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Internacional

Agente policial entra num apartamento alheio e mata o homem que lá vivia. Foi mesmo por engano?

As dúvidas acumulam-se em mais um caso de um negro que perde a vida sem razão às mãos de quem o devia proteger

Luís M. Faria

Jornalista

Continuam as dúvidas sobre mais um caso de um cidadão negro morto sem razão por um polícia nos Estados Unidos. Desta vez foi em Dallas, Texas, e tem a originalidade de o cenário ter sido a própria casa da vítima, onde uma agente fora de serviço terá entrado por engano. Esta, pelo menos, foi a versão inicialmente apresentada pelas autoridades. Há testemunhas que a contestam.

Quinta-feira passada, Amber Guyger, uma mulher de 30 anos que trabalha na polícia há quatro, entrou no apartamento de Botham Jean, um contabilista de 26 que vivia no andar debaixo em relação ao seu. Ela diz que saiu do elevador no andar errado, viu a porta semi-aberta e, na escuridão, deparou com um homem que recusou obedecer às suas ordens. Disparou dois tiros, um dos quais atingiu Jean no peito e o matou. A seguir ligou para as emergências, e só então percebeu que aquele apartamento não era o seu.

Ao contrário do que seria normal em tais circunstâncias, ela não foi presa. Só dias depois (após protestos públicos) isso aconteceu, e Guyger foi logo libertada sob fiança. A polícia retirou-a do serviço ativo, mas não a suspendeu, colocando-a em "serviço administrativo". À partida, tudo indicava que ia ser como noutros casos em que polícias mataram brancos e ficaram impunes.

"Meu Deus, porque me fizeste isto?"

Guyger foi acusada de homicídio negligente. Mas entretanto parecem ter aparecido vizinhos a contestar a sua versão dos acontecimentos. Contaram ter ouvido uma voz a repetir a frase "deixa-me entrar" junto ao apartamento de Jean. Depois vieram os disparos, e as últimas palavras do homem terão sido: "Meu Deus, porque me fizeste isto?".

Por motivos de isenção, a investigação foi retirada à polícia e passou para os Texas Rangers. Se se confirmarem suspeitas que entretanto surgiram, Guyger poderá ser acusada de homicídio qualificado. Manifestações em frente à sede da polícia de Dallas tiveram de ser dispersadas com gás pimenta. E a imprensa local está a ser acusada de cumplicidade com a polícia, por ter aceitado a sua versão demasiado depressa.

Jean era oriundo de Santa Lucia, uma ilha nas Caraíbas. A sua família é profundamente cristã e bastante ativa na vida da igreja. A sua mãe notou que um cristão deve perdoar, mas também disse que há muitas perguntas por responder no caso. Durante anos, explicou, foi Jean que lhe deu força para aguentar nos piores momentos. Agora ela precisa de ter força para garantir que lhe fazem justiça.