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Internacional

Quase quatro décadas depois investiga-se escândalo de sangue contaminado que matou 2800 pessoas no Reino Unido

O propósito agora é investigar se houve ocultação deliberada de informação aos doentes por parte das autoridades

Luís M. Faria

Jornalista

Abriu finalmente o inquérito sobre aquela que é considerada a maior tragédia na história do Serviço Nacional de Saúde britânico: o escândalo do sangue contaminado que infetou cerca de 5 mil pessoas e matou 2800, sobretudo hemofílicos, nas décadas de 70 e 80 do século passado. O sangue estava infetado com o vírus da hepatite C e nalguns casos do VIH, mas diversos alertas poderão ter sido ignorados, e há muito que se suspeita que as autoridades - Governo e outros organismos - procuraram esconder o que realmente se passou.

O inquérito abriu segunda-feira com uma cerimónia de comemoração das vítimas e declarações iniciais. Terça-feira de manhã, um advogado que representa 250 vítimas ou seus parentes, Aidan O'Neill, contou que os registos médicos de muitos doentes tinham desaparecido ou sido falsificados.

"Toda a gente pôs a sua confiança nas mãos de profissionais de saúde quando estava mais vulnerável", disse O'Neill, notando que em troca os doentes receberam "bloqueios, segredos e evasivas".

Chegaram a dizer-lhes que os seus problemas de fígado tinham a ver com alcoolismo, por exemplo. Confusas e aterrorizadas, muitas vítimas entraram em depressão.

Outro advogado, Des Collins, disse que muitos dos seus clientes tinham a sensação de que o Governo simplesmente lavara as mãos, "mas agora os responsáveis - tanto no Governo como nas companhias farmacêuticas - vão ter de responder".

Espera-se que o inquérito, cujos termos dizem que considerará "se houve tentativas de esconder detalhes do que aconteceu" (nomeadamente, retendo informação e eliminando documentos) demore cerca de dois anos e meio.

Houve escândalos semelhantes em vários outros países, incluindo Portugal nos anos 90, quando a então ministra da Defesa foi acusada de negligência pelo Ministério Público mas não chegou a julgamento por os alegados crimes terem prescrito.