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Se Kavanaugh avançar sem escrutínio, os EUA “dão apoio implícito à agressão de mulheres”

REUTERS/Joshua Roberts

O juiz Brett Kavanaugh estava a escassos dias de receber uma nomeação vitalícia para a mais alta instância jurídica dos EUA. Mas as alegações de agressão sexual feitas por uma mulher, quando eram ambos adolescentes, atravessaram-se-lhe no caminho. É provável que o caso beneficie os democratas nas intercalares de novembro mas nada é certo na América de Trump, mesmo quando “o navio se está a afundar”

As audiências no Senado do juiz Brett Kavanaugh e da mulher que o acusa de agressão sexual nos anos 1980 estão agendadas para segunda-feira. No entanto, “uma semana é uma vida na política e não estou certo de que Kavanaugh ainda seja o nomeado nessa altura”, comenta ao Expresso o gestor de relações públicas Russell Schaffer. “Penso que os republicanos estão a dar-lhe alguns dias para decidir o que quer fazer. Mesmo que chegue à votação, não estou inteiramente convencido que ganhe. Estas alegações dão aos senadores democratas uma boa razão para votarem contra ele”, prossegue.

Mas o hipotético chumbo do nome de Kavanaugh não virá apenas do lado democrata. “Se todos os democratas no Senado votarem contra e dois republicanos se juntarem a eles, é o fim”, prognostica. De facto, tanto a senadora Susan Collins como o senador Jeff Flake, ambos republicanos, já afirmaram que, a serem verdadeiras, as acusações contra Kavanaugh desqualificam-no para o Supremo.

No domingo, a investigadora na área da psicologia Christine Blasey Ford, hoje com 51 anos, falou pela primeira vez sobre a alegada agressão sexual. Em entrevista ao jornal “The Washington Post”, Ford afirmou que Kavanaugh e um amigo, ambos alcoolizados, a encurralaram num quarto durante uma festa no início dos anos 1980. Segundo o relato, o agora juiz, de 53 anos, apalpou-a, tentou tirar-lhe a roupa e tapou-lhe a boca para que não gritasse. “Pensei que inadvertidamente me matasse”, disse ao jornal.

Reuters

O caso também vinha detalhado numa carta enviada em julho por Ford para a senadora Dianne Feinstein, a democrata mais destacada na comissão de Justiça do Senado. Feinstein manteve a existência da carta em segredo até à semana passada, a pedido da queixosa. Na segunda-feira, já depois da entrevista de Ford ao “Post”, o senador republicano Mitch McConnell atacou os democratas por só referirem as acusações à última hora. “É preocupante que qualquer pessoa, mas especialmente um nomeado para o Supremo, seja chamado pela primeira vez a responder por uma alegação de conduta sexual imprópria mais de três décadas depois do ocorrido”, concorda o advogado Richard Hornsby.

“A AMÉRICA MERECE SABER TODA A VERDADE”

Ao contrário do gestor Russell Schaffer, Hornsby, também ouvido pelo Expresso, acredita que a votação seguirá em frente. “Na ausência de algo que prove ou refute de forma conclusiva as alegações, é improvável que a confirmação do juiz Kavanaugh não seja aprovada”, sentencia. Uma posição que não surpreende a escritora Farrah Alexander. “Não importa quantos testes de polígrafo Ford passe ou quão convincentemente ela conte a sua história sob juramento. Infelizmente, haverá sempre pessoas a questionar a sua credibilidade”, refere. “Espero que os senadores levem as alegações a sério. Há quase 30 anos, Clarence Thomas foi confirmado mesmo depois de Anita Hill ter testemunhado [contra ele], alegando assédio sexual. Espero que em 30 anos tenhamos aprendido com esse erro”, lembra Alexander ao Expresso.

O politólogo e sociólogo DaShanne Stokes defende que “a América merece saber toda a verdade sobre Kavanaugh, tanto em relação às alegações como relativamente aos documentos sobre ele que o Partido Republicano está a esconder.” “A democracia requer transparência e, portanto, o que os republicanos estão a fazer é moralmente criminoso e profundamente antidemocrático”, classifica. “Permitir que Kavanaugh assuma o lugar no Supremo sem primeiro se conhecer toda a verdade sinalizaria, por parte dos EUA, um apoio implícito ao silenciamento e à agressão de mulheres. E também enviaria a mensagem de que os factos não importam, o que só reforçaria mais ainda o perigoso precedente já aberto por Trump”, acrescenta ao Expresso.

Para o professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) Jorge Reis Novais, “em princípio, esta tentativa de nomeação está esgotada, não apenas pela suspeita que foi levantada mas também pelo facto de ele ter negado e persistir em negar.” “E o caso parece tão evidente que muito dificilmente [Kavanaugh] resiste ao escrutínio”, comenta o professor universitário, que não descarta a hipótese de “uma jogada política” na gestão do assunto.

Com as intercalares agendadas para 6 de novembro, “é natural que os democratas procurem esgotar o tempo para não permitirem uma nova tentativa de nomeação antes das eleições”, afirma Jorge Reis Novais. “Acho perfeitamente possível que tenha sido uma estratégia política não terem revelado a carta antes”, reforça o professor da FDUL. As eleições intercalares vão determinar se se mantém a maioria republicana nas duas câmaras do Congresso dos EUA, a Câmara dos Representantes e o Senado, ou se os democratas ganham uma ou ambas a meio do primeiro mandato de Trump.

“As intercalares são decisivas. A manter-se a atual composição com maioria republicana, Kavanaugh será apenas uma questão de adiamento. A seguir, haverá uma nova nomeação por Trump que, com mais ou menos esforço, seguramente passará. E será uma nomeação tão dura, em termos conservadores, como foi esta, tentando reproduzir exatamente o mesmo perfil de juiz para ocupar a vaga”, considera Jorge Reis Novais.

QUE CONSEQUÊNCIAS PARA AS INTERCALARES?

“Um fraco desempenho dos membros republicanos da comissão de Justiça poderá estimular ainda mais o apoio feminino aos democratas nas eleições”, equaciona o advogado Richard Hornsby. “No mínimo, os republicanos têm de mostrar empatia em relação à professora Ford para minimizar os danos causados por estas alegações”, acrescenta. Já Farrah Alexander espera que “as eleições reflitam que os americanos exigem honestidade e integridade dos seus representantes”, mostrando-se “cautelosamente otimista”.

Mesmo arriscando danos eleitorais, “os republicanos parecem determinados em avançar com Kavanaugh”, diz Russell Schaffer, ainda que o gestor não entenda os motivos de “tanta pressa”. Por outro lado, todos os membros republicanos da comissão são homens, enquanto entre os democratas há quatro mulheres e isto está longe de ser irrelevante. “Se os republicanos transformarem este caso na Inquisição Espanhola, isto causará muitos problemas aos eleitores, especialmente às eleitoras, que já se vão posicionando maioritariamente contra Trump e o Partido Republicano”, esclarece.

reuters

O presidente dos EUA saiu rapidamente em defesa do nome que propôs para o Supremo, classificando-o como um juiz “excelente”, com um histórico irrepreensível, e descartando como “ridícula” a hipótese de Kavanaugh retirar a sua nomeação. “Ele é alguém muito especial”, sublinhou. “Dada a polarização da política, suspeito que a maioria das pessoas já chegou a uma conclusão, pelo que a audiência nada fará senão exacerbar a discórdia e consolidar as crenças dos americanos em relação à integridade de Trump”, avalia o advogado Richard Hornsby.

O gestor Russell Schaffer lembra que “o presidente coloca-se mais uma vez ao lado de um aliado acusado de agressão sexual ou desrespeito pelas mulheres.” O próprio Trump “já foi acusado de má conduta sexual, incluindo de violação, por muitas mulheres”, recorda ainda a escritora Farrah Alexander. “Tendo perdido o voto popular, enfrentando o ‘impeachment’ e apresentando fracos índices de aprovação, Trump nunca teve um momento da sua presidência sem problemas”, avalia, por sua vez, o politólogo DaShanne Stokes.

“Se Kavanaugh for considerado culpado, isso pode tornar as coisas muito mais difíceis para Trump. Há honrosas exceções mas muitos no Partido Republicano não parecem importar-se com o facto de se encontrarem num navio que se está a afundar – desde que se consigam safar como bandidos enquanto ele afunda”, conclui Stokes.

  • Juiz Kavanaugh e mulher que o acusa de agressão sexual chamados a testemunhar

    Donald Trump saiu em defesa do nome que indicou para o Supremo, classificando-o como um juiz “excelente” e descartando como “ridícula” a hipótese de Kavanaugh retirar a sua nomeação. No domingo, a investigadora Christine Blasey Ford revelou que Kavanaugh a apalpou, tentou tirar-lhe a roupa e tapou-lhe a boca para que não gritasse durante uma festa no início dos anos 1980