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Internacional

Fuga às vacinas gera caos nas escolas italianas. Governo decide dispensar declaração médica que comprova vacinação

Jeff J Mitchell

Nos últimos anos, o movimento anti-vacinação tem criado uma situação perigosa em vários países europeus. Governos populistas aumentam bastante os riscos associados a esta tendência

Luís M. Faria

Jornalista

O início do ano escolar em Itália foi marcado pelo caos. Não por causa de greves, ou de algum outro fator acidental, mas por causa das vacinas. Ou melhor, da falta delas. Desde que o atual Governo anulou a obrigação de os pais apresentarem certificados médicos a provar que as suas crianças receberam uma série de vacinas - dez ao todo - muitos pais não sabem o que fazer. Aqueles cujos filhos não podem ser vacinados por motivos de saúde ficam em risco se forem enviados para junto de crianças não vacinadas. Mais de 1000 crianças nessa situação terão faltado às aulas no primeiro dia.

Há anos que o movimento anti-vacinas se vem espalhando pela Europa. Sem qualquer fundamentação científica, os seus adeptos acreditam que as vacinas fazem mal - por exemplo, causando autismo. Com a internet a contribuir decisivamente para espalhar os rumores, países como a Itália, a França, a Grécia e a Roménia viram um grande aumento dos casos de doenças perigosas que neste momento já deviam estar extintas na Europa. Entre elas, o sarampo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, os casos de sarampo passaram de 5 mil em 2016 para 24 mil em 2017 e 41 mil só na primeira metade deste ano. Em Itália, o aumento foi de escassas centenas para 5 mil. As vítimas mortais do sarampo na Europa são já 37 em 2018.

Em Itália, o Governo é constituído por uma aliança de populistas: a Liga do Norte, anti-imigrante e de direita, e a Movimento 5 Estrelas. O líder deste último é abertamente anti-vacinas, e não surpreende que uma das primeiras medidas do novo Governo tenha sido dispensar o certificado médico, permitindo aos pais serem eles a dizer se os seus filhos foram ou não vacinados.

Essa regra (ainda assim, um avanço em relação à ideia original, que era pura e simplesmente autorizar crianças não vacinadas a frequentar a escola) deve vigorar até pelo menos março do próximo ano. O que cria um caldo perigoso nas escolas, pois sabe-se que para haver segurança é preciso pelo menos 95% de uma população estar vacinada. Com as mortes evitáveis a subir, se ainda restava alguma dúvida de que o populismo e as notícias falsas matam, a prova ficou feita.