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Brasil. Uma das mais imprevisíveis eleições da história da democracia

Apoiante de Bolsonaro com uma máscara do Presidente dos EUA. O candidato de extrema-direita é conhecido como o “Trump brasileiro”

RICARDO MORAES/ reuters

Polarização amor/ódio em relação a Lula; rejeição do Governo Temer; estímulo ao voto útil e de última hora são os eixos narrativos em jogo, revela um estudo da consultora Llorente & Cuenca Brasil

Crise económica, desencanto do eleitorado com a política devido à corrupção endémica revelada pela Lava Jato, polarização exacerbada, violência contra candidatos. Este é o pano de fundo em que está a decorrer a mais atípica campanha eleitoral desde que o Brasil voltou à democracia em 1989.

“Uma conclusão é certa: a eleição presidencial de 2018 já se coloca como uma das mais imprevisíveis da história da democracia nacional”, diz Cleber Martins, diretor geral da Llorente & Cuenca Brasil e autor principal do estudo “Brasil: disputa por narrativas numa eleição imprevisível”.

O dado mais recente na campanha foi a confirmação oficial de Fernando Haddad como candidato pelo Partido dos Trabalhadores (PT), em substituição de Lula da Silva, impedido pela justiça eleitoral de concorrer. Com pouco mais de duas semanas para fazer campanha, Haddad tem agora a dura tarefa de fazer descolar a sua candidatura e capitalizar as intenções de voto em Lula, o até agora favorito com quase 40% das intenções de voto.

Com o ex-Presidente fora da corrida, quem lidera as sondagens com cerca de 28% é Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita apoiado pela coligação Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos, que junta o Partido Social Liberal (PSL) e o Partido Trabalhista Renovador Brasileiro (PRTB). Segue-se em 2.º lugar, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores, que cresceu de 8 para 18%, segundo as sondagens reveladas pelo Ibope esta terça-feira. A alguma distância, surgem três outros candidatos: Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), com 11%, seguido por Geraldo Alkmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), com 7%, e por Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, com 6%. Enquanto a progressão de Bolsonaro foi de dois pontos percentuais em relação aos dados do Ibope da semana passada, Hadadd é o único que cresceu fora da margem de erro. Ciro Gomes manteve-se e Alkmin e Marina perderam dois e três pontos percentuais, respetivamente.

Haddad só a meio da semana passada começou a ser considerado presidenciável para as eleições de 7 de outubro, quando 147 milhões de brasileiros vão escolher, além do Presidente, a totalidade dos deputados, governadores e um terço dos senadores.

Porém, a pouco mais de duas semanas da ida obrigatória às urnas está tudo em aberto, e não são de excluir reviravoltas.

Fernando Haddad (PT) em campanha

Fernando Haddad (PT) em campanha

Foto EPA

“Na história das eleições brasileiras, não são raras as decisões que se consumam poucos dias antes da votação. Isso significa que Fernando Haddad, agora oficializado como candidato do Lulismo, ainda tem espaço para acelerar a campanha e crescer, absorvendo parte do capital político e de votos de seu mentor (Lula)”, salienta Cleber Martins. Para os demais candidatos, também há hipóteses de reviravoltas, acrescenta o diretor geral da divisão brasileira de uma das maiores consultoras internacionais em Gestão de Reputação, Comunicação e Assuntos Públicos. “Ainda é alto o índice de indecisos. E ainda pode haver 'reacomodação' da preferência do eleitor com a defesa do voto útil contra os candidatos dos extremos”, acrescenta Cleber Martins.

O que nos leva ao confronto das narrativas identificadas no estudo da Llorente & Cuenca Brasil, a que o Expresso teve acesso, e que conta também com a participação de Tyago Mathias, diretor de Comunicação Estratégica.

Amor/ódio em relação ao Lulismo

Menos conhecido e, por isso, com menor taxa de rejeição, Fernando Haddad conta com a expectativa assegurada por muitos analistas independentes de que Lula da Silva possa transferir para si pelo menos 50% das suas intenções de voto. Sem se saber ainda como será dado o apoio de Lula desde a prisão em Curitiba, é óbvio o paralelismo com o que aconteceu com a candidatura de Dilma Rousseff em 2010, criada e ganha por Lula da Silva, notam os autores do estudo. “O eventual sucesso da comunicação terá como base a memória positiva dos Governos Lula, não apenas entre os eleitores do Nordeste e beneficiários de programas sociais, onde é incontestado, mas também entre os (ex-)integrantes da ‘nova classe média’, que ascendeu com acesso a crédito e superior na gestão do PT”, lê-se no estudo.

Ciro Gomes (PDT) em campanha

Ciro Gomes (PDT) em campanha

epa

Daí que a candidatura do PT poderá vir a canibalizar para si as demais candidaturas à esquerda. “O que será mais crítico para Ciro Gomes, o mais bem posicionado neste campo ideológico depois de Lula e, que por ser do Nordeste, também deve disputar a maior fatia dos 40 milhões de votos da região”, consideram os autores. Já Guilherme Boulos, do PSOl, considerado um dos “herdeiros políticos” de Lula, tem “ainda poucas hipóteses em 2018”. No caso de chegar à segunda volta, os autores consideram que “todas as mensagens convergiriam para um debate sobre a aprovação ou rejeição do PT, numa balança na qual pesam tanto as memórias pós-Lula como as pós-Dilma”, salientam.

No polo contrário está Jair Bolsonaro que, graças à polarização provocada pelo PT, conseguiu nos últimos três anos consolidar-se numa faixa eleitoral entre os 15% e os 20%. Aproximando-se dos grupos que defendiam a destituição de Dilma, “Bolsonaro devastou o campo narrativo anti-PT e é o seu líder incontestável.” Daí que a polarização em relação ao PT “beneficie diretamente apenas o próprio candidato petista e Bolsonaro”, conclui o estudo.

A rejeição ao Governo Temer

Do trauma em relação à destituição de Dilma, passando pelos escândalos de corrupção no Governo e pela impopularidade das suas reformas, a governação de Michel Temer é aprovada por apenas 6% dos brasileiros (70% da população classifica a gestão como má ou péssima), dizem os autores com base no Instituto Datafolha.

O estudo salienta que a rejeição a Temer deveria ser um espaço tendencialmente dominado por eleitores mais próximos do PT. Mas acrescentam que essa preponderância não é determinante devido a dois fatores. Por um lado, a própria campanha do PT focou-se até agora na prisão de Lula e na defesa do seus direitos políticos, em vez de acentuar a crítica ao atual Governo. A partir de agora terá que fazer a crítica e “dividir esforços narrativos com a passagem de bastão e de votos de Lula para o candidato do PT”.

Por outro lado, é inegável que Temer só chegou à Presidência porque era vice-presidente de Dilma e foi eleito em coligação com ela. Cleber Martins lembra que durante as convenções partidárias em julho, o candidato do PSDB, Geral Alckmin, afirmou: “Não fui eu que escolhi o Temer, foi o PT.” Uma mensagem repetida pelo candidato em agosto e que “deverá ser um dos mantras da campanha do PSDB dirigida aos 42% que rejeitam Michel Temer”.

O apelo ao voto útil e de última hora

Para os consultores da Llorente & Cuenca, o terceiro território que vai ser disputado na campanha cruza com o da rejeição de Temer e é influenciado por todos os outros aspetos já referidos. Como pano de fundo está o facto de 59% dos eleitores se declararem indecisos ou que pretendem votar em branco ou mesmo anular o boletim. Isto num país onde o vigora o voto obrigatório.

“Cerca de 21 milhões de votos foram definidos nas 48 horas que precederam as eleições de 2014”, salientam os autores. Aqui, os principais beneficiados serão os candidatos menos conhecidos e que começaram a campanha há menos tempo; os que contarem com maior máquina partidária e tempo de antena e os que conseguirem captar para a segunda volta o chamado “voto útil” – a opção estratégica do eleitor por um mal menor contra um adversário específico. Geraldo Alckmim, Fernando Hadadd e Henrique Meirelles do PMDB (o ex-ministro das Finanças de Temer) são os candidatos que estão em vantagem em termos de tempos de televisão. “Alkmin terá mais oportunidade para se apresentar como representante do voto útil contra o PT”, consideram os autores do estudo.

Uma outra tendência que o estudo identifica é alguma perda de eficácia das redes sociais, determinantes para Bolsonaro e Marina Silva, cujos tempos de antena se medem em segundos. “Talvez como resultado das cruzadas contra as chamadas ‘fake news’, nota-se uma crescente desconfiança em relação às informações que circulam nas redes sociais”, acrescentam.

PRINCIPAIS CANDIDATOS

Fernando Haddad, Partido dos Trabalhadores (PT)

HISTÓRICO

Desde 1989, o candidato do PT é o primeiro ou segundo colocado nas corridas presidenciais. É o partido com maior base de identificação, mas aparece desgastado pelos anos de Governo Dilma.

POSICIONAMENTO ECONÓMICO

Esquerda
Por antítese à ascensão da candidatura de Bolsonaro pela direita, adotou um posicionamento económico mais à esquerda (intervenção estatal e antirreformas sociais) do que em eleições anteriores.

POSICIONAMENTO NARRATIVO

Principal: a adesão ao 'Lulismo' e rejeição ao Governo Temer
Secundário: “voto útil” (por transferência e convergência de canais).

BASE ELEITORAL

As pesquisas e o histórico eleitoral mostram uma base de resistência de apoio ao partido nas regiões Norte e Nordeste (sobretudo Bahia e periferia das capitais). Também conta com uma memória afetiva positiva de parte da população que ascendeu à chamada “nova classe média” e com uma base histórica ligada ao sindicalismo e ao funcionalismo público.

TEMPO DE PROPAGANDA NA TV

2 minutos e 23 segundos a cada bloco de propaganda eleitoral.

Jair Bolsonaro, Partido Social Liberal

HISTÓRICO

Foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro em 2014. Desde então, tem-se posicionado abertamente como candidato à presidência, angariando apoio em redes sociais entre o eleitorado jovem que cresceu conhecendo apenas Governos do PT. Não tem um potencial nacional testado nas urnas.

POSICIONAMENTO ECONÓMICO

Direita
Ambiguidade no discurso, com a defesa de um viés liberal, ao mesmo tempo em que aponta para um modelo nacional-desenvolvimentista (intervenção estatal para fomento da indústria nacional) nas entrelinhas e planos de Governo.

POSICIONAMENTO NARRATIVO

Principal: rejeição ao 'Lulismo'.
Secundário: antiestablishment e anticorrupção.

BASE ELEITORAL

Posicionou-se como porta-voz de eleitores jovens, de grandes e médios centros urbanos que cresceram em Governos do PT (2003 a 2016). A partir daí, amealhou apoio de eleitores de perfil moral conservador nas regiões ligadas ao agronegócio.

TEMPO DE PROPAGANDA NA TV

8 segundos a cada bloco de propaganda eleitoral

Geraldo Alckmin, Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB)

HISTÓRICO

Desde 1994, o seu partido ou venceu as eleições ou foi à segunda volta contra o PT. O próprio Alckmin perdeu para a reeleição de Lula, em 2006, por uma diferença de 21 milhões de votos. Tem uma base consolidada no estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país (cerca de 23% do total), mas possivelmente desgastada.

POSICIONAMENTO ECONÓMICO

Centro / Centro-direita
Tendência liberal na economia, com a volta da defesa do legado de Fernando Henrique Cardoso: privatização (sobretudo no sector elétrico, descartada a da Petrobras), manutenção do controlo orçamental, com aceno para a manutenção de políticas sociais do PT.

POSICIONAMENTO NARRATIVO

Principal: “voto útil” impulsionado por convergência de canais e proposto como alternativa antipolarização (via de centro).
Secundário: rejeição ao 'Lulismo', experiência administrativa segura.

BASE ELEITORAL

Depende da fidelidade do eleitor paulista, mais até do interior do estado do que da capital, para conseguir uma base mínima que lhe leve ao segundo turno. Ao mesmo tempo, assumiu como estratégia crescer sobre as bases de Álvaro Dias e Bolsonaro no Sul do país, por meio de campanha liderada pela sua candidata a vice e senadora pelo Rio Grande do Sul, Ana Amélia.

TEMPO DE PROPAGANDA NA TV

5 minutos e 32 segundos a cada bloco de propaganda eleitoral

Marina Silva, Rede Sustentabilidade (Rede)

HISTÓRICO

Na sua terceira corrida presidencial, viu a sua base de votos crescer de 19,6 milhões (em 2010) para 22,2 milhões em 2014, ambos cenários em que contava com mais tempo de TV do que atualmente.

POSICIONAMENTO ECONÓMICO

Centro-esquerda
Tendência liberal na economia, com a defesa do controlo orçamental e do câmbio flutuante, mas com acento para a manutenção de políticas sociais de inclusão que alcançaram A sua posição nos Governos do PT. Viés ambientalista que costuma contrariar interesses do agronegócio.

POSICIONAMENTO NARRATIVO

Principal: rejeição ao Governo Temer, como alternativa antipolarização (via de centro-esquerda).
Secundário: apresentação como uma terceira via política, narrativa pessoal (trajetória do herói na superação da pobreza/adversidades).

BASE ELEITORAL

O cruzamento entre votos e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) por zona eleitoral mostra que encontra eco em dois extremos: o da população mais pobre (e possivelmente evangélica, como a candidata) e as classes altas do Sudeste, sobretudo do Rio de Janeiro.

TEMPO DE PROPAGANDA NA TV

21 segundos a cada bloco de propaganda eleitoral.

Ciro Gomes, Partido Democrático Trabalhista (PDT)

HISTÓRICO

Candidato a Presidente em 1998 e 2002, recebeu 7,4 e 10,2 milhões de votos, respetivamente. À época, trazia uma lembrança política maior como ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda. Como não conseguiu apoio para se lançar como candidato a Presidente posteriormente, o seu histórico reúne pouco conteúdo.

POSICIONAMENTO ECONÓMICO

Centro-esquerda
Defesa de ações de intervenção do Estado na economia, com indicação de cancelamento de concessões e de programas de privatização recentes ou em andamento. Acena para o eleitor/consumidor com mudanças nos sistemas de avaliação e concessão de crédito e políticas de congelamento de preços.

POSICIONAMENTO NARRATIVO

Principal: adesão ao 'Lulismo' e rejeição ao Governo Temer, como alternativa antipolarização (via de centro-esquerda).
Secundário: Representação regional e apresentação como uma terceira via política.

BASE ELEITORAL

Apesar de ter nascido no interior de São Paulo, a sua criação e atuação política pelo Ceará garantiu-lhe uma base de apoio entre os eleitores do Nordeste (à exceção da Bahia), em disputa de espaço tanto do petismo quanto dos seus opositores

TEMPO DE PROPAGANDA NA TV

26 segundos a cada bloco de propaganda eleitoral.