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Regresso de Obama à política é um presente envenenado

Obama participou há dias num comício de candidatos democratas ao Congresso, em Anaheim, Califórnia

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Protagonismo do ex-Presidente adia renovação do Partido Democrata e ajuda Trump

Margarida Mota

Jornalista

Barack Obama está de volta aos palcos da política americana. Trata-se de uma boa notícia para quem aprecia os dotes de tribuno do ex-Presidente (2009-2017) e a sua personalidade carismática, mas não é necessariamente tão boa para... o seu próprio partido. “Há uma urgência entre os democratas de prepararem uma estratégia forte e vencedora para travar a reeleição de Donald Trump em 2020. E ainda não se percebe que estratégia é essa”, comenta ao Expresso o analista de política americana Germano Almeida. “Por muitas saudades que quem gostava de Obama sinta dele, não é positivo que esse sentimento se prolongue com o próprio no grande palco. É preciso que surjam novas vozes democratas. E sempre que Obama fala está a atrasar esse processo de renovação.”

O 44º Presidente dos EUA retomou a atividade política no início de agosto, dando apoio público às candidaturas de 81 democratas, de 13 estados, às eleições para o Congresso de 6 de novembro (ver caixa). “Confio que, juntos, possam fortalecer este país que amamos, recuperando oportunidades, consertando as nossas alianças e posicionando-nos no mundo, e preservando o nosso compromisso fundamental com a justiça, a responsabilidade e o estado de direito. Mas, primeiro, precisam dos nossos votos.” Está prevista uma segunda leva de apoios para mais tarde.

A reentrada foi confirmada sábado passado, com um discurso na Universidade de Illinois, onde Obama se referiu aos “tempos extraordinários” e “perigosos” que vivemos. “Isto não começou com Trump. Ele é um sintoma, não a causa. Ele está apenas a capitalizar os ressentimentos que os políticos têm atiçado durante anos”, disse. “Mas a boa notícia é que dentro de dois meses teremos a oportunidade — não a certeza, mas a oportunidade — de restaurar alguma aparência de sanidade na nossa política.”

Após quase 20 meses de Trump na Casa Branca, “Obama está preocupado”, continua Almeida, autor de dois livros sobre o ex-Presidente (“Histórias da Casa Branca”, 2010 e “Por Dentro da Reeleição”, 2013). “Foi um Presidente singular em muitas coisas — pela sua cor e juventude, pela sua origem — e conseguiu ganhar. E foi também dos poucos presidentes com uma preocupação em relação à História norte-americana, ao legado, preocupação por estudar os seus antecessores. Tem a noção da gravidade que representa o facto de lhe ter sucedido Donald Trump”, de perfil empresarial, nada político nem intelectual, que ainda em 2015 produzia e apresentava um reality-show (“The Apprentice”).

Obama falava, Trump adormeceu

“Esta intervenção de Obama não tem que ver com ambições pessoais de voltar à grande cena política”, continua Almeida. “Não há uma tradição, na política norte-americana, de um ex-Presidente voltar a um cargo. Há uma limitação que vem do tempo de Franklin D. Roosevelt [que foi eleito quatro vezes], segundo a qual ex-Presidentes que tenham feito dois mandatos não voltam sequer a tentar ser reeleitos. A ambição de Obama não é essa. Mas há uma clara leitura da parte dele de que estes estranhos tempos ‘trumpianos’ são tão excecionais que talvez o forcem a ter uma intervenção na sociedade civil e na vida política maiores do que é normal num ex-Presidente.”

Às palavras de Obama na Universidade de Illinois — onde, pela primeira vez desde que deixou a Casa Branca, se referiu explicitamente a Trump —, o atual Presidente dos Estados Unidos, cuja principal característica parece ser ‘destruir tudo o que Obama construiu’, reagiu a contento dos fãs: “Eu vi [o discurso], mas adormeci”, disse no Dakota do Sul, durante uma ação de campanha de recolha de fundos visando a sua reeleição, em 2020.

“Trump explora bem os sentimentos mais primários da sua base ao ridicularizar e atribuir a Obama uma suposta intelectualização desligada do mundo real”, comenta Germano Almeida, que está a ultimar um livro sobre Donald Trump. Na cabeça do magnata, o mundo real é o seu.

Candidato ‘fora da caixa’

Trump ainda não cumpriu meio mandato, mas já anunciou a candidatura a um segundo. No campo democrata, o rosto que lidera as preferências às presidenciais de 2020 é o de Bernie Sanders, senador do Vermont que perdeu as últimas primárias para Hillary Clinton. “Os democratas têm um problema geracional”, defende Almeida. “Nas sondagens sobre quem irá ser o candidato democrata, a média de idades é assustadora, acima dos 70 anos. Em 2020, Sanders terá 79 anos. Joe Biden, que foi vice-presidente de Obama e surge em segundo lugar, terá 77. Em alguns estudos, Hillary Clinton aparece com algumas condições para ser candidata, mas por tudo o que aconteceu não vai tentar uma terceira vez”, palpita.

“Os democratas estão a ser vítimas do êxito dos anos Obama e do facto de Hillary ter sido herdeira dos anos Obama e Clinton. Duas grandes estrelas dominaram o partido nas últimas décadas: Obama e os Clintons. No dia 8 de novembro de 2016, ambas terminaram a sua carreira política: Obama por limitação de mandatos e Hillary pela derrota. E assim os democratas atrasaram a sua renovação.”

Escolher um candidato pode implicar, para os democratas, pensar ‘fora da caixa’. “Talvez não serem tão convencionais e clássicos. Os republicanos abriram essa caixa de Pandora ao nomearem alguém como Trump, sem passado político e que dizia mal dos políticos”, recorda o analista. No universo democrata, potenciais candidatos com um perfil mais empresarial são Howard Schultz, jubilado em junho da liderança da Starbucks, e o multimilionário Michael Bloomberg, autarca de Nova Iorque entre 2002 e 2013 (fez dois mandatos como republicano e o terceiro como independente).

O jornal britânico “The Times” escreveu esta semana que o antigo mayor quer concorrer pelo Partido Democrata (a que já pertenceu no passado) em 2020, quando tiver 78 anos. Há três meses, aplicou 80 milhões de dólares (69 milhões de euros) da sua fortuna pessoal na campanha de novembro, para tentar inverter a maioria republicana no Congresso — etapa crucial da estratégia democrata para recuperar a Casa Branca.