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“Olha para mim, olha para mim e diz que a minha história não importa”: Flake não olhou para Maria mas o que ela lhe disse mudou-o

JIM LO SCALZO

Um juiz norte-americano nomeado para o Supremo Tribunal mas acusado de abusos sexuais espera ser eleito. Um senador republicano com um voto decisivo estava inclinado a favor do juiz. Duas mulheres abusadas sexualmente no passado apanham o senador num elevador e falam-lhe “do pior momento de sempre” . O senador muda a decisão

“Olha para mim, não desvies o olhar.”

É raiva e é dor. É também coragem.

“Olha para mim.”

A voz treme-lhe.

“Olha para mim e diz-me que a minha história não importa.”

Maria Gallagher, 23 anos, gritou sem ter de levantar a voz. Ali, em frente ao senador que não a olhou nos olhos, falou pela primeira vez de como foi abusada sexualmente. Estava com Ana Maria Archila, 39 anos. E ele, que se limitou a fugir com o olhar e a dizer “tenho de ir”, é o senador republicano Jeff Flake – dono de um voto decisivo para a continuação do processo de nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal dos EUA.

O encontro aconteceu pouco depois de Flake emitir um comunicado em que anunciava o seu apoio a Kavanaugh e antes de votar na comissão de Justiça a continuação do processo para a nomeação do juiz, que foi acusado por três mulheres de abuso sexual. Maria e Ana Maria viram Flake, correram e, no meio da confusão de jornalistas, travaram o elevador. Contaram o que tinham a contar. Foi sexta-feira, o mundo ainda continua a falar sobre estas imagens.

O que está a fazer é permitir que alguém que violou uma mulher se sente no Supremo Tribunal. Isso é intolerável”, começou Ana Maria, ativista nova-iorquina que foi violada quanto tinha cinco anos.“Você tem crianças na família. Pense nelas. Eu tenho dois filhos e não sou capaz de imaginar que nos próximos 50 anos eles vão ter alguém no Supremo Tribunal que foi acusado de de violar uma jovem. O que está a fazer?”, questionou.

Seguiu-se Maria, cuja juventude, inexperiência e desespero se sentiram na voz. Mas não foi isso, foi bem mais: “Fui abusada sexualmente e ninguém acreditou em mim. Não disse a ninguém e o que você está a fazer é dizer a todas as mulheres que elas não importam, que devem ficar caladas porque se contarem o que lhes aconteceu vão ser ignoradas”. Terminou não há muito tempo a licenciatura em psicologia na Universidade da Virgínia e, ao contrário de Ana Maria, nunca esteve envolvida em movimentos sociais - diz apenas ser “uma pessoa apaixonada”.

A conversa foi gravada. A reação de Flake também: cabeça baixa, poucas palavras, parecia meio perdido, sem explicações, incapaz de justificar porque iria permitir que o processo de Kavanaugh continuasse. Parece ter dúvidas. E tinha-as.

Quem são as duas mulheres que mudaram a história?

Quando Flake se foi embora e já debatia na comissão de Justiça, Maria estava sentada no chão. Chorava com uma amiga. Quando planeou protestar no Capitólio, pensava apenas ficar de braços levantados com um cartaz no alto, camuflada no meio de manifestantes que se juntaram ao longo da semana passada do lado de fora do edifício, refere a CNN. Quando a decisão do senador se tornou pública, revoltou-se.

“[Flake] não conseguiu olhar-me nos olhos. E isso deixou-me muito zangada. Continuava a dizer obrigado e que lamentava enquanto não tinha noção do que aquilo que iria decidir iria fazer e significar para milhões de pessoas”, disse a jovem em entrevista ao “Daily Beast”. Após o testemunho emocionado, a mãe telefonou-lhe. Tinha-a a visto na televisão. Estava orgulhosa. Nunca antes tinha falado com alguém sobre o que lhe acontecera.

Ana Maria Archila passou toda a semana em Washigton DC a protestar contra a nomeação de Kavanaugh. Na segunda-feira apareceu no gabinete de Flake, mas como este não estava só se viria a encontrar com o senador dias mais tarde, no elevador.

Faz parte da direção do Centro para a Democracia Popular (CDP), uma organização que diz trabalhar na direção de “uma sociedade mais inclusiva e equitativa”. Chegou aos EUA com 17 anos, nasceu na Colômbia, refere a sua biografia na página da CDP. “Tornou-se um voz para a justiça racial, economia e na luta dos direitos dos imigrantes em Nova Iorque e por todo o país”, pode ainda ler-se.

As duas não se conheciam. Encontraram-se no Capitólio, entraram e, no meio da confusão de jornalistas, conseguiram chegar até Jeff Flake.

A importância de ser Flake

Jeff Flake, senador do Arizona, não deve sobreviver às intercalares de novembro, deixando o senado. No entanto, a sua decisão na sexta-feira era uma das mais importantes. Na comissão de Justiça estava tudo empatado: dez democratas votavam pela não continuação de Kavanaugh, enquanto dez republicanos apoiavam precisamente o contrário. Sobrava Flake, que, até àquele dia, não confirmara o que iria fazer.

O encontrou deixou-o com dúvidas e na comissão falou com uma série de senadores de ambos os partidos sobre o assunto. Ao democrata Chris Coons disse que estava nervoso e que lhe parecia ser bom ideia atrasar a confirmação por uma semana para dar tempo ao FBI para investigar. Flake continuava sem saber ao certo o que fazer: tentaram ligar ao diretor do FBI, Christopher Wray; depois conseguiram conversar com o vice-procurador-geral, Rod Rosenstein, que garantiu que era possível fazer a investigação ao candidato à liderança do Supremo.

JIM LO SCALZO/ EPA

O republicano indeciso continuava a precisar de apoio e encontrou-o junto das republicanas Susan Collins e Lisa Murkowski. E depois de todas as conversas paralelas à comissão, Flake decidiu: o FBI deve investigar.

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