Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Fórum das Ilhas do Pacífico. Presidente de Nauru exige que China peça desculpa pela sua “arrogância”

MIKE LEYRAL/GETTY IMAGES

Troca de galhardetes entre o Presidente da ilha de Nauru, na Micronésia, e o Governo chinês, durante a 49.ª edição do Fórum das Ilhas do Pacífico, veio pôr a descoberto uma vez mais um assunto delicado e que tem ver com a crescente influência de Pequim no Pacífico, sobretudo em Taiwan

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Noutras circunstâncias, o gesto teria provavelmente passado despercebido, mas numa altura em que aumentam as tensões devido às políticas expansionistas da China, a tentativa do chefe da delegação da China, Du Qiwen, presente na 49.ª edição do Fórum da Ilhas do Pacífico, de interromper o discurso dos outros líderes que participavam no evento em Nauru, ilha na Micronésia, foi vista com maus olhos. “Eles não são nossos amigos, só precisam de nós para alcançar os seus objetivos. Temos, contudo, de ser firmes porque não admitimos que alguém chegue aqui e nos diga como devemos fazer as coisas”, afirmou o Presidente de Nauru, Baron Waqa.

“Temos visto vários países grandes, muitos deles com uma postura extremamente agressiva, a querer pagar pelo seu quinhão de terra no Pacífico e a passar por cima de nós. Neste fórum, todos os líderes sabem o quão arrogantes são essas pessoas”, acrescentou o presidente, que não só exige um pedido de desculpas por parte da China, como já garantiu que o assunto será levado à discussão na ONU. “Falarei sobre isto em todas as reuniões internacionais”, disse ainda.

Coube a Nauru organizar a edição deste ano do Fórum das Ilhas do Pacífico, que reuniu os líderes dos países que compõem a instituição - Austrália, Ilhas Cook, Estados Federados da Micronésia, Fiji, Polinésia Francesa, Kiribati, Nauru, Nova Caledónia, Nova Zelândia, Niuê, Palau, Papua Nova Guiné, Ilhas Marshall, Samoa, Ilhas Salomão, Tonga, Tuvalu e Vanuatu - e outros parceiros, entre os quais se incluem a China, para discutir temas como as alterações climáticas. O fórum começou no dia 3 de setembro e termina esta quinta-feira.

Numa conferência de imprensa na quarta-feira, um dia depois do incidente com o chefe da delegação chinesa, o Presidente de Nauru referiu-se a Du Qiwen como “louco”. “Teria ele a coragem de agir assim em frente ao seu próprio presidente? Duvido. Ele desrespeitou o Pacífico, os líderes aqui presentes e os outros ministros que se juntaram no nosso território. Estão a brincar? Olhem para ele, ele não é ninguém”, disse. Já a China não deu mostras de ceder e pedir desculpa ou sequer admitir o que quer que seja, com um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês a afirmar que Nauru violou os regulamentos do fórum e “encenou uma farsa maldosa”.

Apesar de a animosidade entre a ilha de Nauru e a China só se ter tornado evidente depois da tentativa do chefe da delegação chinesa de discursar num momento em que não era suposto fazê-lo, já antes de o fórum começar houve um desentendimento motivado igualmente por razões políticas. À chegada a Nauru, foi recusado a vários membros da delegação chinesa o carimbo nos seus passaportes diplomáticos. Na origem de ambas as situações - e de muitas outras semelhantes que têm vindo a suceder com alguma regularidade nos últimos meses - está a antiga contenda em torno do estatuto de Taiwan, que Nauru, ao contrário da China, reconhece como estado autónomo e independente.

A este respeito sugere, porém, o britânico “The Guardian” que este apoio é motivado em grande medida por razões económicas, sendo de Taipei, capital de Taiwan, que vem algum do dinheiro usado para pagar aos membros do Parlamento de Nauru, entregue com o pretexto de “financiar projetos que exigem uma contabilização mínima”. Além disso, a maioria dos edifícios e infraestruturas utilizados para acolher esta edição do Fórum das Ilhas do Pacífico foi construída, ampliada ou restaurada com dinheiro de Taiwan.

A troca de acusações entre a China e Nauru veio mostrar uma vez mais o quão delicada é a questão sobre a crescente influência de Pequim no Pacífico. Depois de no ano passado a China ter prometido milhões de dólares em ajuda para o Pacífico, espera-se que o país venha a ocupar o lugar da Austrália como maior doador da região.

Países apelam ao regresso dos EUA ao acordo de Paris

Quanto aos principais temas abordados durante este encontro de chefes de Estado dos países do Pacífico, esperava-se que fosse assinado um acordo de segurança para abordar as alterações climáticas na quarta-feira, e foi precisamente isso que aconteceu. Os 18 países participantes concordaram que as alterações climáticas “representam a maior ameaça à segurança no Pacífico” e comprometeram-se a cumprir as metas definidas pelo acordo de Paris assinado em 2015. Do documento consta ainda um apelo aos EUA para que voltem a assinar o referido acordo e a cumprir as promessas feitas durante o mandato do Presidente Barack Obama.

Os países do Pacífico produziram menos carbono que qualquer outro, mas a região é das que tem sentido mais os efeitos do aquecimento global, seja pela subida do nível das águas, seja pelo aumento da salinidade e desastres naturais, que são cada vez mais frequentes e trágicos. O caso do Kiribati é paradigmático, esperando-se que seja das primeiras regiões a ficar submersa se nenhuma medida for adotada para conter a subida do nível da água do mar.

O acordo assinado no fórum também aborda o cibercrime e as preocupações com a saúde, como doenças transmissíveis e pandemias. A Austrália irá trabalhar com agências regionais de segurança para estabelecer um centro que permita agilizar a partilha de informações e ameaças relacionadas com a pesca ilegal, tráfico de drogas e outros crimes transnacionais.