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Suécia vota no domingo em eleições que questionam validade do Estado social

STINA STJERNKVIST/GETTY IMAGES

A poucos dias da votação, as sondagens têm sido as grandes protagonistas, muito porque projetam um panorama político inédito para um dos últimos países europeus governados pelo centro-esquerda, onde a social-democracia está a perder a favor da extrema-direita

As eleições gerais de domingo na Suécia poderão ficar na memória europeia como o escrutínio que discutiu a validade do modelo do “Estado de bem-estar social” e que colocou os valores populistas e anti-imigração no círculo do poder sueco.

A poucos dias da votação, as sondagens têm sido as grandes protagonistas, muito porque projetam um panorama político inédito para um dos últimos países europeus governados pelo centro-esquerda, onde a social-democracia está a perder a favor da extrema-direita.

De um lado está o atual primeiro-ministro sueco, o social-democrata Stefan Löfven, e do outro lado está um adversário que ambiciona romper com o ‘establishment’ (ordem estabelecida), o líder dos Democratas da Suécia (SD, força política de extrema-direita, xenófoba e eurocética), Jimmie Akesson.

Na semana passada, Stefan Löfven, primeiro-ministro desde 2014, destacava, num comunicado, que estas eleições iam ser “um referendo ao [Estado de] bem-estar social na Suécia”, país com um generoso sistema social, com uma economia saudável e uma reputação de tolerância e de acolhimento.

Segundo as mais recentes projeções, conhecidas esta semana, os sociais-democratas de Löfven terão 25,2% do apoio do eleitorado sueco, enquanto os Democratas da Suécia poderão alcançar 18,6% dos votos e tornar-se a segunda força política do país, à frente do Partido Moderado (conservadores) que ronda os 17%.

Para o Partido Social-Democrata sueco, estes números poderão representar a sua pior votação em mais de um século.

Já para os Democratas da Suécia, poderá ser a primeira vez que a formação, cujas origens remontam ao movimento neonazi sueco, tem hipóteses de chegar à esfera do poder da potência escandinava.

Em 2010, ano em que entrou no Parlamento sueco, o SD conseguiu 5,7% dos votos (20 deputados entre os 349 que compõem o Parlamento), percentagem que cresceu para 12,9% (49 deputados) em 2014.

Alguns analistas temem que as atuais intenções de voto no SD, partido fundado em 1988, estejam a ser subestimadas.

Até à data, os partidos do ‘establishment’ nunca manifestaram disponibilidade para dialogar com o SD ou para integrar esta força política numa eventual futura coligação governamental, mas o partido, mesmo que não chegue já ao poder, tem vindo a ganhar influência no debate político sueco, muito porque o próprio foco do discurso político mudou.

Um dos objetivos do SD é lucrar com o seu apoio à direita para derrotar a minoria de centro-esquerda cessante obtendo, por exemplo, a presidência de comissões parlamentares.

“Quando falamos da Suécia e de outros países escandinavos, associamos estes países com a social-democracia. (…) Mas parece que isso vai acabar agora. Tornámo-nos um país como todos os outros. Agora é um bastião da social-democracia, talvez em ruínas”, disse um especialista em política sueca da Universidade de Gotemburgo, Patrik Öhberg, citado em meados de agosto pela imprensa internacional.

Opinião partilhada por outro académico da Universidade de Gotemburgo, Ulf Bjereld, que acredita que a dimensão política esquerda/direita que dominou a política sueca durante os últimos 100 anos acabou.

“A agenda política na Suécia é agora uma questão de migração, de lei e ordem, e não dos problemas tradicionais relativos ao [Estado de] bem-estar social. E esta mudança é desfavorável para os sociais-democratas”, afirmou o professor de Ciências Políticas, citado este mês pelos ‘media’ internacionais.

Apesar da boa saúde da economia e dos baixos níveis do desemprego nacional, o clima social e político na Suécia mudou.

Pela primeira vez, uma campanha eleitoral na Suécia foi protagonizada pelas questões migratórias e pelas suas consequências ao nível da segurança dos cidadãos e do “Estado de bem-estar social”.

A votação de domingo será a primeira a ser realizada desde que a Suécia, país com uma população que ronda os 10 milhões de habitantes, recebeu 163 mil requerentes de asilo em 2015, o maior rácio per capita da Europa no acolhimento de migrantes.

Em poucos meses, o Governo de Estocolmo teve, no entanto, que recuar nas políticas de acolhimento e o primeiro-ministro sueco, Stefan Löfven, admitiu que o país não estava a conseguir lidar com tal fluxo migratório.

Apesar do endurecimento das leis migratórias e do reforço dos controlos fronteiriços, muitos suecos sentem-se abalados por um crescente sentimento de insegurança, alimentado por relatos de violações, carros incendiados e violência de gangues em bairros normalmente associados com a população imigrante e com uma elevada taxa de desemprego.

Um cenário que tem sido fértil para a agenda anti-imigração dos Democratas da Suécia, que durante a campanha eleitoral anunciaram também a intenção de apresentar um pedido no Parlamento para que a permanência sueca na União Europeia (UE) vá a referendo após as eleições gerais de domingo.

Nas vésperas da votação, e perante um possível resultado histórico da extrema-direita sueca, mais de 250 personalidades da cultura sueca assinaram um apelo na rede social Facebook para bloquear o SD.

A iniciativa, sob o lema “#Vad som helst men ALDRIG SD” (#Tudo menos SD), reunia o apoio, na quinta-feira, de cerca de 90.000 pessoas.

A par de eleger os 349 deputados que estarão nos próximos quatro anos no Parlamento sueco, as eleições de domingo também vão escolher cargos municipais.

As assembleias de voto serão abertas às 08h00 locais (07h00 de Lisboa) e encerrarão às 20h00 locais (19h00 de Lisboa).

Nos cadernos eleitorais constam 7,5 milhões de eleitores inscritos, alguns dos quais já começaram a participar na votação antecipada que arrancou no passado dia 22 de agosto.

Com vários partidos a disputarem o escrutínio, é expectável que nenhuma força política obtenha a maioria (175 assentos parlamentares), o que significa que o país poderá testemunhar semanas ou mesmo meses de negociações para uma futura coligação governamental.