de meio caminho andado. “Sim, é assustador que tenham conseguido tantas assinaturas, é possível que o referendo passe, mas essas assinaturas, na sua maioria, foram conseguidas pelos padres junto das suas congregações e não é a primeira história que nos chega sobre pressões e ameaças para terem chegado a tal número”, afirma ao Expresso Ana Luca, diretora da sede romena da Rede de Jornalismo de Investigação dos Balcãs (BIRN). Muitos grupos de defesa dos direitos da comunidade LGBT+, como o MosaiQ, estão a pedir às pessoas para boicotar o voto para que o resultado não seja vinculativo.

No parlamento, apenas 22 deputados votaram contra a realização do referendo, do novo partido União para a Salvação da Roménia, criado em 2016. “Há um problema de base na Roménia que é a própria definição de esquerda e direita. Supostamente, os sociais-democratas no governo são de centro-esquerda, mas hoje todos os partidos vão atrás do que acham serem os temas que mais potencial têm para movimentar as massas, em vez de apresentarem ideias para resolver os problemas da população às quais a população possa aderir”, argumenta Luca.

Por baixo do “enorme manto ortodoxo que cobre a Roménia”, como diz Nick, esconde-se algo mais grave do que este referendo. “Os partidos, todos eles à exceção de um, emolduram-no como um golpe contra a União Europeia e é por isso que estão a investir tanto nisto. Cerca de 35 milhões de euros, para sermos exatos”, refere Nick, um número também divulgado por várias agências internacionais de notícias.

O populismo dos políticos, sustenta Nick, não difere muito daquele que se está a verificar noutras democracias “iliberais” no leste da Europa. “Há uma fatia jovem e mais liberal que emigra, é diabolizada pelos políticos por ter abandonado a pátria, políticos que então passam a ter de galvanizar as camadas mais velhas e mais pobres da sociedade e utilizam qualquer arma para isso”, afirma o jovem ativista de 31 anos, com 10 passados a trabalhar em várias organizações pela aceitação das minorias, não apenas dos homossexuais mas também, por exemplo, dos ex-reclusos.

Motivos suspeitos?

E as suspeitas sobre todos os outros motivos que possam existir sobre a realização deste referendo não param de se multiplicar. Mais uma suspeita de Nick: “Isto é um teste para um outro referendo que será sobre se os políticos, depois de condenados por algum crime, podem voltar a exercer cargos públicos. A um romeno comum não lhe dão emprego, nem como jardineiro, se esteve preso”. Também Luca diz que a aproximação ao conservadorismo social que tem vindo a ser defendido, por exemplo na Rússia, pode levar a que outros temas venham a ser alvo do mesmo escrutínio: “Isto não é apenas sobre o casamento gay. É sobre a posição da mulher, o aborto, a educação sexual nas escolas e tudo mais que seja demasiado liberal”.

“Não é apenas o referendo, toda a retórica mudou para uma espécie de discurso antiUE e os partidos estão a vender isto como uma declaração de independência da UE e é muito estranho porque vivem oficialmente três milhões, mas de facto são quase seis milhões, de romenos fora do país, a maioria noutros países da Europa. Mas como não podem referendar outras regras, tipo a liberdade de movimento dentro da UE, porque aí sim os romenos passavam-se, pegaram nisto.”

Roménia não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo e só reconheceu aquelas realizadas noutros países após imposição da União Europeia

Roménia não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo e só reconheceu aquelas realizadas noutros países após imposição da União Europeia

getty

Desde que o parlamento deu luz verde à realização do referendo, todos os grupos religiosos que estavam mais ou menos adormecidos começaram a produzir propaganda em massa. Um exemplo: “Temos de entender que o nosso voto é absolutamente essencial, o quão é crucial que protejamos os nossos filhos e os nossos netos, porque se não votarmos ‘sim’, os casais gay vão roubá-los e adotá-los”.

O principal, a Coligação Pela Família, não respondeu aos contactos do Expresso, mas há bastante literatura na internet sobre os seus objetivos. Na declaração de missão pode ler-se: “É do conhecimento de todos que a família, criada pelo matrimónio entre um homem e uma mulher, é a única relação que pode garantir o ambiente ideal para o nascimento, crescimento e educação de uma criança. A instituição da família precisa de ser protegida e reforçada”.

Discurso de ódio “normalizou-se”

Nas ruas, os insultos são mais comuns, as multas de carro a homens que estejam no carro sozinhos são mais comuns e as mensagens amargas nas paredes de Bucareste vão espigando da noite para o dia. Mas Nick tem problemas mais urgentes em mãos. Quando a campanha entrou na sua fase mais feroz, há cerca de seis meses, Nick começou a receber na ONG onde trabalha “algumas dezenas” de jovens cujos pais, por suspeitas de que fossem homossexuais, os expulsavam de casa. “No último ano recebi dezenas de jovens, a maioria deles entre os 16 e os 17 anos, que não tinham onde ficar, nem naquela mesma noite.

Através dos meus contactos, totalmente informais, fui colocando alguns em casas de amigos, famílias, pessoas que não se importam de ceder um quarto por pouco dinheiro.” Luca diz que as notícias de espancamentos em escolas aumentaram bastante. “Há cerca de cinco casos por semana de pessoas que foram agredidas de alguma forma por serem ou mesmo aparentarem ser homossexuais”, aponta. “Ainda há movimentos de extrema-direita bastante fortes no país e, com o ressurgimento deste fervor religioso, muitos movimentos que estavam à margem da sociedade encontraram a luz do dia - e o pior é que não há ninguém a mandá-los para a cave outra vez. A autocensura já não é precisa.”

Na segunda-feira, menos de uma semana antes deste voto, Nick encontrou uma surpresa no seu pequeno-almoço. “Fui ao pão e dentro dos pacotes de uma das marcas mais conhecidas estava publicidade a favor deste voto.” Confrontado pela VICE, o dono da fábrica não nega a sua intenção: “Se deixarmos as nossas crianças crescer ao lado de homossexuais, somos pais de qualidade duvidosa”, disse o homem, que, no final de contas, não quis dar o nome.