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“Não consigo mexer os dedos dos pés, sinto-me dormente”. Velejador indiano esteve três dias à deriva no Índico

JEAN-FRANCOIS MONIER/Getty

Abhilash Tomy, um conhecido velejador indiano, ficou perdido num dos pontos mais remotos do oceano durante três dias. Com um ferimento grave na coluna e com o barco sem mastro, foi finalmente resgatado quando já estava demasiado fraco para responder às mensagens enviadas pelas equipas de salvamento

Abhilash Tomy, o famoso velejador indiano de 39 anos, passou uns terríveis e isolados três dias. Uma missão de resgate internacional conseguiu finalmente retirá-lo do mar esta segunda-feira mas Tomy estará gravemente ferido, possivelmente na coluna. Durante uma das etapas da Golden Globe Race, que só permite a entrada a navegadores experientes, o mastro do seu iate, o Thuriya, partiu-se com o impacto de uma onda de cerca de 14 metros e ventos de mais de 80 quilómetros por hora. Tomy ficou ferido e o seu barco impossível de operar. E mais um problema: a tempestade atingiu-o quando se encontrava numa das zonas mais remotas da terra, algures entre a África do Sul e a Austrália.

“O barco rolou. Perdeu o mastro. Sério ferimento nas costas. Não me consigo levantar”, escreveu Tomy à organização da corrida na sexta-feira. Depois deixou de escrever durante mais de quinze horas. A mensagem seguinte foi ainda mais preocupante: “Não consigo mexer os dedos dos pés. Sinto-me dormente. Não consigo comer ou beber. É difícil chegar aos mantimentos”. E a última mensagem que enviou: “Consegui chegar a latas de chá gelado. Continuamente a vomitar. O peito arde por dentro. Coordenadas: 39′ 33.512 S 077′ 41.608 E”.

A zona mais inacessível do planeta é o chamado “Ponto Nemo”, o nome do capitão de Júlio Verne, protagonista de "20.000 Léguas Submarinas". Fica a 1600 quilómetros das costas de três ilhas isoladas e, quem se encontre perto desse ponto, estará mais próximo da Estação Espacial Internacional do que de qualquer humano na terra. Não era exatamente aqui que Tomy se encontrava mas quando sofreu o impacto da tempestade, o seu barco estava a cerca de 3000 quilómetros da Austrália.

Os esforços pelo seu salvamento começaram de imediato, mas a organização da competição disse, no domingo, que a embarcação estava “no extremo limite para permitir um resgate imediato”. As operações de resgate foram coordenadas pelo Centro de Resgates Marítimos da Austrália, mas também embarcações francesas e indianas, bem como outros iates que se encontravam relativamente perto da zona da tempestade, participaram na operação.

Acabaria por ser uma embarcação francesa a recolhê-lo. “O comandante Tomy foi resgatado. Está consciente e está bem. Quem o resgatou foi o navio Osiris, que o trouxe para bordo numa maca para que permanecesse imóvel”, disse o porta-voz da Marinha indiana, D-K. Sharma, à CNN, depois do salvamento. Já a organização da corrida colocou no Facebook as boas notícias: “Eles têm o Tomy e ele está consciente e a falar. São notícias fantásticas. Muitos parabéns a todos os envolvidos”.

Durante as operações de resgate, Tomy foi sempre comunicando por mensagens escritas com os vários serviços de emergência que iam tentando aproximar-se, dando indicações corretas sobre a localização do seu barco, mas quando ele deixou de responder, a organização da corrida temeu o pior: que ele estivesse já “demasiado fraco para continuar a manter contacto”.

Já esta segunda-feira, o ministro da Defesa indiano, Nirmala Sitharaman, disse, através de uma publicação na rede social Twitter que Tomy seria transportado para as Ilhas Maurícias para tratamento.

A competição The Golden Globe partiu a 1 de julho de Les Sables-d'Olonne, em França. Este ano, 18 embarcações foram autorizadas a participar nesta que é uma das provas mais exigentes do mundo. Contudo, a 10 de setembro, já dez tinham desistido. Os navegadores vão sozinhos, têm que se guiar por mapas de papel e com recurso à leitura da posição das estrelas e pouca tecnologia é permitida a bordo. Esta viagem poderia ter acabado mal para Tomy, mas o acesso a um simples telemóvel salvou-lhe a vida.