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Eleições exigem boa dose de ginástica sueca

Stefan Löfven

© TT News Agency / Reuters

Centro-esquerda e centro-direita habituaram-se a ir rodando no poder, mas ascensão da extrema-direita impede futuro governo oriundo de apenas uma destas fações

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

“Esta noite marca o funeral da política de blocos.” Quem o diz é o vencedor (ou talvez seja melhor dizer apenas “o mais votado”) das eleições legislativas deste domingo na Suécia. O primeiro-ministro social-democrata, Stefan Löfven, reagiu aos resultados reconhecendo que vai ser preciso formar um Governo que junte partidos de esquerda e de direita. A tarefa deverá demorar semanas, escreve o diário britânico “The Guardian”.

Se o país se habituou ao longo de décadas a ver alternar no poder alianças articuladas em torno dos maiores partidos de centro-esquerda ou centro-direita, a irrupção no cenário dos Democratas da Suécia (DS), que defendem a saída da Suécia da União Europeia e o fim da imigração, deixou ambos os blocos tradicionais aquém de uma maioria que permita governar.

O país escandinavo, considerado um exemplo de democracia e um bastião social-democrata, segue assim a tendência verificada noutros Estados-membros da União Europeia: desgaste do centro convencional em benefício de forças emergentes antissistema, sejam elas a Liga ou o Movimento 5 Estrelas em Itália; Macron ou Mélenchon em França, onde já pontuava o clã Le Pen; Podemos ou Cidadãos em Espanha; a Alternativa para a Alemanha; o partido de Wilders na Holanda; o Partido da Liberdade, FPÖ, na Áustria (este já na coligação de Governo). Sem falar, é claro, dos governos que instauram a “democracia iliberal” na Hungria ou na Polónia.

No final de uma jornada eleitoral em que o Partido Social-Democrata, no poder desde 2014, conquistou 101 dos 349 lugares de deputado (com 28,4% dos votos, segundo resultados oficiais preliminares), a preocupação de Löfven era assegurar que no futuro Executivo não estivesse o DS. A formação de extrema-direita foi a terceira mais votada e terá 63 assentos. “Os DS nunca poderão oferecer, nem oferecerão, nada que possa ajudar a sociedade. Apenas aumentarão a divisão e o ódio”, sentenciou o primeiro-ministro. Cabe aos demais partidos, por isso, a “responsabilidade moral” de formar Governo.

Apesar da quebra de votos (tinham tido 31% há quatro anos), que levou os sociais-democratas ao pior resultado do último século, Löfven pretende continuar a liderar os destinos do país. “Nada ficará decidido esta noite”, garantiu aos apoiantes desiludidos.

Todos alérgicos à extrema-direita

As reações de Löfven aos resultados não diferem muito das dos seus rivais convencionais. Jan Bjorklund, líder do Partido Liberal, que faz parte de uma aliança de quatro partidos de centro-direita, garantiu que o preço a pagar para formar Governo não será cooperar com os DS. A coligação conservadora (Partido Moderado, Partido do Centro, Partido Liberal e Democratas-cristãos) conseguiu 142 deputados, contra os 144 da coligação chefiada pelo primeiro-ministro (Sociais-democratas, Partido Verde e Partido da Esquerda).

Apesar da repulsa com que o tratam, o líder dos DS, Jimmie Åkesson, declarou-se disposto a colaborar com qualquer outro partido, desde que a sua formação nacionalista ganhasse influência real no futuro Executivo, escreve a Reuters. “Aumentámos a nossa bancada no Parlamento e ganharemos grande influência sobre o que se vai passar na Suécia nas próximas semanas, meses e anos”, prometeu aos seus adeptos.

Atrás dos Sociais-democratas ficaram o Partido Moderado (19,8%, 70 deputados), os Democratas Suecos (17,6%, 63 deputados), o Partido do Centro (8,6%, 30 deputados), o Partido da Esquerda (7,9%, 28 deputados), os Democratas-cristãos (6,4%, 23 deputados), o Partido Liberal (5,5%, 19 deputados) e o Partido Verde (4,3%, 15 deputados). Sem representação parlamentar ficaram a Iniciativa Feminista, o Partido Pirata, a Alternativa para a Suécia (direita nacionalista) e o Movimento de Resistência Nórdica (neonazi).

A Suécia recebeu 163 mil candidatos a asilo em 2015, sendo o país que proporcionalmente à sua população mais pessoas viu entrar. O eurocético Åkesson soube capitalizar o medo do estrangeiro, granjeando sufrágios para o seu DS, nascido de forças defensoras da supremacia branca. O partido, que obtivera 12,9% e 49 deputados nas últimas legislativas, em 2014, subiu agora para 17,6% e 63 deputados. Ficou abaixo das sondagens mais simpáticas, que admitiam que fosse o partido mais votado, mas chegou para mudar todo o panorama político. A noite é vivida, pois, em tuns funéreos. Para já, pela política de blocos. Um dia destes, é agora menos fantasioso imaginar, pela democracia.