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Muitos desastres, pouca preparação

À procura do que possa ter sobrado depois da passagem do tsunami na ilha indonésia de Sulawesi

Como se fosse a primeira vez, a costa de Sulawesi ficou devastada. Já há mais de 1200 mortos contados

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Uma semana passada sobre o terramoto e subsequente tsunami que varreu Palu e Donggala, na ilha de Sulawesi, no centro do arquipélago indonésio, o jornalista Sita W. Dewi — que reportou, ainda como principiante, a erupção vulcânica do monte Merapi, em Yogyakarta, que matou 353 pessoas e deixou mais de 350 mil desalojadas —, escreve numa coluna de opinião: “Vivemos com eles, mas não estamos preparados para desastres naturais.”

O artigo, no jornal “The Jakarta Post”, evoca a banda sonora de um vídeo amador da passada sexta-feira que se tornou viral. O filme mostra a massa de água prestes a arrasar a praia de Talise, em Palu.

“Tsunami! Corram para um lugar mais alto! Salvem-se!” São estes os gritos do videoamador captados no filme, seguidos do seu choro desesperado quando verifica que as pessoas correm não para cima mas em todas as direções, sem noção do que fazer.

A ideia expressa por Dewi, que cobriu outros desastres deste tipo que assolaram o país, é que, embora se possa atribuir culpas à Agência de Meteorologia, Climatologia e Geofísica indonésia (BMKG) e à eficácia duvidosa do sistema de alerta de tsunamis, a verdade é que “as pessoas não estão preparadas para um desastre de larga escala”, como os que acontecem repetidas vezes naquela zona do Sueste Asiático, no Círculo de Fogo do Pacífico.

O correspondente do jornal em Palu escreveu por estes dias que os habitantes nunca tinham feito qualquer exercício de preparação para terramotos ou maremotos: “Vivemos na maior nação-arquipélago do mundo, e a maioria das crianças não aprende a nadar nem sabe nada de primeiros socorros”, conclui.

Casa roubada...

Desde que Palu, Donggala e Mamuju foram devastadas, no início da noite de sexta-feira, 28 de setembro, pela onda mortal que se seguiu ao terramoto de 7,5 graus na escala de Richter, os habitantes da ilha de Sulawesi têm passado os dias a identificar os mortos. As autoridades já contaram 1234 vítimas, e as buscas prosseguem na massa de escombros em que se transformaram as casas e as infraestruturas daquela zona da ilha.

Os sobreviventes ficaram sem abrigo, e falta quase tudo o que consta das listas divulgadas nas páginas iniciais dos sites de jornais indonésios: combustível, água potável, pessoal médico, medicamentos e hospitais de campanha, tendas, cobertores, alimentos, lâmpadas, geradores, cozinhas de emergência, sacos para cadáveres, mortalhas e alimentos para crianças. A lista é mais extensa, mas a ordem é esta, e as informações úteis divulgadas nomeiam as instituições e organizações não-governamentais através das quais toda a ajuda deve ser canalizada.

O estado em que ficou a maior parte das populações afetadas mede-se, também, pelo grau de caos da situação que se vive na ilha. Ao longo da semana, muitas lojas foram pilhadas, comprometendo o acesso dos habitantes a alimentos, e tem havido fugas de prisões locais, colocando as forças de segurança em alerta.

Ondas de 5,5 metros

Vários cientistas manifestaram-se surpreendidos com o grau de destruição das ondas geradas por um terramoto daquela magnitude. “Esperávamos que desencadeasse um tsunami, simplesmente não tão grande. Quando acontecem desastres como este, acabamos por descobrir coisas em que não tínhamos pensado antes”, declarou o geofísico Jason Patton, consultor da Universidade Humboldt, ao “The New York Times”.

O terramoto teve o seu epicentro na costa leste da ilha de Sulawesi, a cerca de 80 quilómetros a norte de Palu. Alguns relatos dizem que 30 minutos mais tarde ondas de 5,5 metros de altura entraram na cidade, vindas da praia, arrastando tudo à sua frente. Os prédios pareciam cenários de papelão a serem empurrados uns contra os outros, esmagando carros e matando centenas de pessoas pelo caminho.

A falta de preparação da população para estes desastres frequentes é apontada por todos os analistas.