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Para onde vai o Nobel?

d.r.

O da literatura, este ano, para lado algum. Um escândalo sexual deixá-lo-á sem dono em 2018, o que não é novidade num prémio nascido há mais de 100 anos, rico em histórias, curiosidades e grandes realizações. E com uma distribuição desigual, em nacionalidade e em género

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Poucos títulos serão tão esclarecedores como o do livro de Burton Feldman sobre um dos maiores galardões alguma vez criados. Chama-se “O Prémio Nobel: Uma História de Génios, Controvérsia e Prestígio” e diz quase tudo sobre o que se tem passado. Para falar de qualquer dos substantivos faltaria espaço, por isso juntemos-lhe um outro, artifício com certos riscos, como o político sueco Erik Brandt viria a perceber ao escrever sobre o homem que quis nomear para Nobel da Paz, em 1939. Na carta ao comité organizador, Brandt citava “documentos autênticos” que revelavam que a paz mundial tinha estado ameaçada até esse homem “salvar o mundo de uma terrível catástrofe”. Era “o grande líder do povo alemão”, Adolf Hitler, o “que não deixou as armas falarem”. Pelo “luminoso amor pela paz, documentado no seu famoso livro ‘Mein Kampf’ — a par da Bíblia, talvez o melhor e mais popular pedaço de literatura do mundo — juntamente com a sua pacífica proeza — a anexação da Áustria”, Hitler, “o príncipe da paz na Terra”, era quem, acima de qualquer outro, merecia o reconhecimento.

O texto é de janeiro de 1939, e a piada perdeu-se no caminho, já que, meses depois, começava mesmo “uma terrível catástrofe”, a II Guerra Mundial. Entre um e outro momento, fascista foi a menor das ofensas que chamaram a Brandt, que gerou uma onda de indignação (o Nobel da Literatura a Bob Dylan e as redes sociais não inventaram nada) e se viu obrigado a retirar as palavras e o voto. Até muito tarde, a história foi dada a equívocos, por isso, o arquivo do Nobel esclarece que o parlamentar sueco “era, para todos os efeitos, um antifascista dedicado”, que pensou a nomeação “como uma crítica satírica ao debate político na Suécia” e à indicação do então primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, a Nobel da Paz. A disputa perderia o sentido, já que 39 foi o primeiro de cinco anos em que ninguém foi digno da palavra paz, muito menos do prémio, que só voltaria a ser entregue em 1944, ainda durante a Guerra, ao Comité Internacional da Cruz Vermelha.

Hitler não só nunca esteve para ganhar, como nunca deixou que ganhassem. O Führer forçou três compatriotas a abdicar do prémio — Richard Kuhn, Adolf Butenandt e Gerhard Domagk, Nobel da Química, os dois primeiros, e da Medicina, o último —, tal como fariam as autoridades soviéticas a Boris Pasternak, Nobel da Literatura em 1958. Os alemães acabariam por receber mais tarde o diploma e a medalha, perdendo-se o dinheiro. O que não é dizer pouco. Ainda que entre as décadas de 40 e 80 os valores monetários relativos tenham sido mais baixos, nunca ficaram aquém do que hoje seriam 2 milhões de coroas suecas, perto de 190 mil euros. Nas últimas décadas, subiram e estabilizaram entre 8 e 10 milhões de coroas, cerca de 850 mil a um milhão de euros para cada galardoado.

A paridade mora longe

Desde que em 1901, ou 1968, no caso da Economia, entrou em vigor o desejo de Alfred Nobel de destinar parte da fortuna a “prémios para aqueles que, durante o ano anterior, tenham conferido o maior benefício para a humanidade” que se sucedem casos peculiares, dos quais os acima descritos são só ínfima parte. Porém, é a olhar para o quadro geral que se levanta a principal questão da (dis)paridade. Os EUA e a Europa arrebatam a maioria dos troféus, por larga margem, e a proximidade geográfica e cultural dos decisores, as Academias Sueca e Norueguesa, será apenas parte da explicação. Francisco Topa, professor em Literatura e Cultura Africanas e Brasileiras, da Universidade do Porto, dá o exemplo de África, da qual “só se fala para referir catástrofes naturais, guerras ou esquemas de corrupção”, quando da cultura “quase nada” se sabe. É certo que as condições de trabalho e a emigração de “muitos dos jovens mais promissores” para o Ocidente podem ajudar a explicar os números, mas o problema começa no cidadão comum, “que só aceita de África ou do Brasil aquilo que corresponde à ideia que faz de cada um desses espaços”.

Mais flagrante é o caso das mulheres. Em 923 prémios, só 49 as distinguiram, correspondendo a 48 mulheres, já que Marie Curie dobrou a conta com os avanços no campo da radioatividade — primeiro o Nobel da Física (1903), depois o da Química (1911). Para Ana Cristina Santos, investigadora doutorada em Estudos de Género, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, os prémios têm um “efeito simbólico que não deve ser descurado”, ao qual se juntam “a exclusão que corporizam, os silêncios que permitem e a visão parcial do mundo que perpetuam”. Estamos, desde 2000, na vintena de anos que mais premiou as mulheres, 19 vezes num total de 216, uma vez que há categorias com múltiplos vencedores. Mesmo assim, em 2016 e 2017, o feminino voltou a ficar em branco, o que para Ana Cristina Santos mostra que a diferença não se explica por condições históricas. A questão está “no regime de género dominante que dá pelo nome de patriarcado”, que é preciso “reconhecer que existe e que é contrário à dignidade humana”. Para o ilustrar, a investigadora aponta um exemplo próximo: “Se fosse apenas uma questão de tempo, as lideranças em Portugal seriam já maioritariamente compostas por mulheres, uma vez que os homens são detentores de menos sucesso escolar”.

Um caso de sexismo é também o motivo para a não atribuição do Nobel da Literatura em 2018, depois de o francês Jean-Claude Arnault, marido de um dos membros da academia, ter sido acusado de assédio sexual a 18 mulheres. Os restantes prémios serão anunciados de 1 a 8 de outubro, entre Oslo e Estocolmo.