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Portugueses na Venezuela foram bode expiatório de Maduro

Segundo Maduro, a carestia de vida é culpa dos comerciantes, não do seu Governo

FOTO MIGUEL GUTIERREZ/EPA

Maduro quis culpar comerciantes portugueses pelo fiasco da sua reforma monetária, abrindo a maior crise de que há memória entre Portugal e a Venezuela. Governo de António Costa foi rápido a reagir

Daniel Lozano, correspondente em Caracas

“Um grupo de supermercados escondeu os produtos às pessoas e começou a cobrar-lhes o preço que lhes apeteceu. Estão atrás das grades por violarem a lei.” A arenga de Nicolás Maduro, numa emissão obrigatória para todas as cadeias de televisão e de rádio, abriu a maior crise de que há memória entre Portugal e a Venezuela, mais profunda do que a do Natal de 2017 por causa da carne de pernil de porco, desaparecida no Atlântico porque “os gringos assustaram-nos e eles [os portugueses] não mandaram a carne”, segundo o Presidente venezuelano.

Meia centena de gerentes e subgerentes de supermercados de emigrantes portugueses ficaram detidos cinco dias, acusados de boicote à Lei dos Preços Justos. Pelo menos dez eram de nacionalidade portuguesa, ameaçados com penas de prisão de 10 a 12 anos e tempo incerto em prisão preventiva, como já sucedeu com dirigentes da banca, de empresas de cartões de crédito e de casas de câmbio.

Ciente do perigo que impendia sobre os acusados, o Governo de Lisboa reagiu de imediato e traçou uma linha vermelha a Caracas. A pressão foi eficaz: todos os detidos foram libertados, esta semana, com medidas cautelares: proibição de saída do país, apresentação a cada 8 ou 30 dias e nada de declarações à imprensa (que, em todo o caso, não tinham vontade de prestar). Entre os libertados estão gerentes conhecidos no leste de Caracas, como Giotto Hernández, à frente do supermercado Excelsior Gamma de los Palos Grandes, e os encarregados da famosa Central Madeirense, que tem uma sede na capital nas instalações do Instituto de Previdência Social das Forças Armadas.

“Todos estão bem, nas suas casas, a descansar uns dias antes de regressarem aos seus empregos”, confirmou ao Expresso Fernando Campos, conselheiro da comunidade portuguesa na Venezuela. Escassos dias antes, segunda-feira, um juiz solicitou o encarceramento de três dos acusados, vituperados pelos sectores radicais do chavismo como traidores à pátria, tornados bode expiatório perfeito no âmbito da maior crise económica, social, política e humanitária de que há memória na América do Sul.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva reuniu-se com o homólogo Jorge Arreaza, a quem advertiu de que haveria “consequências nas relações bilaterais”. A clareza da mensagem corrigiu a estratégia dos juízes, que passadas 24 horas optaram pela liberdade condicional dos gerentes.

A comunidade portuguesa na Venezuela — cerca de 800 mil pessoas de primeira, segunda e terceira geração — respirou mais tranquila, mas só de momento: sabem que a espada de Dâmocles está sempre vigilante. “Tudo isto nos causa a maior preocupação, estamos desconcertados. A comunidade trabalha duramente, dando a cara, mantendo abertos supermercados, lojas e padarias apesar de a situação económica não ser a melhor. Este tipo de controlo não é a melhor forma de trabalhar”, explica Campos ao Expresso.

Para entender a minicrise é imprescindível conhecer o momento que se vive na Venezuela. O Programa de Recuperação, Crescimento e Prosperidade Económica lançado por Maduro há cinco semanas incluía uma reconversão monetária, acompanhada pela nova desvalorização da moeda mais castigada do planeta. Basta contemplar a nova nota de 500 bolívares soberanos (caso se tenha a sorte de a encontrar num país que mantém escasso dinheiro em circulação). Há pouco mais de uma década, antes das desvalorizações empreendidas por Hugo Chávez e Maduro, ela equivalia a 50 mil milhões dos antigos bolívares.

O Governo pretende conter a hiperinflação impondo preços baixos que geram perdas imediatas para produtores e vendedores. “As ações do Executivo para pressionar o sector comercial não produzem melhorias no abastecimento, pelo contrário”, explica o economista Luis Vicente León, presidente do instituto Datanálisis, que insiste em que “prejuízos relevantes provocam uma reação natural: as pessoas protegem-se reduzindo as encomendas e mantendo em mínimos os produtos nas prateleiras”. A pressão é tal que em Yaracuy, estado produtor da zona raiana, estão previstas penas de 14 a 18 anos para quem for apanhado a levar queijo ou pão para lá das fronteiras estaduais.

A propaganda nos media estatais censura os comerciantes, pelo que a libertação dos gerentes provocou a repulsa dos mais radicais. “Vão deixar que roubem o povo?”, queixou-se o dirigente bolivariano Giancarlo Di Martino.

O Governo revolucionário preferiu encerrar esta frente, pois não consegue lidar com a vertiginosa investida internacional, que em poucos dias somou censuras nunca vistas. Primeiro foi a denúncia perante o Tribunal Penal Internacional, quarta-feira, por violações de direitos humanos e as execuções extrajudiciais; depois, a dura resolução de quinta-feira sobre a crise humanitária no Conselho de Direitos Humanos da ONU. A Venezuela enviou tropas para a fronteira após acusar a Colômbia (e diplomatas chilenos e mexicanos) de estarem por detrás de um suposto atentado com drones contra Maduro, em agosto.