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Autoridades gregas prendem voluntários de ONG, incluindo síria que salvou 19 refugiados em 2015

ARIS MESSINIS/GETTY IMAGES

Os três voluntários, entre os quais se inclui Sarah Mardini, a síria que, juntamente com a irmã, evitou a morte de 19 refugiados que seguiam a bordo de uma embarcação com destino à Grécia, em 2015, são acusados de auxílio à entrada ilegal de refugiados, organização criminosa e espionagem. Outras 30 pessoas estão a ser investigadas pelas autoridades gregas por razões semelhantes

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

As autoridades gregas prenderam esta semana três voluntários de organizações não-governamentais que prestam auxílio a imigrantes e refugiados chegados à Grécia, incluindo Sarah Mardini, a síria que foi aplaudida como heroína depois de evitado a morte de 18 refugiados que seguiam a bordo de uma embarcação que partira da Turquia com destino à Grécia, em 2015. São acusados de auxílio à entrada ilegal de refugiados, organização criminosa e espionagem.

A família dos voluntários detidos - e que incluem, além da síria, Athanasios Karakitsos, conhecido como “Nassos”, um militar grego que trabalhou como oficial de segurança marítima antes de se voluntariar para integrar missões humanitárias de ONG, e Seán Binder, um alemão de 24 anos que cresceu na Irlanda - já apelaram à sua libertação numa página na Internet criada para o efeito, chamada “Free Humanitarians”. Ali, os familiares explicam que a detenção está a ser acompanhada por uma equipa de advogados e pedem máxima divulgação nas redes sociais, manifestando ao mesmo tempo total confiança na justiça grega.

À semelhança de milhares de sírios, Sarah Mardini, hoje com 23 anos, abandonou o seu país por causa da guerra civil que teve ali início em 2011. De Damasco, capital da Síria, onde vivia, partiu para a Turquia e da Turquia para a Grécia. Durante a viagem com destino à ilha grega de Lesbos, o barco em que seguia com a irmã, Yusra, também ela uma nadadora experiente - viria, aliás, a participar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016 - teve uma avaria no motor. Foi graças às duas irmãs, e à sua iniciativa de saltar para a água e 'rebocar' o barco, que as restantes pessoas a bordo, 19 no total, chegaram em segurança à ilha grega.

O gesto foi amplamente noticiado e elogiado, e Sarah Mardini viria aliás a receber um prémio Bambi, galardão alemão que distingue personalidades da televisão, cultura, desporto e outras áreas - também viria a receber direito de asilo na Alemanha. Integrou depois a equipa de voluntários do Centro Internacional de Resposta de Emergência (ERCI, na sigla em inglês), que presta auxílio a imigrantes e refugiados em Lesbos, e, na semana passada, foi detida. Poderá ficará em prisão preventiva até ao julgamento, isto é, durante um período máximo de 18 meses.

A polícia grega alega que tanto Sarah Mardini como os restantes voluntários detidos prestaram “apoio direto a organizações de tráfico de imigrantes” mas o advogado da refugiada síria, Haris Petsikos, garantiu à Reuters que, no que diz respeito à sua cliente, “não há uma única prova” que a incrime. “Sarah estava a fazer estritamente trabalho de voluntariado”, disse o advogado à agência de notícias, acrescentando que a refugiada síria nem sequer estava na Grécia quando os alegados crimes foram cometidos.

As autoridades gregas estimam que haja 114 ONG e 7.356 voluntários a trabalhar em Lesbos e têm falado de uma “verdadeira indústria”, acusando estas organizações de serem um “fator de atração” à imigração considerada ilegal. Esta semana, anunciaram estar a investigar, no total, 30 pessoas suspeitas de tráfico de imigrantes, espionagem e lavagem de dinheiro.

Num e-mail enviado à agência Lusa, a ERCI afirma estar “a ser esmagada” - a maioria dos seus trabalhadores estará detida e quase todos os voluntários pediram já para abandonar a organização “por medo de serem presos”. A ERCI diz ainda não ter dúvidas de que esta acusação e a detenção destes voluntárias foi motivada por razões políticas, tratando-se desse modo de uma “clara tentativa para criminalizar o trabalho humanitário, a fim de enfrentar a crise de refugiados na Europa”.