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Angola está a mudar ambiente empresarial depois da "profunda recessão"

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Diretor de pesquisa económica da consultora Absa, Jeff Gable, considera que o novo Governo de Angola está empenhado em mudar o ambiente empresarial no país depois da "profunda recessão" económica dos últimos dois anos

O diretor de pesquisa económica da consultora Absa, Jeff Gable, considera que o novo Governo de Angola está empenhado em mudar o ambiente empresarial no país depois da "profunda recessão" económica dos últimos dois anos.

"Quando o preço do petróleo colapsou, Angola esteve em profunda recessão durante um período prolongado [2016 e 2017], mas está agora mais orientada para reformas, o novo Governo está muito focado em proporcionar um ambiente mais transparente para os negócios, indo atrás dos maus acordos feitos no passado, e parecem estar já a recolher alguns frutos", disse o analista.

Em entrevista à revista The Banker, do grupo Financial Times, Jeff Gables explicou que "em todo o lado as economias gostavam de ser mais diversificadas, com mais serviços, com o crescimento mais alicerçado pelo consumo, mas é mais fácil dizer que fazer".

A entrevista, dividida em quatro partes e transmitida no site do 'The Banker', uma das principais publicações financeiras a nível mundial, incidiu sobre a crise da dívida em África e sobre as perspetivas de crescimento do continente, não se focando num só país.

"A narrativa da 'África em ascensão', de que andámos a falar durante uma década, demorou tanto tempo que quando a mensagem finalmente passou, nalgumas áreas isso descarrilou, tendo passado de ter o segundo maior crescimento regional, em 2016, para um crescimento de 2% ou 1,5% na África subsariana, que é uma expansão mais baixa do que qualquer país que não esteja em crise", acrescentou o responsável sedeado em Joanesburgo.

Antecipando um crescimento melhor em 2018 que em 2017 e melhor em 2019 que em 2018, Jeff Gables previu que o investimento nas infraestruturas dificilmente poderá abrandar nos próximos anos, mesmo que isso implique um aumento do endividamento.

"Há uma procura insaciável de infraestruturas e isso não é só estradas, portos e aeroportos, é um sistema de educação eficaz, serviços de saúde básicos confiáveis, são coisas que os eleitores, ligados à internet e sabendo como vive o vizinho do lado, vão exigir aos governos em todo o continente, e esses governos vão ter de corresponder a essa procura se quiserem ter hipótese nas eleições seguintes", argumentou o economista.

Os altos níveis de endividamento, por isso, dificilmente vão descer, prevê: "África não tem mais dívida hoje do que tinha nos anos 90, o problema é que passou de 25% do PIB para mais de 50%, mas para além disso é uma dívida diferente, mais comercial e menos concessional [a taxas de juro abaixo das do mercado], por isso o processo de pagamento é diferente", explica o analista.

"Os países com dívida em dificuldades ['debt distress', no original em inglês] duplicaram desde 2013 e 15 dos 35 países que o Fundo Monetário Internacional (FMI) segue no continente estão num nível de preocupação elevado, quando eram apenas 6 em 2013", continua.

Para o futuro, Jeff Gables prevê um aumento do envolvimento do Fundo em África, fruto do aumento da dívida comercial: "Houve duas fases nesta história do endividamento, porque dantes o FMI emprestava muito exigindo reformas, portanto era fácil gerar dívida porque os bolsos continuavam cheios", diz o diretor do departamento de pesquisa da consultora Absa.

A segunda fase, concluiu, "é ver a torneira a fechar, e ao mesmo tempo a população a exigir mais e mais serviços, o que cria um ambiente económico muito difícil, e por isso o FMI vai envolver-se mais no continente outra vez"