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Cientistas detetam 72 sinais de rádio que podem ser de civilizações extraterrestres

A Universidade de Harvard já sugeriu em 2017 que o tipo de sinais agora detetados pode ter origem na libertação de energia de transmissores extraterrestres, que enviam naves espaciais com velas gigantes em viagens interestelares

Ilustração Andrzej Mirecki

A natureza do objeto que emite estes sinais é desconhecida mas “há muitas teorias, incluindo que podem ser assinaturas da tecnologia desenvolvida por vida inteligente extraterrestre”, admite o Instituto SETI dos EUA

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Cientistas do Instituto SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), da Califórnia, descobriram 72 sinais fora de comum quando analisaram um grande volume de dados (400 terabytes ou 400 biliões de bytes) relativos a ondas de rádio emitidas a partir de uma galáxia anã a cerca de 3000 milhões de anos-luz da Terra.

Os sinais de rádio, conhecidos por FRB (Fast Radio Bursts, Rajadas Rápidas de Rádio), foram detetados pelo Telescópio Green Bank, localizado na Virgínia Ocidental (EUA), depois de eliminados os sinais das comunicações sem fios para evitar interferências no aparelho. São brilhantes e rápidos, tendo sido descobertos pela primeira vez em 2007. Os cientistas da iniciativa “Breakthrough Listen” do Instituto SETI calculam que têm origem em galáxias distantes, embora não saibam ao certo o que as provoca.

Os sinais de rádio foram detetados pelo Telescópio Green Bank, na Virgínia Ocidental (EUA), que tem um diâmetro de 100 metros e é o maior radiotelescópio orientável do mundo

Os sinais de rádio foram detetados pelo Telescópio Green Bank, na Virgínia Ocidental (EUA), que tem um diâmetro de 100 metros e é o maior radiotelescópio orientável do mundo

Foto Geremia

“A natureza do objeto que emite estes sinais é desconhecida”, afirma um comunicado do Instituto SETI, esclarecendo que “há muitas teorias, incluindo que estes sinais podem ser assinaturas da tecnologia desenvolvida por vida inteligente extraterrestre”. A “Sky News” recorda que, em 2017, cientistas de Universidade de Harvard sugeriram que os FRB podem resultar da energia libertada por poderosos transmissores construídos por civilizações extraterrestres, para enviar naves espaciais equipadas com velas gigantes em viagens interestelares.

Não se trata de imaginação demasiado fértil dos cientistas, porque há um projeto experimental da agência espacial japonesa (JAXA), a sonda IKAROS (Interplanetary Kite-craft Accelerated by Radiation Of the Sun), que pretende precisamente testar esta tecnologia. A sonda foi lançada em 2010 e é movida por uma grande vela solar quadrada com 800 metros de lado, um tipo de propulsão que usa a pressão da radiação solar sobre largos espelhos para gerar uma aceleração constante que permite à sonda alcançar grande velocidade.

É a primeira vez que é descoberta uma grande quantidade de sinais de rádio de possível origem extraterrestre. Há 41 anos, o astrónomo Jerry Ehman fez uma deteção fora de comum através do radiotelescópio Big Ear, da Universidade do Estado de Ohio (EUA), num grupo de estrelas da constelação do Sagitário chamado Chi Sagittarii.

Entusiasmado pela descoberta, o astrónomo escreveu “Wow!” a vermelho nos seus relatórios sobre a sua observação (ver foto), nome desde então adotado para designar aquele sinal, que nunca mais foi detetado, o que levou cientistas a atribuírem a uma civilização extraterrestre a origem do “Wow!”. Mas foi apenas especulação, porque nada conseguiram provar.

O famoso sinal “Wow!”, detetado por um radiotelescópio há 41 anos, parecia ter origem numa civilização extraterrestre, mas em 2016 descobriu-se que foi provocado pela passagem de dois cometas

O famoso sinal “Wow!”, detetado por um radiotelescópio há 41 anos, parecia ter origem numa civilização extraterrestre, mas em 2016 descobriu-se que foi provocado pela passagem de dois cometas

Foto Big Ear Radio Observatory and North American AstroPhysical Observatory (NAAPO)

Só em 2016 é que Antonio Paris, investigador da Universidade de São Petersburgo, na Florida (EUA), descobriu que afinal o misterioso sinal tinha sido provocado pela passagem de dois cometas por aquele grupo de estrelas: o 266P/Christensen e o 335P/Gibbs. Os cometas estão envolvidos por uma espessa nuvem de hidrogénio que pode emitir ondas de rádio na mesma frequência que o radiotelescópio Big Ear detetou.

Mas nesse mesmo ano, o telescópio russo Ratan-600 detetou um forte sinal de rádio proveniente da estrela HD164595b, na constelação Hércules, a 95 anos-luz da Terra. Esta estrela possui pelo menos um planeta do tamanho de Neptuno e parece ter as condições adequadas para a emergência de vida. No entanto, os cientistas foram cautelosos e argumentaram que é necessário mais trabalho de investigação para saber ao certo se a deteção do sinal não passa de um erro ou é mesmo uma comunicação extraterrestre.

Entretanto, o Instituto SETI destaca também no seu comunicado que na deteção dos 72 misteriosos sinais de rádio foram usadas pela primeira vez técnicas de “machine learning” e um novo algoritmo desenvolvido na Universidade da Califórnia em Berkeley, “o que promete abrir novas oportunidades para identificar sinais provenientes de inteligência extraterrestre”.

Frank Drake, fundador do Instituto SETI, na Califórnia, criou em 1961 a famosa Equação Drake, que estima o número de civilizações extraterrestres na Via Láctea com as quais podemos ter hipóteses de comunicação

Frank Drake, fundador do Instituto SETI, na Califórnia, criou em 1961 a famosa Equação Drake, que estima o número de civilizações extraterrestres na Via Láctea com as quais podemos ter hipóteses de comunicação

getty

A utilização da Inteligência Artificial “mostra que pode exisitr grande quantidade de sinais de rádio adicionais que os nossos atuais algoritmos não detetam e pode ajudar-nos a perceber com mais detalhe o comportamento dos sinais de rádio FRB”, sublinhou Bill Diamond, presidente executivo do Instituto SETI.

Frank Drake, fundador deste instituto, criou em 1961 a famosa Equação Drake, que calcula o número de civilizações extraterrestres na Via Láctea com as quais podemos ter hipóteses de comunicar. Esse cálculo é feito a partir das estimativas da taxa de formação de estrelas na nossa galáxia, da fração de tais estrelas que possuem planetas em órbita, do número médio de planetas que potencialmente permitem o desenvolvimento de vida em cada estrela que tem planetas, da fração dos planetas com potencial para a vida que a desenvolveram, da fração dos planetas que desenvolvem vida inteligente, da fração dos planetas que desenvolvem vida inteligente e que têm vontade e os meios necessários para estabelecer comunicações, e do tempo esperado de vida para tal civilização.

Desde então, devido ao aumento exponencial da capacidade de observação dos telescópios e à deteção de um número crescente de planetas, algumas destas estimativas já são possíveis com um certo grau de consistência, mas outras continuam a pertencer ao domínio da especulação.

Os cientistas têm também criado escalas para classificar os sinais estranhos detetados pelos telescópios. A proposta mais recente surgiu em julho, quando um grupo de astrofísicos sugeriu na revista “International Journal of Astrobiology” a criação de uma nova escala chamada Rio 2.0, adaptada a partir de uma outra já usada, a Escala Rio.

A Rio 2.0 tem 10 graus – tal como a Escala de Richter para os sismos – em que o grau zero corresponde a “nada provável” e o grau 10 a “contacto direto”. Um dos seus objetivos é “conseguir alcançar um consenso na comunidade científica para a classificação de sinais potencialmente indicadores da existência de vida extraterrestre avançada”, afirma a proposta dos astrofísicos.