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Macron pede desculpa à viúva de Maurice Audin e reconhece uso de tortura na Guerra da Argélia

Emmanuel Macron ao lado de Michèle Audin, filha de Maurice e Josette Audin

THOMAS SAMSON/AFP/Getty Images

O Presidente “reconhece, em nome da República Francesa, que Maurice Audin foi torturado e depois executado ou torturado até à morte,” disse Emmanuel Macron. O chefe de Estado também anunciou a abertura dos arquivos sobre os desaparecimentos de civis e militares, franceses e argelinos. O ministro argelino dos antigos combatentes afirmou que o gesto do Presidente francês “é um avanço”

O Presidente francês Emmanuel Macron pediu esta quinta-feira desculpa à viúva de Maurice Audin, 61 anos após a morte sob tortura do militante comunista, vítima “do sistema instituído então na Argélia por França.” O chefe de Estado deslocou-se a casa de Josette Audin, com 87 anos, para lhe entregar publicamente uma declaração que reconhece que o desaparecimento, aos 25 anos, de Maurice, pai de três filhos, foi “possibilitado por um sistema cujo desenvolvimento os sucessivos governos permitiram.”

Através daquele documento, o Presidente “reconhece, em nome da República Francesa, que Maurice Audin foi torturado e depois executado ou torturado até à morte.” “Reconhece também que se a sua morte é, em última análise, o ato de alguns, ela foi, no entanto, possível graças a um sistema legalmente instituído”, “criado a favor dos poderes especiais que tinham sido confiados por via legal às Forças Armadas da época”, prossegue.

“Cabe-me pedir-lhe desculpa”, disse Macron a Audin, que agradeceu ao Presidente a declaração feita no seu apartamento. Macron, para quem “a República não pode minimizar nem desculpar os crimes e atrocidades cometidos em ambos os lados” durante a Guerra da Argélia (1954-1962), também anunciou a abertura dos arquivos sobre os desaparecimentos de civis e militares, franceses e argelinos.

“um alheado ou ignorante da História” pode negar os crimes, diz ministro argelino

O ministro argelino dos Moudjahidine (antigos combatentes), Tayeb Zitouni, disse que a decisão de Macron relativamente ao “reconhecimento por França do assassínio de Maurice Audin é um avanço.” Estes crimes “não podem ser negados senão por um alheado ou um ignorante da História”, acrescentou Zitouni, assegurando que “o arquivo da memória entre França e a Argélia” será “tratado com sensatez pelos dois países.”

A 11 de junho de 1957, em plena batalha por Argel, Maurice Audin, assistente de matemática na faculdade da capital, membro do Partido Comunista da Argélia e suspeito de ajudar a Frente de Libertação Nacional, foi preso, provavelmente por paraquedistas do general Jacques Massu. O seu rasto foi perdido dez dias depois.

A explicação oficial dada para o seu desaparecimento - “fuga no decurso de uma transferência” - nunca convenceu os familiares, que tiveram de esperar até 2013 pela abertura dos arquivos sobre o caso.