Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Perguntas, provas, acusações, “mentiras Trumpianas e infeção russa”: o que Hillary Clinton tem a dizer sobre o que se passa nos EUA

James D. Morgan/ Getty Images

Hillary Clinton afastou-se dos holofotes desde que foi derrotada nas eleições de 2016 e raramente falou sobre a liderança de Donald Trump. Agora, o que diz ganha destaque, pois as eleições intercalares estão a aproximar-se. “Trump nem se quer finge que é o Presidente de todos os americanos”

“Como chegamos até aqui?” Hillary Clinton lança a pergunta já quase na reta final de um texto que publica esta segunda-feira na revista “The Atlantic”. Na verdade, trata-se de um excerto do livro “What Happened”, que é agora publicado e descrito como as memórias mais pessoais da democrata sobre as eleições de há dois anos. Voltemos à pergunta: “Como chegamos até aqui?” E desengane-se se acha que a resposta da candidata é “Donald Trump”. Hillary Clinton tem outra resposta:

Trump pode ser unicamente hostil a governar, na ética dos serviços e na liberdade imprensa. Mas o ataque à nossa democracia não começou com a sua eleição. É tanto um sintoma como a causa daquilo nos aflige a todos”, começa por responder. “Pensem no nosso corpo político como um corpo humano, com os nossos poderes constitucionais, normas e instituições democráticas e cidadãos bem informados como o sistema imunitário que nos protege da doença do autoritarismo. Ao longo dos anos, as nossas defesas foram-se abaixo devido a um pequeno grupo de bilionários de extrema -direita, que despendem muito tempo e dinheiro a construir uma realidade alternativa onde a ciência é negada, as mentiras são mascaradas de verdade e a paranoia floresce.”

Assim, continua a explicar Clinton, este pequeno grupo enfraqueceu “o contexto factual que permite às pessoas livres tomarem decisões importantes de governação”, abrindo o caminho para que “a infeção da propaganda russa e das mentiras Trumpianas” assumissem o controlo. “Eles usaram o seu dinheiro e influência para capturar o nosso sistema político, impor uma agenda de extrema-direita e marginalizar milhões de americanos”, acusa.

Embora recusando que o capitalismo e a democracia sejam inconciliáveis, Hillary Clinton tem uma opinião é diferente quanto àquilo a que chama de “capitalismo predador”. Ainda referindo-se às tais famílias, “os bilionários de extrema-direita”, Clinton sublinha que a disparidade e desigualdade económica, bem como o monopólio corporativo, são “antidemocráticod e corroem o estilo de vida norte-americano”.

Por outro lado, refere, “a hiperpolarização estende-se além da política até praticamente todas as partes da nossa cultura”. O país segue uma tendência para tomar um dos lados seja em que matéria for: ou é Democrata ou Republicano. “Quando se começa a olhar para pessoas do outro partido como traidor, criminoso ou ilegítimo, então o normal bate-boca político transforma-se num desporto sangrento.”

“Como chegamos até aqui?”, perguntou Hilary Clinton. Resumindo a resposta da antiga candidata à Casa Branca: a extrema-direita que enfraqueceu a sociedade e abriu espaço para “a infeção” de algumas ideias e a isto aliou-se uma economia desigual e a uma polarização política que passou a ser também social.

“Trump nem sequer finge que é o Presidente de todos os americanos”

Apesar de Trump não ser a resposta à pergunta, é ao longo do texto alvo da crítica. Não foram muitas as vezes que Hilary Clinton criticou abertamente o homem que a venceu em 2016 e a sua liderança: “Trump nem sequer finge que é o Presidente de todos os americanos”.

É precisamente pela questão da desigualdade que Hillary Clinton começa. A “prova A” de que Donald Trump foi bem mais longe do que prometeu ao longo da já “feia campanha”: “a crueldade que a sua administração infligiu às famílias sem documentos que chegaram à fronteira, incluindo a separação de crianças dos seus pais”.

A democrata recorda ainda o que disse no seu discurso de derrota, há dois anos. Lembra como pediu aos eleitores que tivessem uma mente aberta e como esperava que todos os seus receios fossem apenas exagerados. “Mas não foram”.

“Trump e os seus amigos fazem tantas coisas tão desprezíveis que é difícil seguir-lhes os passos. Penso que talvez seja essa a ideia – confundir-nos de modo a que seja difícil mantermos os olhos na bola”, considera Clinton. Neste caso, a bola é “proteger a Democracia americana”, que diz estar agora em crise.

“Não uso levianamente a palavra crise. Não há tanques nas ruas. A malevolência desta administração em algumas frentes pode estar contida – por agora – pela sua incompetência. Mas as nossas instituições democráticas e tradições estão sob ataque. Precisamos de fazer todos os possíveis para combater de volta. Não há um momento a perder”.

E Clinton enumera ainda as cinco frentes que diz estarem a ser atacadas: o Estado de direito, as eleições (“a legitimidade das eleições foi posta em causa”), “a verdade e a razão”, a transparência (“a impressionante corrupção de Trump”) e, por último, a união do país (“Trump está a minar a união nacional que faz com que a democracia seja possível”).