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“A minha vida não é a tua pornografia”. O fenómeno das câmaras escondidas e das filmagens ilegais em Seul

ED JONES/ Getty Images

O processo mais comum é aparentemente simples: uma câmara é colocada na casa de banho. Sem saberem, as mulheres são filmadas ou fotografas. Por fim, as imagens são colocadas online e vistas por quem as quiser ver. Desde 2011, o número de casos não parou de crescer e já deu origem a várias manifestações

Imagine que está em casa e que a polícia lhe bate à porta. Em seguida, mostram-lhe um vídeo de uma pessoa que anda por um apartamento praticamente nua. O vídeo corre e, quando olha melhor, percebe que aquele apartamento é a sua casa e aquela pessoa é você.

Foi isto o que aconteceu à sul-coreana Choi. Ela é o exemplo de um fenómeno que tem crescido nos últimos anos na Coreia do Sul: as filmagens ilegais ao género de um espião, mas sem as motivações para desvendar um crime ou resolver um problema de segurança nacional. Choi não sabia que aquelas suas imagens tinham sido gravadas, muito menos imaginava que tivessem sido colocadas online.

“Agora, tenho medo de estar em casa porque isto aconteceu. Fui filmada dentro da minha própria casa, por isso não tenho vontade de lá estar; ao mesmo tempo, tenho medo de sair do apartamento apesar de ser dia”, contou Choi à CNN, que, por vergonha do que lhe aconteceu, pediu que fosse apenas utilizado o seu apelido.

Choi vive em Seul, capital da Coreia do Sul, onde, desde o começo da semana, um grupo de mulheres patrulha diariamente 20 mil casas de banho públicas na cidade. Entram em cada cubículo à procura de uma possível câmara escondida estrategicamente ali colocada. Embora a câmara com uma super-lente que filmou Choi tenha sido colocada por alguém no telhado de um prédio vizinho daquele em que vive, o mais frequente neste fenómeno da “spy cam-porn” são as imagens captadas em casas de banho.

Certo dia, Han Jin-young estava a trabalhar. É funcionária numa empresa comercial em Seul. Foi à casa de banho, fez o que tinha a fazer, quando terminou e já estava novamente vestida, deu conta de um buraquinho no tampo da sanita (que tinham sido um investimento recente do vice-presidente da empresa). Aproximou-se e percebeu que estava ali uma pequena câmara instalada. Tudo o que acabara de fazer estava gravado. O mais provável era que tudo o que fizera nos dias anteriores também estivesse gravado.

Getty Images

Situações como esta, relatada ao jornal “The Guardian”, tornaram-se “parte do quotidiano” em Seul, tal como já reconheceu o Presidente sul coreano Moon Jae-in. Os números da polícia dão conta de um aumento de 1100 pessoas detidas em 2010 para mais de 6600 em 2014. Entre 2012 e 2017, cerca de 16 mil pessoas foram detidas por fazerem filmagens ilegais - 98% eram homens – e 26 mil foram filmadas sem saberem – 84% eram mulheres.

No entanto, estes são apenas casos denunciados, investigados e que terminam com a detenção do suspeito. Muitas vezes, as vítimas não apresentam queixa, outras nunca chegam a saber que foram alvo das câmaras.

Podem ser filmadas a partir do telhado de um prédio vizinho, como aconteceu com Choi, ou na casa de banho do trabalho, tal como Han Jin-young. Mas as filmagens acontecem em todo o lado: na rua, fotografam as mulheres de saia, e até nos provadores das lojas de roupa. Depois, as imagens são colocadas online em sites de streaming e partilhadas em fóruns.

O protesto: “A minha vida não é a tua pornografia”

O fenómeno assumiu tal dimensão que nos últimos quatro meses, centenas de mulheres têm saído para as ruas em protesto. “A minha vida não é a tua pornografia”, tornou-se o mote da campanha, que apela ao Governo por uma legislação mais rígida e que sejam tomadas ações para penalizar os culpados e proteger as vítimas.

Em Seul, por exemplo, várias pessoas manifestaram-se: usam máscaras a tapar o rosto, mostram-se zangadas e frustradas. Em julho, as autoridades contaram 18 mil pessoas no protesto.

Apesar da constituição da patrulha, para as vítimas e ativistas a medida não é suficiente. Além disso, acusam a polícia e o Executivo de não se interessarem pelo assunto. Por seu lado, o Governo, segundo a CNN, já garantiu que vão ser aplicados 4,5 milhões de dólares (pouco mais de 3,5 milhões de euros) para melhorar e aumentar o número de patrulhas às casa de banho, provadores de roupa ou balneários.

Em 50 dias, o Centro de Apoio à Vítima dos Crimes Sexuais Digitais, que além de auxilio jurídico, presta ajuda às vítimas e dispõe de meios para retirar os vídeos da Internet, 500 pessoas foram ajudadas e mais de dois mil vídeos apagados. Há uma semana, Kim Young-ho, deputado do Partido Democrático, que está atualmente no Governo, propôs a mudança da lei, que se espera que seja aprovada ainda este ano.