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“Pedir melhores condições é o mesmo que pedir para te matarem”. Desertora descreve paradas militares na Coreia do Norte

ED JONES/GETTY IMAGES

Para quem vê de fora trata-se provavelmente de um espetáculo “fascinante”, mas a realidade é outra. “Estas pessoas trabalham durante seis meses sem comer. Transpiram e esforçam-se para quê, para 10 minutos de marcha? É penoso”, diz norte-coreana que costumava participar nos desfiles militares em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, até ter fugido do país, em 2013

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

As condições são duras mas nem adianta fazer queixa ou pedir que sejam melhores. “Isso seria o mesmo que pedir que te matassem”, diz em entrevista à BBC uma norte-coreana que desertou do país em 2013, referindo-se aos desfiles militares que costumam acontecer em Pyongyang, capital da Coreia do Norte.

O mais recente realizou-se no domingo passado e serviu para assinalar o 70.º aniversário da fundação do país. Soldados, artilharia e tanques desfilaram diante do líder norte-coreano, Kim Jong Un, no centro da capital, numa cerimónia que se distinguiu das anteriores por não terem sido apresentados mísseis balísticos internacionais - apenas mísseis de curto alcance - e pelo discurso de Jong Un, menos belicista e inflamado do que o habitual por estas ocasiões.

À cadeia de televisão britânica, Kim Ji-young começa por explicar que em cada desfile militar há pessoas incumbidas de tarefas diferentes - há as pessoas que seguem atrás, normalmente “raparigas adolescentes, não casadas e homens abaixo dos 30 ou que ainda ajudam a sustentar as respetivas famílias”, e que seguram flores e entoam cânticos; há o grupo que segura nas tochas, no qual ela se incluía quando participava nas paradas; e os militares, que vão na frente. “Durante o verão, as raparigas usam apenas uma t-shirt que invariavelmente vai ficar queimada por causa das tochas, com grandes buracos. Os rapazes tentam ser gentis e fornecem t-shirts extra que transportam para os eventos, mas muitas vezes é impossível trocar e temos de aguentar aquilo e continuar a caminhar”.

Kim Ji-young fala também sobre os preparativos para estes desfiles militares, que exigem um treino que chega muitas vezes aos seis meses e que é muito desgastante. “Tens de levantar a perna de trás exatamente no mesmo momento em que a perna da frente toca no solo. Isto é muito difícil. Fazer isto durante seis meses equivale a perder no mínimo cinco quilos”.

Para quem vê de fora, continua a norte-coreana, trata-se provavelmente de um espetáculo “fascinante”, mas a realidade é outra. “Estas pessoas trabalham durante seis meses sem comer. Transpiram e esforçam-se para quê, para 10 minutos de marcha? É penoso. Gostava que toda a gente entendesse o que está por detrás daquilo.” Queixar ou pedir condições melhores não é, contudo, uma solução, diz ainda a norte-coreana, garantindo que isso seria o mesmo que pedir para “ser morto”.

O mais recente desfile - o primeiro desde que Kim Jong-un e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinaram em junho uma declaração conjunta em Singapura em que prometiam trabalhar em conjunto para a desnuclearização do regime de Pyongyang - aconteceu no domingo passado e teve como propósito assinalar o 70.º aniversário da fundação do país.

Na cerimónia marcaram presença o chefe do parlamento chinês e delegações ao mais alto nível de países que mantêm relações diplomáticas próximas do regime norte-coreano. Menos abrasivo e laudatório do que o habitual, Kim Jong-un referiu durante o seu discurso que os objetivos do regime passam mais pelo crescimento económico do que pelo desenvolvimento de armas nucleares.

Sokeel Park, membro de uma organização não-governamental que apoia desertores norte-coreanos, a “Liberty in North Korea”, fez uma descrição semelhante dos desfiles militares à BBC. “É suposto que todas essas pessoas que participam nos desfiles sejam vistas, não que sejam ouvidas. Mas cada rosto que se destaca na multidão que marcha na praça em Pyongyang representa um indivíduo que poderá ter uma opinião diferente [sobre o regime], se lhe derem a oportunidade de ser ouvido.”