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Disparo na inflação provoca convulsão social na Argentina

Uma casa de câmbios em Buenos Aires, capital da Argentina

EITAN ABRAMOVICH/Getty

Só na quarta-feira, houve uma dezena de manifestações que paralisaram Buenos Aires. Há uma greve geral agendada para dia 25

“Pobreza Zero” foi uma das promessas que levaram o Presidente Mauricio Macri a ganhar as eleições em 2015. Quase três anos depois, no entanto, sem conseguir domar a inflação galopante e em plena negociação com o FMI por um novo e salvador acordo financeiro, o Governo tenta conter a tensão social gerada justamente pelo aumento da pobreza, que afeta um terço da população. Agora é o próprio Presidente quem define a situação como uma “emergência”.

Só na quarta-feira, houve uma dezena de manifestações que paralisaram Buenos Aires. As marchas e os bloqueios de avenidas por parte das organizações sociais advertiam que a situação poderia sair do controlo sem uma contenção social. Os sindicatos anunciaram uma greve geral para o próximo dia 25. E a própria diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, advertiu que “é essencial o foco nos cidadãos mais vulneráveis, que poderiam ser afetados pelos ajustes”.

Perante uma corrida cambial contra o peso argentino, que, face ao dólar, perdeu 109% do seu valor desde janeiro, sendo 35% somente em agosto, o Presidente anunciou que reduzirá o atual défice fiscal primário a zero como medida drástica para recuperar a confiança dos mercados e para conseguir, neste mês, um novo acordo com o FMI, apenas três meses depois do anterior.

As projeções são de uma contração económica de 2,4% e de uma inflação de 42%. A combinação de forte estagnação com alta inflação é a mais nefasta para qualquer economia.

Para amenizar os efeitos, o Governo anunciou um controlo dos preços do cabaz básico de alimentos e um aumento de fundos para programas de ajuda social. Só neste mês, a inflação deve oscilar entre 6 e 7%, com forte incidência sobre os alimentos.

“Em setembro, o disparo do dólar e o acordo com o FMI deixam de ser o problema, que passa agora a ser o incremento da inflação e o aumento da tensão social”, aponta ao Expresso Rosendo Fraga, um dos mais renomados analistas políticos da Argentina.

“O risco de uma escalada do conflito social é um fator complicador da governabilidade. O quadro é de falta de confiança. E, na Argentina, confiança é uma variável económica, mas também política”, avalia Rosendo Fraga. “Vejo difícil que a instabilidade na economia desapareça e, portanto, que a tensão social desapareça”, indica.

Saques organizados nas redes sociais

Nos últimos dias, houve sete saques a supermercados. A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, denunciou que sectores políticos da oposição usam as redes sociais para organizar saques com a intenção de desestabilizar o Governo.

Nas zonas marginais, aumentou a distribuição de alimentos em refeitórios comunitários. “Trabalhamos todos os dias para a paz social”, afirma a ministra do Desenvolvimento Social, Carolina Stanley.

No sector público, o ajuste fiscal significa despedimentos e salários sem aumentos. No sector privado, os sindicatos querem reabrir negociações salariais, mas sabem que os aumentos não poderão acompanhar o ritmo da inflação, sob o risco de aumentar o desemprego. Segundo a consultora Ecolatina, os salários devem perder, em média, mais de 12% neste segundo semestre.

Para chegar ao défice fiscal zero, o Governo anunciou um imposto às exportações, beneficiadas pela desvalorização. O imposto afeta todas as empresas, inclusive a Finca Flichman, vinícola do grupo português Sogrape, que exporta 60% da sua produção de vinhos na Argentina.

“O benefício da desvalorização ainda é positivo para as exportações, mas isso é passageiro. Preocupa o que vai acontecer quando o aumento da inflação anular o efeito da desvalorização. Ficaremos igual ao ponto de partida, mas com o imposto”, explica ao Expresso Gastón Lo Russo, CEO da Finca Flichman.

No mercado argentino, a firma portuguesa espera uma queda muito forte nas vendas. “Os aumentos salariais também preocupam. Provavelmente, terminam o ano abaixo da inflação, mas isso vai gerar tensão social”, prevê Lo Russo.

Segundo cifras oficiais, a pobreza em 2017 ficou em 25,7% contra os 30,3% do ano anterior. Para 2018, a previsão é que a pobreza fique bem acima dos 30%. O próprio Presidente Mauricio Macri admitiu o aumento.

“Infelizmente, com esta desvalorização, vamos perder o que tínhamos conquistado”, lamentou.

Em relação à crise financeira iniciada em abril, Macri confessou: “Foram os piores cinco meses da minha vida depois do meu sequestro”, comparou, em referência ao trauma do qual foi vítima em 1991.