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Romper, pactuar, sair, ficar, votar? Um-dó-li-tá...

O líder trabalhista, Jeremy Corbyn, já admite novo referendo com a hipótese de o Reino Unido permanecer na União Europeia

PHIL NOBLE

A seis meses do ‘Brexit’, May ainda não tem acordo com Bruxelas e os maiores partidos estão divididos

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Ana França

Ana França

Jornalista

A seis meses da saída da União Europeia — 29 de março de 2019 às 23h —, reina a incerteza. Se o referendo de 2016 dividiu o país (vitória do ‘Brexit’ por 52%-48%), nem o Governo conservador de Theresa May foi capaz de uni-lo nem a oposição trabalhista propõe alternativa clara. Os dois grandes partidos estão tão desunidos como os 66 milhões de britânicos.

A primeira-ministra enfrenta companheiros conservadores que defendem a permanência na UE ou a preservação da maioria dos direitos que esta assegura (e deveres, acrescentaria Bruxelas); e os que veem em qualquer cedência uma traição ao eleitorado. Uns e outros criticam o plano de Chequers, assinado em julho na residência de campo de May, que dá prioridade à circulação continuada de bens e serviços, em detrimento do corte com as regras comunitárias. O negociador-chefe da UE, Michel Barnier, rejeita-o por ter implícita uma divisão das quatro liberdades fundamentais da UE (circulação de bens, serviços, pessoas e capitais). Os eurocéticos acham que não rompe suficientemente com a UE. May diz que a alternativa é sair sem acordo. Ao abrigo do Tratado de Lisboa, é o que sucederá se Londres e os 27 não se entenderem. A próxima ronda de negociações decorre a 17 e 18 de outubro.

“O acordo é possível, talvez com alguma ambiguidade”, afirma ao Expresso o politólogo Anand Menon, do King’s College de Londres. “A França e a Alemanha também pactuaram uma moeda única com que nenhuma concordava.” Chequers valeu a demissão de dois ministros, depois de o terem assinado. Boris Johnson, que largou os Negócios Estrangeiros, é eterno aspirante à chefia do Executivo e pode galvanizar descontentes no congresso do partido, que começa amanhã em Birmingham. Ontem, no jornal “The Daily Telegraph”, apresentou o seu plano para sair da UE, sugerindo que sonha com Downing Street.

“[May] tem de entender que os militantes de base são os seus soldados, que andam nas ruas, batem às portas, entregam panfletos. Se não estiverem com o partido, vamos ter um problema”, avisou Bob Perry, da secção de Hornchurch and Upminster, a leste de Londres, à agência Reuters. “O Governo fez tudo mal. Devia ter começado por dizer que saía da UE, do mercado único, do Tribunal Europeu e da união alfandegária sem pagar um tostão”, diz ao Expresso o militante John Strafford. “Estão a aproximar-se dessa atitude, mas tardiamente”, acrescenta este dirigente da Campanha pela Democracia Conservadora, que quer dar mais voz às bases. Acusa Bruxelas de tratar o Reino Unido “como a Grécia”.

Corbyn aceita nova consulta

À esquerda, o congresso do Partido Trabalhista aprovou, terça-feira, uma moção que admite um segundo referendo ao ‘Brexit’. Keir Starmer, ministro-sombra para a Saída da UE, explica que tal incluiria a hipótese de ficar. Voltar às urnas é, segundo recente sondagem divulgada no “Financial Times”, a opção de 86% dos militantes. Acontece que mais de metade dos 257 deputados trabalhistas representam círculos que votaram pela saída. Os eleitores poderão sentir-se traídos em caso de novo referendo. “Haveria tumultos sociais”, prevê Strafford. “Seria ridículo. Seguir-se-iam o terceiro, quarto ou quinto referendos?” A pergunta no boletim não seria igual, devendo incidir sobre o acordo obtido por May ou a saída sem pacto.

O líder trabalhista não é entusiasta da UE (votou contra no referendo sobre a adesão, em 1975, e fez campanha tíbia pela UE em 2016). Jeremy Corbyn prometeu no conclave do partido, em Liverpool, apoiar May se esta garantir um acordo “que inclua uma união alfandegária e nenhuma fronteira física na Irlanda, proteja os empregos, os direitos laborais das pessoas e as normas ambientais e de consumo”. Caso contrário, deve “abrir caminho a um partido que consiga fazê-lo”, isto é, Corbyn exigirá eleições antecipadas. Os últimos estudos de opinião indicam empate técnico com 38% entre May e Corbyn.

Os trabalhistas impõem seis condições: relação forte e colaborativa com a UE; “os mesmos benefícios” que a pertença ao mercado único e à união alfandegária; gestão justa da migração; defesa dos direitos; proteção da segurança nacional e do combate ao crime transfronteiriço; conveniência a todas as regiões e países do Reino Unido. Reação dos conservadores, anteontem, pela voz do dirigente Brandon Lewis: “Isso não nos permitiria alcançar acordos de comércio globais, pelo que não respeita o referendo.”

Esgrimem-se hipóteses que vão da reversão do ‘Brexit’ à saída radical, passando por esquemas semelhantes aos que têm a Noruega ou o Canadá. Nenhuma parece capaz de passar a barreira obrigatória da aprovação parlamentar. Se a oposição votar contra, e ainda que conte com trabalhistas eurocéticos, May fica nas mãos da sua bancada. Os que preferem a saída “dura”, como Jacob Rees-Mogg, votarão “não” a um acordo “demasiado simpático” com Bruxelas. Os que defendem uma relação mais próxima com a UE barrarão opções que considerem prejudiciais para a economia de 2,6 biliões de euros do Reino Unido. Em julho, quando May levou a votos um primeiro esboço do acordo que queria levar a Bruxelas, 12 dos seus deputados votaram contra. A maioria conservadora, assegurada graças a um pacto com os unionistas da Irlanda do Norte, é de 13 assentos. Aquele território é, recorde-se, um dos pontos quentes da discórdia com Barnier. Terá a única fronteira terrestre futura entre o Reino Unido e a UE.

Para evitar nova fronteira num local onde houve guerra até há 20 anos, May defende o “travão”: uma série de disposições para o caso de não haver acordo até março, que na prática manteriam o Reino Unido em união alfandegária com a UE para lá de 2020. “Falta-lhe convencer os 27 de que o travão seria usado e, ao mesmo tempo, persuadir os deputados conservadores de que nunca seria usado”, alerta Menon.