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A história repete-se? Há 27 anos, o Senado americano questionava outra alegada vítima de assédio sexual

Christine Blasey Ford, a mulher que a América (e não só) queria ouvir

EPA

A comparação é inevitável: em 1991, Anita Hill sentou-se diante dos membros do senado americano para detalhar acusações de assédio sexual contra um juiz nomeado para o Supremo Tribunal. Clarence Thomas acabou mesmo por ser nomeado para o cargo. 27 anos depois, os Estados Unidos aguardam o veredito sobre o futuro do juiz Brett Kavanaugh, alvo de acusações semelhantes

“Isto é uma vergonha nacional”. Visivelmente zangado, foi desta forma que em 1991 o então juiz nomeado para o Supremo Tribunal norte-americano, Clarence Thomas, se referiu às questões do Senado sobre as acusações de assédio sexual de que estava a ser alvo. Se a história parece familiar, é porque é: esta semana, vinte e sete anos depois das audições em que Thomas foi confrontado com as acusações da sua antiga subordinada Anita Hill, a fórmula foi repetida, palavra por palavra, por Brett Kavanaugh, que se encontra exatamente na mesma situação e que aguarda neste momento o desenrolar das investigações do FBI sobre as acusações que recaem sobre si.

À medida que o caso de Kavanaugh se desenrola nas páginas dos jornais, norte-americanos mas também pelo resto do mundo, as semelhanças com o caso que envolveu há quase três décadas o juiz Clarence Thomas continuam a aparecer. O tom usado pelos dois acusados, assim como pelas alegadas vítimas, é objeto de comparações, mas também o tipo de perguntas que os senadores fizeram num e noutro caso, ou os argumentos usados por Kavanaugh e Thomas para negar as acusações.

No entanto, as histórias que começaram por levar tanto Hill como Ford a sentarem-se diante dos senadores para explicarem porque é que, de acordo com as suas experiências, o Comité Judiciário do Senado deveria pensar duas vezes antes de nomear aqueles juízes para o mais importante tribunal do país são substancialmente diferentes. Recuemos a 1991. Anita Hill, uma professora de Direito afro-americana que trabalhara, a convite de Kavanaugh, no Departamento de Educação e na Comissão para a Igualdade de Oportunidades no Emprego, preparava-se para denunciar Clarence Thomas por assédio sexual, dias depois de o juiz ter começado o processo de confirmação para o Supremo Tribunal. Da sua história, que contou de forma aparentemente calma e fria perante o Senado, faziam parte detalhes sobre como Thomas, seu superior hierárquico, a teria pressionado a ter relações sexuais com ele, referindo-se em conversas no local de trabalho ao tamanho do seu pénis ou a filmes pornográficos de forma detalhada.

Biden reconheceu falhas

A forma como Hill foi questionada voltou recentemente, com o processo de Kavanaugh e Ford e o peso do movimento #MeToo a favor das vítimas de assédio sexual, a ser debatida nos Estados Unidos. A professora de Direito enfrentou um comité formado unicamente por homens, todos brancos (Hill é afro-americana) e foi levada a repetir por diversas vezes os detalhes mais gráficos da sua história, perante a descrença de alguns senadores. A certa altura, o senador republicano Arlen Specter observou: "Disse esta manhã que a conversa mais embaraçosa [com Thomas] envolvia - isto não é assim tão mau - mulheres com seios grandes. Isso é uma palavra que usamos frequentemente". Mas também os senadores democratas foram criticados por pouco defenderem Hill, com o vice-presidente de Obama, Joe Biden, que então liderava a comissão, à cabeça - Biden já reconheceu, aliás, recentemente que falhou na forma por vezes agressiva como falou com Hill.

O relato de Ford assume contornos bastante diferentes. Remonta aos tempos em que estudou na mesma escola secundária que Brett Kavanaugh, no princípio dos anos 1980. Numa festa, este terá, alcoolizado e na companhia de um amigo, tentado obrigar Ford a ter relações sexuais consigo. Apesar de enfrentar um painel de senadores hostis do lado republicano, Ford, que prestou esta semana um testemunho descrito na imprensa internacional como emotivo mas sóbrio, contou desta vez com a presença de um grupo de senadoras no feminino. O ano de 1992, que se seguiu ao julgamento de Hill, foi aliás descrito como "o ano das mulheres", tendo-se atingido um número recorde de mulheres eleitas para o Senado - um facto muitas vezes atribuído ao impacto do processo que envolveu Hill e Thomas.

Linchamento e vingança: as defesas dos acusados

Mas talvez as maiores semelhanças entre os dois casos estejam na forma como Thomas e Kavanaugh se defenderam das acusações. Além de classificarem os relatos das duas mulheres, mas também o facto de o Senado lhes ter dado suficiente crédito para abrir estes interrogatórios, como “vergonha nacional”, ambos se mostraram zangados e indignados, negando de forma veemente todas as acusações.

Há 27 anos, Thomas descrevia as audições como “um circo” ou um “linchamento sofisticado”, atribuindo motivações racistas a quem o acusava (apesar também Hill ser, tal como Thomas, negra): “Do meu ponto de vista, como afroamericano, é um linchamento sofisticado para negros que se atrevem a pensar por si e a ter ideias diferentes”, alegava o juiz, conservador e defensor de causas antiaborto ou pró-armas. E dizia acreditar que aquele processo passaria uma mensagem a outros afro-ameicanos: "Isto é o que vos acontecerá, serão linchados, destruídos, caricaturados por uma comissão do senado americano em vez de enforcados numa árvore". Kavanaugh mostrou-se irritado e alternou entre explosões de raiva ou de choro. E, tal como Thomas antes de si, acusou os seus opositores de montarem um esquema contra si. No seu caso, foi mais longe e detalhou até que tudo não passaria de uma "vingança do lado dos Clinton".

O final da história de Hill e Thomas é conhecido: dias depois do fim das audições e já depois de uma investigação do FBI - que ouviu Hill, mas não outras mulheres que denunciaram ter passado por situações semelhantes com Thomas - o juiz acabou mesmo por ser nomeado para o Supremo Tribunal. Falta saber se também o desfecho será semelhante para Kavanaugh.