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José Filomeno dos Santos detido preventivamente

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Factos de que é acusado o filho do ex-presidente de Angola abrangem período de seis anos. Um dos casos é o processo de transferência irregular de 500 milhões de dólares para uma conta aberta num banco britânico

José Filomeno dos Santos, filho do antigo presidente de Angola José Eduardo dos Santos, foi alvo de uma medida de prisão preventiva esta segunda-feira. A detenção surge na sequência das acusações de associação criminosa, falsificação, tráfico de influências, burla, peculato e branqueamento de capitais formuladas pelo Ministério Público e conhecidas na passada sexta-feira.

Os crimes de que José Filomeno dos Santos é acusado referem-se ao período em que desempenhou o cargo de presidente do Fundo Soberano de Angola (FSA), de 2012 a janeiro de 2018, quando foi exonerado pelo atual líder angolano João Lourenço. Um dos aspetos em causa na atuação do filho de José Eduardo dos Santos é o processo de transferência irregular de 500 milhões de dólares, cerca de 428 milhões euros, do Banco Nacional de Angola para uma conta aberta num banco britânico com ligações ao FSA.

Em abril, o Governo angolano anunciou que os 500 milhões de dólares foram já recuperados e estavam em posse do Banco Nacional de Angola. “Como resultado das várias diligências encetadas, cumpre-nos levar ao conhecimento público que os 500 milhões de dólares americanos já fora recuperados, estando em posse do BNA”, referiu então um comunicado do Ministério das Finanças angolano.

A queda de Zenu, aquele que esteve para ser o sucessor de Zedu

José Filomeno dos Santos chegou a ser apontado durante algum tempo como o herdeiro provável de José Eduardo dos Santos no cargo de presidente de Angola. Mas, ao ser detido pelas autoridades locais esta segunda-feira, acabou por ser a primeira vítima do acerto de contas que a mudança de regime está a começar a impor à família dos Santos.

Numa entrevista por escrito dada em 2016, a propósito de um longo perfil que a revista do Expresso publicou sobre ele, José Filomeno dos Santos não fugia à pergunta sobre a hipótese de vir a suceder ao pai no cargo de presidente da República de Angola. “A hipótese a que se refere não faz parte dos meus planos futuros.” Fosse por humildade ou porque essa hipótese já tinha sido afastada na altura de qualquer cenário viável para o pós-José Eduardo dos Santos, o filho do presidente assumia estar afastado dessa corrida mas tinha-se em boa conta.

“Nas vestes de presidente do conselho de administração do Fundo Soberano de Angola (FSDEA), tenho uma tarefa importante e imediata que me foi confiada”, dizia. “É um orgulho para mim e para todos os membros da equipe do FSDEA garantirmos o bom funcionamento desta importante instituição pública nacional. Concretizar este mandato com êxito é a principal realização que desejo alcançar futuramente.” Mas olhando agora para trás, no dia em que as autoridades de Angola decidiram deter Zenu, como é também conhecido o filho de Zedu, parece que a realidade não podia ser mais distante, já que a detenção de Filomeno tem na base suspeitas de ter cometido crimes de associação criminosa, tráfico de influência, burla e branqueamento de capitais enquanto esteve à frente do fundo soberano.

No perfil que a revista do Expresso publicou no verão de 2016, a história de Zenu cruza-se com o modo como o seu pai foi tomando o poder em Angola e como, nos últimos anos, foram crescendo as dúvidas sobre as suas capacidades de gerir o fundo soberano a partir do momento em que passou a ter como colaborador um gestor suíço, Jean-Claude Bastos de Morais, sempre omnipresente.

  • O destino de “Zenu”: o texto para ler num dia surpreendente em Angola

    No dia em que José Filomeno dos Santos, filho do ex-presidente José Eduardo dos Santos, foi detido preventivamente, o Expresso republica um texto originalmente publicado na Revista E a 9 junho 2016. A detenção surge na sequência de acusações de associação criminosa, falsificação, tráfico de influências, burla, peculato e branqueamento de capitais