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Internacional

40% dos suicídios femininos acontecem na Índia

Um quinto das mulheres indianas casa-se antes dos 15 anos, o que em muitos casos as sujeita a uma dependência absoluta, a gravidezes prematuras e a vidas de maus tratos, incluindo violência doméstica

Abbas Idrees / SOPA Images / LightRocket via Getty Images

É uma percentagem muito superior ao que seria de esperar, e terá a ver em parte com o facto de as raparigas se casarem muito cedo

Luís M. Faria

Jornalista

Quase 40 por cento dos suicídios femininos em todo o mundo ocorrem na Índia. É o que mostra um estudo agora publicado na prestigiada revista médica "The Lancet", que analisou dados entre 1990 e 2016. A conclusão é inescapável: a Índia tem 18% da população mundial (1,3 mil milhões de pessoas) mas a percentagem sobe para mais do dobro quando se trata de mulheres que põem termo às suas próprias vidas.

A larga maioria dessas mulheres tem menos de 35 anos. Aliás, o suicídio é a principal causa de morte entre os 15 e os 39 anos em ambos os sexos, embora a percentagem para as mulheres seja maior. Os investigadores pensam que uma das principais causas seja o facto de as mulheres contrairem matrimónio bastante cedo.

Um quinto delas fá-lo antes dos 15 anos, o que em muitos casos as sujeita a uma dependência absoluta, a gravidezes prematuras e a vidas de maus tratos, incluindo violência doméstica, muito antes do fim daquilo que deveria ser a sua adolescência. Significativamente, 62% das próprias mulheres aprovam que os maridos possam bater nas esposas.

A percentagem de suicídios femininos é o triplo daquilo que seria de esperar num país com a geografia e os indicadores sócio-económicos da Índia. O estudo descreve as mortes por suicídio "desproporcionalmente elevadas" no país como "uma crise de saúde pública".

Nas palavras de uma das autoras, "as raparigas indianas estão com sérios problemas", destacando o carácter fortemente patriarcal da sociedade, que tende a desvalorizar as mulheres em relação aos homens. "As nossas normas sociais são muito regressivas. Na aldeia, uma rapariga é chamada a filha do seu pai, depois a mulher do seu marido e a seguir, se tiver um filho homem, a mãe do seu filho".

O estudo mostra que as percentagens se agravaram bastante nas últimas décadas, e recomendam levar a cabo estratégias públicas de prevenção do suicídio. É provável que os números não mostrem a plena extensão da tragédia, dado que só em 2017 o suicídio foi descriminalizado no país. Os números totais mais recentes deste estudo dizem respeito a 2016.