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Cimeira de Pyongyang. Conversas coreanas para Trump ouvir

No Aeroporto Internacional de Sunan, em Pyongyang, o sul-coreano Moon Jae-in (à esquerda) tinha à sua espera o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e populares engalanados para lhe dar as boas vindas

Reuters

Os líderes das duas Coreias estão reunidos em Pyongyang para uma cimeira de três dias. Mais uma oportunidade para Kim Jong-un e Moon Jae-in tentarem desbravar caminho no sentido da desnuclearização da Península e recordarem ao mundo que a Coreia é uma só nação, dividida por dois sistemas políticos

Margarida Mota

Jornalista

Kim Jong-un e Moon Jae-in reuniram-se, esta terça-feira, pela terceira vez em quase cinco meses. Mas se nos dois breves encontros anteriores — a 27 de abril e a 26 de maio, na zona desmilitarizada entre as duas Coreias — bastou que os líderes norte e sul-coreanos apertassem a mão para que as cimeiras fossem um sucesso, desta vez os três dias reservados ao diálogo, em Pyongyang, indiciam que Kim e Moon têm sobre a mesa algo mais desafiador... e que precisam de mais tempo para tentar tirar do caminho obstáculos que estão a bloquear o processo de paz na Península da Coreia.

“Anteriormente, apenas o facto de termos um encontro entre os dois líderes coreanos significava um avanço político notável. Havia um valor simbólico que era fundamental para iniciar o aprofundamento das relações entre as duas Coreias”, diz ao Expresso Rui Faro Saraiva, professor de Ciência Política na Universidade de Hosei, em Tóquio (Japão). “Assegurada alguma confiança mútua, e depois do encontro entre Kim e o Presidente dos EUA [na Cimeira de Singapura, a 12 de junho], agora há espaço para uma reunião mais alargada.”

Espaço e urgência, já que apesar do diálogo fluir na frente intercoreana, o processo de aproximação entre Coreia do Norte e Estados Unidos marca passo. Esse é um dos dossiês que estão em discussão na Cimeira de Pyongyang, juntamente com a desnuclearização da Península e a cooperação Norte-Sul.

Agitando bandeiras da Coreia do Norte e da Coreia Unida, populares saúdam o Presidente da Coreia do Sul

Agitando bandeiras da Coreia do Norte e da Coreia Unida, populares saúdam o Presidente da Coreia do Sul

Reuters

Quebrado o gelo após sete décadas de costas voltadas, EUA e Coreia do Norte têm, porém, expectativas diferentes em relação ao passo seguinte. Washington quer que Pyongyang aplique medidas concretas no sentido do desmantelamento do seu programa nuclear. Já a Coreia do Norte — para quem a implosão do sítio de testes nucleares de Punggye-ri, em maio, foi uma demonstração de boa fé — quer ver assinado um tratado de paz que substitua o armistício de 1953, que ponha um ponto final à Guerra da Coreia e afaste de vez da Península o fantasma do conflito.

A falta de entendimento, levou Trump a cancelar a viagem a Pyongyang do seu secretário de Estado, Mike Pompeo, prevista para finais de agosto. “A prioridade desta cimeira é perceber quais os passos específicos que devem ser dados para que se chegue a um terreno comum entre o Norte e os EUA”, disse Moon Jae-in, antes de partir para Pyongyang. “Temos de conciliar a exigência do Norte sobre o fim da relação hostil com os EUA e aquilo que os EUA podem oferecer em termos de garantias de segurança como condição para a desnuclearização.”

Moon, o mediador

Independentemente do que conseguir negociar com o homólogo norte-coreano, o Presidente da Coreia do Sul tem já um encontro apalavrado com Donald Trump, ainda este mês, à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, onde irá pô-lo ao corrente da margem para cedências de Kim Jong-un. “Nesta cimeira, Moon Jae-in funciona como uma espécie de mediador entre EUA e Coreia do Norte, particularmente no que toca ao tema da desnuclearização”, diz Rui Faro Saraiva. “Mas não podemos reduzir o seu papel a um mero interlocutor ou mediador. Os problemas que se discutam nesta cimeira afetam diretamente os coreanos do Norte e do Sul, que partilham a mesma língua, a mesma cultura e a mesma história até 1945. É bom não esquecer que a Coreia é uma nação dividida em dois sistemas políticos.”

Os encontros entre Moon e Kim têm sido caracterizados por uma grande afabilidade entre os dois líderes

Os encontros entre Moon e Kim têm sido caracterizados por uma grande afabilidade entre os dois líderes

Reuters

Esta terça-feira, à chegada a Pyongyang, cerca das 9h50 da manhã (mais oito horas do que em Portugal Continental), Moon Jae-in tinha o seu homólogo à espera, na pista do Aeroporto Internacional de Sunan. Ultrapassados os cerimoniais militares, entraram num Mercedes preto e, com os corpos de fora do tejadilho, desfilaram por Pyongyang, saudados nas bermas por milhares de pessoas sorridentes, vestidas com trajes coloridos, acenando com bandeiras da Coreia do Norte e da Coreia Unificada. Pelas 3h45 da tarde, começaram as conversações formais, que continuarão na quarta-feira.

Olhos nos olhos, todos os dias

“As Coreias pretendem continuar a atenuar tensões militares e chegar a um acordo que estabeleça a confiança entre os dois Estados e previna confrontos a nível militar”, acrescenta o académico português. Nesse sentido, na sexta-feira passada, os dois países acabaram com a comunicação bilateral por telefone e fax e abriram um gabinete junto à fronteira, na cidade norte-coreana de Kaesong — em cujo complexo industrial os sul-coreanos já colaboram —, onde cerca de 20 funcionários de cada lado passarão a estar diariamente, olhos nos olhos, em constante comunicação.

“Para além da centralidade de questões militares, a dimensão económica é muito importante para Pyongyang”, recorda Rui Faro Saraiva, “por isso Moon Jae-in levou, na sua comitiva, executivos de conglomerados empresariais” — os chamados “chaebol”, um conjunto de negócios em torno de uma empresa-mãe, normalmente controlada por famílias. A presença, na Coreia do Norte, de gestores da Samsung, LG, Hyundai e do grupo SK, será do agrado de Kim Jong-un que suspira pelo fim das sanções ao seu país.

“A presença destes executivos é um gesto simbólico, uma vez que o alívio de sanções económicas internacionais, que é vital para o aprofundamento da cooperação económica entre as Coreias, depende da resolução ou do progresso da questão da desnuclearização da Península — e da ‘boa-vontade’ dos Estados Unidos. É um conjunto de promessas importantes para serem servidas à mesa das negociações onde o ‘prato principal’ é a desnuclearização e outras questões militares.”

Menos efusivas do que os maridos, a sul-coreana Kim Jung-sook (de branco) e a norte-coreana Ri Sol-ju cumprimentam-se calorosamente

Menos efusivas do que os maridos, a sul-coreana Kim Jung-sook (de branco) e a norte-coreana Ri Sol-ju cumprimentam-se calorosamente

Reuters

Enquanto os dois líderes se empenhavam nas negociações políticas, as primeiras-damas — a norte-coreana Ri Sol-ju e a sul-coreana Kim Jung-sook — cumpriram um programa paralelo que as levou ao Hospital Infantil Okryu e ao Conservatório Kim Won Gyun, um lugar especial para ambas. No passado, Ri cantou, como solista, na Orquestra Unhasu e Kim estudou Canto e fez parte do Coro Metropolitano de Seul — experiências que lhes permitem perceber que, política à parte, norte e sul-coreanos podem cantar a mesma canção.