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“O animal que está na Casa Branca fez muitas mulheres concorrer”

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Juli Briskman, candidata às eleições de novembro, tem 50 anos e é mãe de dois filhos. Especialista em marketing e comunicação, trabalhava há seis meses na empresa Akima, sedeada na Virgínia, que tem contratos com o Estado. Foi despedida por ter usado a foto acima nas redes sociais, que a firma considerou “obscena”

Há cerca de um ano, Juli Briskman mostrou o dedo do meio ao Presidente dos Estados Unidos da América e, quando publicou a imagem desse episódio no Facebook, foi despedida da empresa Akima onde trabalhava como analista de mercado. Tornou-se uma celebridade e hoje é candidata às eleições no condado de Loudoun, no estado da Virgínia. A resistência contra Donald Trump faz-se no feminino: a 6 de novembro cerca de 500 mulheres irão a votos, o que é um recorde (metade concorre ao Congresso). Em entrevista ao Expresso, Briskman, de 50 anos, explica porque se candidata a membro do Conselho de Supervisores de Loudoun e diz-se indignada com o escândalo que rodeia Brett Kavanaugh e que mantém o país na expectativa (um quinto dos lares americanos assistiu em direto, na semana passada, às audiências no Senado). “É um Trump 2.0”, diz a ativista sobre o magistrado nomeado para o Supremo Tribunal, apesar de acusado de crimes sexuais contra três mulheres. “O caso tornou evidente que as mulheres continuam a ser discriminadas pela elite política, formada maioritariamente por homens”, assegura.

O Presidente a quem mostrou o dedo do meio — Donald Trump — acabou por aceitar que o FBI investigasse Brett Kavanaugh. Como antevê o desfecho deste caso?
Os indícios amontoam-se a cada dia que passa e não me surpreenderia que Trump anulasse a nomeação de Kavanaugh. Certo é que o FBI está a interrogar as alegadas vítimas, o que é péssimo para ele. Além disso, já após a audição no Senado, temos ouvido ex-colegas de universidade a dar pormenores sobre o comportamento irascível e a alegada dependência do álcool de Kavanaugh. O problema é que ele garantiu no Senado que a bebida nunca lhe toldou o juízo. Caso se prove o contrário, confirma-se ele mentiu sob juramento. Aliás, esse comportamento irascível ficou evidente no depoimento da semana passada, quando surgiu a disparar para todos os lados e a gritar contra os senadores democraticamente eleitos. Kavanaugh parecia um Trump 2.0.

Porque terá cedido Trump apenas à última hora?
Porque ele tem o hábito de defender os seus homens, independentemente das acusações. É o líder de uma espécie de clube de velhos rapazes. Mas, acima de tudo, não nos podemos esquecer de que Brett Kavanaugh foi escolhido a dedo por Trump, uma vez que é da opinião de que um chefe de Estado não pode ser alvo de uma investigação criminal. Se o caso da Rússia [alegado conluio entre Trump e o Kremlin para subverter as presidenciais 2016] chegasse ao Supremo, Kavanaugh salvaria o Presidente, que só está interessado em autopreservar-se. Por outro lado, e apesar da investigação do FBI, que, diga-se, terá apenas uma semana para apurar dados, este processo tornou óbvio que as mulheres continuam a ser discriminadas pela elite política, formada maioritariamente por homens. É por isso que tenho feito, por exemplo, campanha para que o estado da Virgínia seja o 38º a aprovar a Emenda da Igualdade de Direitos [emenda constitucional redigida para consagrar a igualdade de direitos para todos os americanos independentemente do sexo]. Estamos em 2018 e neste estado nem sequer temos as proteções constitucionais que impedem que sejamos discriminadas. Quero acabar com esta vergonha.

A falta de representação política das mulheres motivou-a a candidatar-se?
Sim. Uma parte pouco conhecida da minha história é que na altura em que fui demitida, dias depois de ter mostrado o dedo do meio a Trump, um colega meu disparou tiradas racistas e, mesmo assim, manteve o emprego. Acabei por processar a empresa, mas perdi a ação em tribunal. Pagaram o que me deviam, mas a violação da minha liberdade de expressão ficou por punir.

Recorreu?
Não. Os tribunais da Virgínia seriam pouco tolerantes com o meu caso, visto que há muita gente ofendida por eu ter desrespeitado a figura do Presidente. Ao invés, optei por entrar na política. Terei maior impacto dessa forma.

Há quase 500 mulheres a concorrer às eleições de novembro, um número recorde. É uma reação puramente anti-Trump ou algo mais?
Este animal que está na Casa Banca instigou centenas de mulheres a concorrer às próximas eleições. Espoletou um efeito dominó que fez com que elas viessem para a rua dizer o que lhes vai na alma. Depois temos o movimento #MeToo... à medida que a bola de neve rebolou e aumentou de tamanho, fomos descobrindo mais episódios de discriminação e violência. Tudo aconteceu devido à combinação desses dois fatores: a aberração chamada Trump e o ativismo do movimento #MeToo.

O próprio Trump foi alvo de acusações de violência sexual durante a campanha para as presidenciais. Chegámos a ouvi-lo dizer que quando vê mulheres atraentes agarra-as pelos genitais. Mesmo assim, as sondagens indicam hoje que 45% das americanas brancas continuam a apoiá-lo. Como é possível?
Durante décadas normalizámos certos comportamentos e agora estamos a destapar uma ferida da nossa cultura. Muitas mulheres que o apoiam resignaram-se a esse tipo de comportamento abusivo e, por isso, defendem-no. Há pouco tempo, falei com uma apoiante de Trump e perguntei-lhe como era possível apoiar um homem que maltrata as mulheres. Ela reconheceu que ele é um idiota, porém disse-me que todos os homens são como ele. Tudo isto é cultural e levará muito tempo a mudar, mas o que vai ajudar é a eleição de mais mulheres para cargos políticos.

Porque mostrou o dedo do meio naquele dia?
Naquela semana, há cerca de um ano, havia imensa coisa a acontecer. Porto Rico estava às escuras depois da passagem do furacão “Maria” e Trump não quis saber, mostrando-se mais preocupado em estabelecer políticas de imigração ultrarrestritivas e a desmantelar a reforma do sistema de saúde [Obamacare, realizada durante o mandato do seu antecessor]. Entretanto, com o país em alvoroço, ele divertia-se a jogar golfe. Quando o vi a sair do resort, enquanto passava de bicicleta, não me contive.

Ele voltou a jogar golfe ali?
Sim, é dele. Fica a menos de dois quilómetros da minha casa.

Costuma ir até lá protestar?
Claro. Sempre que ele lá está. Eu e centenas de pessoas.

Continua a mostrar-lhe o dedo do meio?
Não. Agora tenho cartazes.