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Trump diz que Kavanaugh foi “honesto e poderoso”. Nem tudo correu tão mal como podia ter corrido ao nome de Trump para o Supremo

Mario Tama/Getty Images

Foi um dia difícil para Brett Kavanaugh, o nome que Donald Trump quer no lugar vago que há no Supremo Tribunal. O juiz chorou, irritou-se, emocionou-se, disparou críticas e qualificou todo o caso como um esquema político. A mulher que o colocou “na grelha” é Christine Ford, que diz ter sido vítima de abusos sexuais por parte de Kavanaugh nos anos 1980. O discurso de Ford parece sólido o suficiente para meter medo aos republicanos: conseguirá Kavanaugh os votos necessários para a confirmação?

A partir de certo ponto, aquilo que começou como uma audiência sobre um alegado abuso sexual de um possível futuro juiz do tribunal mais alto da Nação tornou-se numa arena política.

Durante todo o dia, o senado norte-americano ouviu Brett Kavanaugh, escolhido de Donald Trump para a cadeira vaga no Supremo Tribunal norte-americano, defender-se das acusações de abuso sexual que lhe têm sido feitas por várias mulheres - quatro até agora. E ouviu também a história de Christine Ford, professora de Psicologia em Palo Alto, que o acusa de conduta sexual imprópria no início dos anos 1980, numa festa do liceu, um tipo de festa onde, alegam as mulheres que o acusam, Kavanaugh bebia e tornava-se agressivo e impunha a sua vontade sexual às raparigas presentes.

Até agora quase não se levantaram dúvidas sobre o testemunho de Ford, que parece sólido, até para aqueles que dizem que estas histórias não passam de uma frabricação política por parte dos democratas para atacarem os republicanos a pouco mais de um mês das eleições intercalares.

A excepção parece ser o senador da Carolina do Sul Lindsey Graham que explodiu de raiva na sua cadeira. “Sim senhor, vocês todos querem poder. Por Deus, espero que nunca o consigam. Espero que os norte-americanos consigam ver através deste esquema. Vocês sabiam desta informação e mantiveram-na em secreto. Ela é tão uma vítima como vocês!”, atirou o senador à bancada democrata.

Graham acusou os democratas de tentarem “pintar o juiz Kavanaugh como um Bill Cosby”, uma referência ao comediante que se tornou a primeira pessoa a ser condenada depois do escândalo #MeToo. “O que vocês querem é destruir a vida deste homem, manter o seu assento em aberto e esperar vencer em 2020, disse o senador.

Entretanto, durante toda a tarde foram chegando declarações de apoiantes republicanos, algumas dadas aos jornais sob anonimato. A maioria considera que o caso Kavanaugh pode prejudicar o partido. Um antigo membro da Casa Branca de Trump, ouvido pelo “Wall Street Journal”, disse que toda a situação era “uma calamidade” para os republicanos. “A não ser que [Christine] Ford se porte muito mal durante as questões, não vejo como Kavanaugh tem hipóteses de se safar quando testemunhar”, declarou a mesma fonte ainda antes de terminada a audiência.

Kavanaugh “ganhou pontos” quando demonstrou emoção ao falar da filha e também por ter optado por nunca negar que Ford tenha sido de facto sexualmente agredida “por alguém, em determinado momento”, mas não por ele. E reforçou a tese de que este caso tenha motivações políticas. “Há uma raiva contra o Presidente Trump e as eleições de 2016, um medo que foi fabricado de forma injusta à volta dos meus anos como juiz e há uma vingança em nome dos Clintons e milhões de dólares de grupos da oposição de esquerda”, disse Kavanaugh.

Contra Trump quem não tem razão para ter raiva é mesmo Kavanaugh já que o Presidente, poucos minutos após o fim da audiência, elogiou a prestação da sua escolha para o Supremo. “O testemunho foi poderoso, honesto e galvanizante”, escreveu Trump na rede social Twitter dizendo ainda que as declarações de Kavanaugh no Senado mostram “precisamente” por que razão foi ele o escolhido para o lugar deixado vago por Anthony Kennedy.

Uma investigação do FBI a um futuro funcionário do Supremo Tribunal só pode ser pedida pelo seu futuro empregador - neste caso a Casa Branca, ou seja, Donald Trump. Sexta-feira de manhã está prevista a votação que confirmará, ou não, o nome de Kavanaugh como próximo juiz do Supremo e ninguém se atreve a fazer previsões. A confirmação do nome de Kavanaugh seria a certeza que o Supremo se manteria consideravelmente conservador por muitos anos - a menos que vários juizes decidam sair, o que é improvável, e que os democratas vençam em 2020 e os possam nomear.