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Vaticano. “Temos de enfrentar um passado que é mesmo muito escuro. Não podemos negá-lo e fechar os olhos”

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Hans Zollner, um padre alemão especialista em proteção de menores, revelou que há um antes e depois de 2002, uma época em que um jornal norte-americano denunciou o encobrimento de abusos sexuais por parte da Igreja. “As melhores práticas funcionam, têm efeito. Mas há um custo. O custo é fazê-lo com rigor, persistência e com todas as consequências”

Um “passado muito escuro” e uma realidade “muito feia”. Assim descreveu o histórico de abusos sexuais dos padres católicos Hans Zollner, membro da comissão do Vaticano para a proteção de menores, em conferência de imprensa esta manhã, em Roma. Apesar do mea culpa, Zollner defende que uma parte dos casos agora conhecidos aconteceram há “mais de 30 anos” e que as novas práticas da Igreja, consequência da investigação do “Boston Globe” em 2002, estancaram os casos de abusos.

“Temos de enfrentar um passado que é mesmo muito escuro. E não podemos negá-lo e fechar os olhos. Temos de olhar de frente para uma realidade muito feia. Porquê? Porque temos de fazer justiça pelas vítimas -- se isso é sequer possível ou se conseguirmos falar nisso -- e temos de fazer tudo o que é possível para que não haja mais casos de abuso”, reconheceu esta manhã o padre alemão.

Ao tom crítico, Zollner misturou a defesa da entidade, que diz conviver agora com regras mais apertadas. “As melhores práticas funcionam, têm efeito. Mas há um custo. O custo é fazê-lo com rigor, persistência e com todas as consequências”, explicou. Essas regras, contextualiza, surgiram após 2002, altura em que o primeiro grande escândalo mediático que envolveu padres e abusos de menores foi denunciado numa investigação do jornal norte-americano “Boston Globe” -- a Igreja foi acusada de encobrir os crimes de natureza sexual. Essa história daria origem ao filme “Spotlight”, em 2015.

Pensilvânia e a carta de Carlo Maria Vigano

Um dos casos que mais abanou a Igreja Católica nos últimos tempos aconteceu em agosto, quando o Grande Júri da Pensilvânia revelou, num relatório de 884 páginas, que mais de mil menores foram abusados desde 1940 por 302 padres de seis dioceses daquele Estado. Josh Shapiro, procurador-geral da Pensilvânia e um dos autores do relatório, denunciou então à NBC que alguns padres e bispos até documentavam os atos em arquivos secretos que, várias vezes, eram partilhados com o Vaticano.

“Dos 302 padres das seis dioceses da Pensilvânia [mencionados no relatório], 299 referem-se a um período antes de 2002. Três deles num período depois de 2002. Isto mostra que quando há compromisso para proteger [os menores], isso funciona”, declarou Zollner.

No entanto, as denúncias de abusos sexuais de menores por parte de elementos da Igreja não se ficaram pela Pensilvânia, já que recentemente têm vindo a público outros episódios do género nos Estados Unidos, no Chile e na Alemanha, onde um relatório encomendado pela Conferência Episcopal Alemã revelou que pelo menos 3677 menores, na sua maioria rapazes, foram vítimas de abusos sexuais cometidos por membros da igreja católica alemã entre 1946 e 2014.

TIZIANA FABI/GETTY IMAGES

Também abordada nesta conferência de imprensa foi a carta de Carlo Maria Vigano, ex-núncio em Washington, em que este acusou o papa Francisco de ter anulado sanções contra o arcebispo de DC, Theodore McCarrick, que renunciara em julho depois de ter sido acusado de abuso sexual de um jovem há mais de 40 anos. Francisco, acusou Vigano, teria conhecimento do histórico de McCarrick e esperou cinco anos para aceitar a renúncia do antigo cardeal.

“Eu penso que a carta de Vigano aborda, ou acusa, três papas, os três recentes papas, não só o papa Francisco, o que normalmente é esquecido no debate público”, defende Zollner. “Penso que temos de saber que alegações são essas e qual a sua substância. Julgo que não há outra forma que não seja seguir em frente e se foram cometidos erros, ou mais do que erros, claro, isso terá de ser admitido.”

Zollner revelou ainda que a situação conhecida de McCarrick, que terá sido encoberta pela Igreja, dizia respeito apenas a abuso de adultos e seminaristas. Ou seja, a acusação de abuso de um menor é um elemento novo da história, que surgiu este ano, afirma.