Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Há coisas que não se perdoam. As histórias cruzadas de Sergei Skripal e de Putin

Adam Berry/Getty

Vlamidir Putin nunca fez segredo disso - a traição é o pecado mais imperdoável. Quando Sergei Skripal foi entregue ao Ocidente, numa troca de espiões realizada em 2010, o acordo não escrito, mas nem por isso menos essencial, previa que Skipral nunca agisse contra a Rússia. Mas no Reino Unido, onde foi alvo de uma tentativa de assassinado, Skripal continuou a usar o seu conhecimento de ex-espião russo. E há coisas que não se perdoam

Ana França

Ana França

Jornalista

Um caiu, outro tornou-se rei. Sergei Skripal e Vladimir Putin dedicaram, ambos, a vida toda ao combate pela União Soviética - ou contra o Ocidente, dependendo da perspectiva. Da mesma idade, com a mesma ideologia, parte do mesmo serviço de informações: o KGB.

À medida que foi subindo a falésia escarpada que é a política russa, Putin, hoje Presidente do país, foi entrelaçando os fios do antigo regime soviético até formar um tecido indestrutível, capaz de o sustentar a si, aos seus velhos aliados e às vinganças que tinha planeado contra aqueles que tinham traído os serviços secretos no ponto mais vulnerável da sua história.

Sergei Skripal foi um dos seus alvos. O espião desertou para o Reino Unido, e, em março deste ano, quase morreu com a sua filha depois de um ataque com o agente químico novichok, alegadamente conduzido por russos, os ter deixado a alucinar e a espumar num banco de jardim numa pacata cidade do sul de Inglaterra. O que se seguiu foi uma espécie de primeiro capítulo de um romance de espiões: centenas de diplomatas expulsos, a linguagem a tornar-se mais ameaçadora de um lado e de outro das esferas de influência, respiração em suspenso. O que farão agora as grandes potências?

Nada. A expulsão dos diplomatas foi suficiente como sapatada mútua. Continua a não se saber como e porquê foram Sergei Skripal e a sua filha Yulia atacados, mas o Reino Unido já identificou as pessoas que, segundo as autoridades britânicas, estiveram por trás do envenenamento: Alexander Petrov e Ruslan Boshirov são os nomes que o Ministério Público britânico diz ter razões suficientes para acusar. Segundo o diário “The Guardian”, ambos são agentes do serviços de informações russos, a GRU, onde Skripal tinha trabalhado no passado.

É difícil saber se Putin esteve envolvido, de alguma forma, neste episódio, mas o “New York Times”, depois de dezenas de entrevistas conduzidas em vários países e depois de horas de análise a documentos de vários tribunais russos, prova que as vidas dos dois homens se cruzaram em vários pontos.

Skripal, um agente "bastante materalista"

Para um ex-agente ao serviço da ideologia comunista, Skripal era “bastante materialista”, disse ao “New York Times” Oleg Ivanov, um seu colega dos tempos em que ambos trabalhavam na autarquia de Moscovo. Não tinha muito dinheiro, vivia num apartamento rude e guiava um carro velho mas “andava sempre a tentar biscates” que o tornassem rico. “Toda a ideologia soviética que dava estrutura ao nosso governo esfumou-se na História. Havia uma espécie de slogan na altura: Enriqueçam!”, disse Ivanov.

E por querer fazer dinheiro vendeu até segredos russos. Em 2006, Skripal foi condenado a 13 anos de prisão por ter passado informação a um agente britânico em troca de dinheiro, durante os anos 1990, em que esteve destacado em Madrid. Estávamos, afinal, em 2006, a União Soviética era uma miragem já a ser recolorida nas cabeças de alguns dos seus ex-companheiros mas, ainda assim, podia ser sido pior. “Só” 13 anos por traição na Rússia não é uma sentença pesada.

Quem também estava de regresso, mas de Dresden, era Putin. Sentia, como Skripal, ao entrar no seu pobre apartamento e ao guiar o seu velho carro, a perda do seu antigo estatuto. Havia tantos espiões a regressar que o governo russo não sabia onde os pôr a dormir.

Muitos informadores e espiões soviéticos, ou afetos à esfera de influência comunista, desertaram e ofereçam os seus serviços ao Ocidente ou, sem os oferecerem, permaneceram, muitas vezes sob disfarce nos países onde tinham sido espiões. Putin nunca escondeu o seu desdém. Já disse em entrevistas que a traição é o pecado sem perdão e também já disse que os traidores têm sempre um fim doloroso - “como regra ou morrem de alcoolismo ou de abuso de drogas”.

Em 2010, quando Skripal foi entregue ao Ocidente, juntamente com outros dois homens numa “troca de espiões”, Putin sonhou, acordado e em público, com a sua morte. Mas já lá vamos.

Uma curiosa "fuga" de informação

No dia antes de ser eleito presidente da Rússia, algo de extraordinário - pelo menos à luz dos acontecimentos recentes com os Skripal - aconteceu.

Os Serviços Federais de Segurança, um organismo que, até aí, tinha estado sob o comando de Putin, deixou escapar uma informação: a identidade de um dos agentes do serviço de informações britânicos MI6, que era conhecido por recrutar agentes russos. O nome da mulher deste homem e o facto de que ele tinha duas filhas também foi revelado. Esse agente britânico foi quem recrutou Skripal.

Depois de Sergei Skripal ter sido preso, seguiram-se anos de desespero no interior da família. Lyudmila, sua mulher, mal tinha dinheiro para comer mas sobravam-lhe dúvidas e teria dinheiro se pudesse vender a raiva que tinha de todos os outros espiões que tinham ficado no Ocidente sem que ninguém os fosse buscar para os prender como traidores. “Porque é que ninguém os ofende?”, perguntava Lyudmila à sua sobrinha Viktoria, que, por sua vez, contou a história desses anos ao jornal nova-iorquino.

Durante dois anos, Lyudmila Skripal implorou que o Estado devolvesse a Skripal a sua pensão, porque ela já não lhe conseguia enviar dinheiro para nada na prisão, nem para os produtos de higiene pessoal. Depois de findos dois anos, recebeu o equivalente na altura a mil dólares.

O filho do casal, Sasha, começou a beber já que toda a sua vida foi construída à volta de contactos dos antigos serviços secretos. Quando a traição do pai se tornou pública todos o abandonaram, incluindo a mulher. Começou a beber e continuou. Em 2017, Sasha morreu de um doença renal. Tinha 43 anos.

No verão de 2010, durante uma espécie de “flirt” entre Dmitri Medvedev, então Presidente, e Barack Obama, também então Presidente dos Estados Unidos, foi acordada uma troca de espiões. Skripal foi um dos escolhidos e, em julho, depois de ver brevemente a família à porta da prisão de Mordovia, voou para a liberdade, em direção aos Estados Unidos. Nessa viagem, disseram fontes não identificadas ao “New York Times”, bebeu-se champanhe.

"Um imbecil qualquer chega e trai essas pessoas"

Mas havia uma pessoa menos feliz. Numa entrevista na televisão estatal russa, o então primeiro-ministro russo foi questionado sobre esta troca. E não teve mais do que desprezo para expelir: “Uma pessoa dá a vida toda pela sua nação e depois um imbecil qualquer chega e trai essas pessoas. Como é que ele poderá olhar para os olhos dos seus filhos, esse porco?”.

E depois do desprezo a certeza: “O que quer que tenham recebido em troca, as 30 peças de prata que lhes tenham dado, vão morrer engasgados com elas. Acreditem em mim”, disse Putin.

“E sabe os nomes dos espiões que traíram os seus colegas, senhor Putin?” “Claro que sim”, disse Putin ao jornalista. “E que punição lhes atribuiria?”, perguntou de novo o jornalista. “Eles vivem pelas suas regras e essas regras são bem conhecidas de todos dentro dos serviços secretos”, acrescentou Putin.

Depois de chegar a Inglaterra, para onde foi finalmente transferido, Skripal não deixou a sua atividade - e talvez devesse ter deixado. Ao serviço do MI6, Skripal continuou a viajar para Madrid, Estónia, República Checa dando palestras sobre o funcionamento da GRU. Pode ser que os britânicos tenham só querido mantê-lo entretido: são comuns as depressões em ex-membros dos serviços secretos ou militares quando deixam de se sentir tão úteis como nos velhos e bons tempos.

Mas talvez que a Rússia não tenha sido tão benevolente com Skripal. Aleksei Venediktov, jornalista especializado na história dos serviços de informações russos disse ao “New York Times” que, “apesar de não estar escrito”, todos os antigos ou atuais agentes dos serviços secretos sabem que “se vais para o outro lado, ficas lá, não trabalhas contra a Rússia, cultiva o teu jardim, com calma e muito serenamente”, disse o jornalista. “Nunca usas as tuas competências militares contra a Rússia mas Skripal violou essa regra”, acrescentou ainda.

Como sabia que o seu pai jamais se poderia deslocar à Rússia para assistir ao casamento que planeava com o seu namorado de sempre, Yulia Skripal embarcou num voo para Londres, para lhe pedir a benção.

Os dois atuais suspeitos da tentativa de assassinato dos Skripal já estavam em Salisbury quando Yulia aterrou. Quando pai e filha foram encontrados, com tremores, convulsões e quase mortos, os dois homens já estavam no comboio de regresso ao aeroporto.

É pouco provável que a Rússia os envie para o Reino Unido para serem julgados. Apesar da aparente certeza generalizada da culpa da Rússia neste incidente, o laboratório de análises químicas do Reino Unido não conseguiu confirmar a proveniência do novichok, dizendo apenas que um arma química daquela potência teria que ser produzida por um laboratório estatal.