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“Em retrospetiva, a situação poderia ter sido mais bem gerida”, diz Suu Kyi sobre rohingya

Aung San Suu Kyi discursa no Fórum Económico Mundial

Zhang Chenyi/China News Service/VCG/Getty Images

A líder de Myanmar afirmou que o seu Governo poderia ter lidado melhor com a situação que levou cerca de 700 mil muçulmanos rohingya a fugirem do estado de Rakhine. No entanto, acrescentou: “Para termos segurança e estabilidade a longo prazo, temos de ser justos com todos os lados. Não podemos escolher quem deve ser protegido pelo estado de direito”

A líder de Myanmar, Aung San Suu Kyi, disse esta quinta-feira que em retrospetiva o seu Governo poderia ter lidado melhor com a situação no estado de Rakhine. Cerca de 700 mil muçulmanos rohingya fugiram daquele estado da antiga Birmânia para escaparem à brutal repressão dos militares na sequência de ataques a 30 postos da polícia e uma base militar em agosto de 2017.

“Há naturalmente maneiras através das quais, em retrospetiva, a situação poderia ter sido mais bem gerida”, disse Suu Kyi no Fórum Económico Mundial, que termina esta quinta-feira em Hanói, capital do Vietname. “Mas acreditamos que, para termos segurança e estabilidade a longo prazo, temos de ser justos com todos os lados. Não podemos escolher quem deve ser protegido pelo estado de direito”, acrescentou.

Atrocidades com “intenção genocida”, acusa a ONU

A Prémio Nobel da Paz tem sido muito contestada internacionalmente por não ter agido contra aquilo que as Nações Unidas já apelidaram de atrocidades com “intenção genocida”. No mês passado, uma missão independente da ONU citou seis comandantes militares que deveriam ser processados por genocídio. Um relatório recente da organização também já tinha descrito as ações das autoridades de Myanmar como genocídio, estimando 10 mil mortes e reportando atrocidades como violações em grupo e a destruição generalizada de aldeias.

Três juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI) anunciaram há uma semana que a instância pode exercer jurisdição para investigar a deportação de centenas de milhares de muçulmanos rohingya das suas casas em Myanmar como um crime contra a humanidade. O Governo do país rejeitou “firmemente” a decisão do TPI, que considera ter “uma base jurídica duvidosa”, adiantando que as autoridades de Myanmar não têm “qualquer obrigação” de respeitar a decisão por não serem signatários do Estatuto de Roma, o tratado fundador do tribunal.

“Campanha política contra o jornalismo independente”

Já esta terça-feira, o Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos afirmou que Myanmar utiliza uma “campanha política contra o jornalismo independente” que torna “impossível os jornalistas trabalharem sem medo ou favores”. Um país, onde “jornalistas são detidos apenas por terem visitado uma zona controlada por um grupo armado”, “fontes são detidas por darem informações sobre zonas de conflito” e “uma mensagem no Facebook pode dar lugar a acusações de difamação”, vivem “um ambiente dificilmente propício a uma transição democrática”, afirmou em comunicado a nova Alta-Comissária para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

A líder de facto do Governo de Myanmar (antiga Birmânia) também se pronunciou esta esta quinta-feira sobre este assunto: disse que os dois repórteres da agência de notícias Reuters, condenados por investigarem o massacre dos rohingya, não foram condenados por serem jornalistas, mas porque violaram a lei.

"Eles não foram presos por serem jornalistas", mas porque "o tribunal decidiu que eles violaram a lei", disse, comentando pela primeira vez o julgamento de 4 de setembro, no qual Wa Lone, de 31 anos, e Kyaw Soe Oo, de 27, foram condenados por violação da "lei dos segredos oficiais", uma lei de 1923.

Os jornalistas Wa Lone, de 31 anos, e Kyaw Soe Oo, de 27, foram condenados a sete anos de prisão por violação da “lei dos segredos oficiais”, uma lei de 1923. Os dois profissionais da agência Reuters foram detidos em dezembro e acusados de terem recebido “importantes documentos secretos” de dois polícias que tinham estado colocados no estado de Rakhine, onde as forças de segurança são acusadas de assassínios em massa de membros da minoria muçulmana rohingya.