Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Agora já não é só a economia, estúpido!”

ana baião

Ana Palacio, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros de Espanha

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

texto

Editor da Secção Internacional

A fragmentação da opinião pública, a crise de identidade da Europa e a ascensão dos populismos preocupam Ana Palacio, que se tem dedicado a pensar o mundo. A antiga governante falou com o Expresso em Lisboa, onde participou num encontro de quadros da Sociedade Francisco Manuel dos Santos.

Em semana agitada na Catalunha, recordo palavras de um eleitor, há uns anos: “Não sou separatista, mas entre tanto corte, desemprego e austeridade, construir um país é algo de positivo”.
Parafraseando o slogan de Bill Clinton nos anos 90, “It’s the economy, stupid!”, hoje sabemos uma coisa: “It’s not just the economy, stupid!” Muitas vezes, ela passa para segundo plano. A racionalidade dos interesses perdeu-se como motor da política. Tem que ver com um distanciamento entre elites e cidadãos. As redes que configuravam as grandes massas de voto foram pelos ares: partido, igreja, família, comunidade. A formação faz-se entre pares e nas redes sociais, câmaras de eco que não deixam entrar ideias diferentes. É preciso enfrentar isto. A ilusão faz com que haja poucas consequências políticas dos estragos económicos na Catalunha, ou os que são causados pelo ‘Brexit’. Nostalgia por passados que nunca existiram.

No Reino Unido alertava-se que o ‘Brexit’ ia custar 4000 libras a cada família. Resposta de uma apoiante da saída: “Nunca tive rendimento que se assemelhe a isso!”
Dávamos por adquirido que o projeto europeu ia avançar, que era sólido. O ‘Brexit’ mostrou que não é irreversível. Outra questão é: “Europa para quê?”. Em 1957, quando foi assinado o Tratado de Roma, era para manter a paz através da prosperidade. Como ninguém duvida da paz, a narrativa passa a ser “Europa é prosperidade”. Com a globalização, tudo isto começa a desfazer-se. Vem a crise económica e a Europa deixa de assegurar a prosperidade. Falta, pois, responder à pergunta: “Europa para quê?”. Ouve-se falar de círculos concêntricos, motor franco-alemão, Europa a várias velocidades, e o cidadão pergunta: “Que é isso?!”

Lá está o distanciamento…
Quando Hillary Clinton chamou “deploráveis” aos eleitores de Trump ou quando Theresa May fala dos “cidadãos de nenhures”, denotam falta de entendimento...

... e de empatia com o povo?
Há dias, no “Politico”, uma pessoa dizia, numa manifestação da Alternativa para a Alemanha [extrema-direita]: “Não sou nazi, tenho ascendência judaica, mas estes são os únicos que falam do que me interessa. Já não me importo de me manifestar com eles!”. Acabou o tabu do dentro ou fora do sistema.

Caem os “cordões sanitários”…
Eles e a comunidade, a família. Depois de Maio de 68, ideias radicais sobre direitos humanos, das minorias, dos homossexuais, contraceção, foram incorporadas pelos partidos, tal como a ideia de converter a economia de mercado numa economia social de mercado. Isso fez-se ouvindo, refletindo. Há que incorporar parte das ideias por trás dos atuais protestos: perda de identidade. Falou-se muito dos direitos das minorias, mas é preciso falar dos direitos da maioria. E de imigração. Urge estabelecer uma política de imigração legal e proteção das fronteiras externas, assumindo a diferença entre refugiados e imigração económica.

Há muita confusão.
O refugiado coloca-nos diante de uma obrigação jurídica que faz parte da identidade europeia. Há que adaptar ao presente esse o conceito, que data da Guerra Fria. Já a imigração económica tem de estar guiada pelos nossos interesses.

As eleições europeias de maio podem representar um recorde para os eurocéticos?
Os europeus têm-nas usado para castigar governos, e isto quando vão votar. As eleições de maio são fundamentais. Fale-se de educação, economia, defesa, segurança, projeção da Europa. É o que interessa aos cidadãos.

É uma tarefa árdua!
Há uma brecha geracional no que toca à tecnologia e ao consumo de informação. Os que defendemos a Europa referimos sempre os fundos estruturais, o Erasmus, etc. É bom, mas precisamos de mais, de um projeto que diga que a Europa tem de pesar no mundo, para defender as suas senhas de identidade. Ou conseguimos isso através da educação ou perdemos tudo.

Que Europa é realista construir?
Estamos em tempos de mutação. Há um fluxo de poder, económico e tout court, para o Pacífico. Há a China emergente. E o quadro institucional do pós-guerra — Bretton Woods, ONU, UE —, guiado pela racionalidade e pelo Direito, é abalado. Pela primeira vez em 500 anos a Europa não vai estabelecer regras. Pela primeira vez o cidadão crê que os seus filhos vão viver pior. Acabou a ideia ilustrada de progresso contínuo. A alternativa ao atual sistema internacional, com todos os seus defeitos, seria pior: relações externas baseadas na força. O mundo já não é atlântico mas a Europa continua a ter uma mensagem que ressoa e uma economia forte. Para termos peso no mundo, temos de estar unidos, adaptando-nos a uma era em que atores não-estatais também contam e ajudam a criar regras e normas.

Ana Palacio

Primeira mulher a chefiar a diplomacia espanhola (2002-04), no tempo do conservador Aznar e da invasão do Iraque, foi depois redatora da fracassada Constituição europeia e vice-presidente do Banco Mundial. Passou pela firma francesa Areva, dedicada à energia nuclear. Aos 70 anos, é conselheira de Estado e tem uma firma de consultoria.