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Domenico Lucano, o mayor italiano amigo dos refugiados, preso por suspeitas de favorecer ilegalmente os imigrantes

MARIO LAPORTA / Getty

Revista “Fortune” já o elegeu como um dos 50 líderes mais inspiradores do mundo

Ana França

Ana França

Jornalista

“Caramba! Gostava de saber o que é que irão dizer agora os bons samaritanos como o Saviano que querem encher a Itália de imigrantes!” Foi assim que o ministro do Interior de Itália, Matteo Salvini, “festejou” a prisão do presidente da câmara de Riace, Domenico Lucano, um conhecido defensor dos direitos dos imigrantes, precisamente a posição contrária à que levou Salvini ao poder. Saviano é Roberto Saviano, o escritor italiano fortemente crítico das políticas anti-imigração do recém-empossado Executivo.

Até na televisão Lucano era uma estrela, mas esta terça-feira deixou de poder sair de casa e acompanhar os jornalistas aos locais de trabalho dos refugiados quando as autoridades decretaram a sua prisão domiciliária, acusando-o de promover imigração ilegal. Um programa da Rai que o teria como protagonista também foi cancelado porque mostrava a sua cidade e a ele mesmo como exemplos de boas práticas de integração de refugiados.

Em 2016, a revista “Fortune” elegeu-o como um dos 50 líderes mais inspiradores do mundo mas as acusações que recaem sobre Lucano são sérias: além da já referida, o presidente da câmara de Riace está também acusado de adjudicações duvidosas de serviços de tratamento de lixo bem como de arranjar casamentos “por conveniência” entre italianos e mulheres estrangeiras. Também a sua mulher, Tesfahun Lemlem, enfrenta a acusação de ser conivente com a imigração ilegal e foi retirada de Riace.

As escutas feitas a Lucano, diz a polícia, revelam que, em pelo menos uma ocasião, o presidente da câmara terá dito ao telefone que o casamento seria “a única solução daqui para a frente” para o problema de uma mulher nigeriana que já teria visto a sua autorização de residência negada três vezes.

As suspeitas de adjudicações feitas sem respeito pelo devido processo de avaliar várias propostas também estarão ligadas aos programas que Lucano desenvolve para ajudar os refugiados. Escreve o “La Repubblica” que o presidente terá assinado contratos com duas cooperativas de recolha e tratamento de lixo e que empregam cidadãos migrantes sem ter dado atenção às propostas feitas por outras empresas para os mesmos serviços.

A investigação a Lucano começou já no ano passado mas as acusações mais graves, como desvio de fundos públicos e fraude, foram entretanto abandonadas como linhas de investigação. Mas esta prisão domiciliária levou agora alguns críticos de Matteo Salvini a ligar esta “perseguição” ao presidente às novas regras apresentadas pelo seu governo para reduzir a imigração, entre as quais um corte de fundos para a receção e integração de pessoas que cheguem a Itália de forma ilegal.

Lucano, ou Mimmo como por vezes é apelidado pela imprensa italiana, transformou a sua pequena cidade na região pouco povoada da Calábria, com cerca de 2000 pessoas, com a ajuda dos imigrantes. Deu-lhes casas abandonadas que eles reconstruíram e empregos com uma componente de ensino. O programa começou em 1998 e só agora é que Lucano está com problemas, já que relatórios feitos sobre a região referem a sua política de imigração como um mecanismo essencial ao seu desenvolvimento.

Desde que uma coligação de dois partidos populistas - a Liga e o Movimento Cinco Estrelas - venceram as eleições em Itália, a situação dos refugiados e de outras pessoas que chegam ao país de forma ilegal tem piorado bastante com o discurso de Salvini, da direita dura, a tornar-se o “novo normal”. Roberto Saviano, que vive em parte incerta depois de ter desfeito a máfia napolitana no seu livro “Camorra”, escreveu no Facebook que Itália deu esta terça-feira “mais um passo para deixar de ser uma democracia e passar a ser um estado autoritário”.