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Christine Blasey Ford diz ter “100%” de certeza que foi Kavanaugh quem a assediou

GETTY

“Não é minha responsabilidade decidir se Kavanaugh merece ou não um lugar no Supremo Tribunal. A minha responsabilidade é dizer a verdade”, disse Christine Blasey Ford, a psicóloga que acusou o juiz Brett Kavanaugh de abuso sexual, durante a audição no Senado

“Não estou aqui porque quero estar. Estou aterrorizada. Estou aqui porque acredito que o meu dever cívico é contar-vos o que me aconteceu enquanto eu e Brett Kavanaugh estavamos na escola secundária”. Foi assim que Christine Blasey Ford, a mulher que acusa de assédio sexual Brett Kavanaugh, candidato do presidente dos EUA ao Supremo Tribunal, iniciou esta quinta-feira a sua intervenção na Comissão Judicial do Senado.

Visivelmente nervosa e com a voz embargada, a professora de psicologia na Universidade de Palo Alto confessou que o alegado episódio de agressão sexual envolvendo Brett Kavanaugh “alterou dramaticamente a sua vida”. “Durante muito tempo, tive muito medo e sentia vergonha de contar a alguém os detalhes do que aconteceu.(...) Convenci-me a mim mesma de que o Brett não me violou”, afirmou Christine Blasey Ford perante os membros da comissão do Senado.

Segundo a psicóloga, naquele dia de verão de 1982, Brett Kavanaugh e um amigo, ambos embriagados, arrastaram-na para um quarto e começaram a retirar a sua roupa. “Percebi que me ia violar. Tentei pedir ajuda. E quando comecei a gritar, o Brett colocou uma mão na minha boca para me impedir de gritar. Isso foi o que mais me assustou, o que teve mais impacto na minha vida. Foi muito difícil para mim respirar e pensei mesmo que ele me fosse acidentalmente matar”, acrescentou.

Christine Blasey Ford insistiu que essa experiência traumática não foi partilhada com ninguém durante muito tempo, sublinhando que falou apenas com alguns amigos, a quem nunca terá dito o nome de Kavanaugh, referindo apenas que se tratava de um “advogado ou juiz muito conhecido”, e com o marido antes de se casar. “Não contei pormenores a ninguém antes de maio de 2012, durante uma sessão de terapia. Depois dessa sessão, tentei ao máximo apagar as memórias do abuso porque lembrar-me disso levava-me a reviver tudo de novo e tinha ataques de pânico e ansiedade”, frisou.

Embora tenha hesitado antes de contar o que lhe sucedera, a psicóloga acabou mesmo por decidir-se a falar sobre o assunto. “No dia 9 de julho, recebi uma chamada da congressista Anna Eshoo depois de Kavanaugh ter sido nomeado. Encontrei-me com ela e descrevi-lhe os acontecimentos. Disse-lhe que tinha medo de falar sobre o assunto publicamente”. Mais tarde, continuou Christine Blasey Ford, “discutiram a possibilidade de enviar uma carta para Dianne Feinstein [uma das senadoras da Califórnia, estado onde reside a psicóloga] a descrever o que aconteceu”. A carta terá sido, de facto, enviada, mas com o pedido de manter a confidencialidade.

Falar sobre o sucedido não lhe trouxe mais sossego, pelo contrário. “À medida que se aproximava a data da audição a Kavanaugh, cresciam as minhas dúvidas. Perguntava-me se deveria, de facto, expor-me e expor a minha família ou se, pelo contrário, deveria preservar a minha privacidade e permitir que o Senado tomasse a sua decisão sobre o juiz sem conhecer o seu passado. Estive nesse dilema até ao início de setembro.” E se acabou por decidir falar sobre o assunto, nomeadamente ao “Washington Post”, foi por achar que era seu “dever” fazê-lo, embora não tenha havido um único momento em que não tenha temido as consequências. “Não é minha responsabilidade decidir se Kavanaugh merece ou não um lugar no Supremo Tribunal. A minha responsabilidade é dizer a verdade”, concluiu Christine Blasey Ford. A acusação do alegado crime de agressão sexual está a atrasar a confirmação do juiz Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal dos EUA.

Engano na identificação do alegado atacante? “Não”, responde a psicóloga

Durante a ronda de questões colocadas por Rachel Mitchell, procuradora, em nome dos senadores, a psicóloga foi questionada sobre a possibilidade de se ter enganado na identidade do seu atacante, ao que respondeu de forma peremptória: “Não, absolutamente. Tenho 100% de certeza que foi Kavanaugh”. Também lhe pediram que descrevesse o ambiente na tal festa em que terá sido alegadamente abusada pelo juiz. “Ele e Judge [Mark Judge, amigo de Kavanaugh] estavam extremamente bêbados. Outras pessoas não. E a festa não era exatamente uma festa, mas sim um encontro que supus que terminasse eventualmente numa festa.” Questionada sobre se estava, ela própria, embriagada ou se tinha tomado algum medicamento, Christine Blasey Ford respondeu que não.

A psicóloga disse ainda ter visto Mark Judge no supermercado dias depois do sucedido e que este se mostrou, nesse momento, “nervoso e um pouco doente”. “Evitou falar comigo”.

[Notícia atualizada às 17h45]