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Bob Woodward: há aliados de Trump que lhe escondem documentos e se negam a cumprir ordens

Drew Angerer/Getty Images

Bob Woodward, o jornalista de 75 anos que, com outros jornalistas do "The Washington Post", revelou o escândalo Watergate, virou a sua lente para a Casa Branca de Donald Trump e, pelos olhos dos seus homens mais próximos, traça um retrato negro sobre o dia a dia da Administração norte-americana. Desde ofensas diretas ao Presidente passando pelo roubo literal de documentos da sua secretária para proteger a segurança nacional, acontece de tudo um pouco, por estes dias, na Casa Branca

Ana França

Ana França

Jornalista

Bob Woodward, o lendário jornalista que, com o colega de redação Carl Bernstein, revelou o escândalo "Watergate" nos anos 1970, voltou com mais uma bomba sobre a Casa Branca, desta vez de Donald Trump. E o atual Presidente dos Estados Unidos não está muito satisfeito. “Ele já teve problemas em provar a sua credibilidade”, disse Trump sobre Woodward, vencedor de um Pulitzer na categoria de Jornalismo de Investigação.

Mas, segundo o novo livro do repórter de 75 anos, alguns dos colaboradores mais próximos de Trump não pensam dele coisas muitos diferentes daquelas que o Presidente pensa do jornalista.

Muitos dos problemas e confrontos entre Trump e alguns dos seus atuais e antigos conselheiros são conhecidos - basta lembrar o caso com o seu fiel confidente e ex-advogado Michael Cohen, que recentemente disse em tribunal ter pagado a duas mulheres para que não falassem do seu alegado envolvimento romântico com o Presidente.

Informação escondida

No mais recente trabalho de Woodward, “Medo: Trump na Casa Branca”, fica claro que alguns dos homens mais próximos do Presidente, como o seu chefe de gabinete John Kelly ou o secretário de Estado da Defesa, James Mattis, também não confiam nele, ao ponto de lhe esconderem alguma informação para evitar terem que cumprir ordens. Foi o que aconteceu, segundo as informações de Woodward, com um dos mais importantes conselheiros na área da economia do Presidente, Gary Cohn viu uma carta que colocaria um ponto final num acordo entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos que, se fosse enviada, poderia por em causa a segurança nacional. Então, Cohn tirou-a de cima da mesa do Presidente. “Roubei-a. Eu não podia deixá-lo ver aquilo. Ele nunca verá aquele documento. Tenho que proteger o meu país”, disse Cohn a um colega.

John Kelly, segundo se lê em excertos do livro, previamente publicados pelo “Washington Post”, diz que Trump é um “idiota” e que “não tem freio”. Já Mattis, segundo Woodward, descreve Trump como alguém “com uma leitura dos acontecimentos próxima da de um menino do quinto ou do sexto ano”.

“Mentiroso de merda?”

O ex-advogado pessoal de Trump, John Dowd, vai mais longe chamando-lhe, cita o “Post”, “mentiroso de merda”. Além disso, terá dito ao Presidente que, se ele aceitasse testemunhar perante o procurador especial Robert Mueller, que lidera a investigação às alegadas ligações da equipa de Trump a russos próximos do Kremlin, acabaria a vestir um “macacão cor de laranja”, uma referência ao uniforme dos presidiários nos Estados Unidos.

Kelly terá ainda assumido que “não há qualquer utilidade em convencê-lo” porque “descarrilou” e agora “estamos a viver na cidade dos malucos”, escreve Woodward. Alegadamente, Kelly acrescentou uma nota de frustração pessoal: “Eu nem sei porque é que aqui estamos. É o pior emprego da minha vida”.

Ainda assim, o Presidente terá dito que seria “uma bela testemunha”. Isto apesar de, mais tarde, numa sessão com os seus advogados, na qual era suposto ensaiar as suas respostas caso viesse a ser chamado por Mueller, ter dito que “isto é tudo uma porra de uma cabala” e que não queria ser chamado a testemunhar de todo.

Uma “lista infindável de representações confusas”

Algumas das pessoas citadas no livro já vieram desmentir o que Woodward escreveu. Dowd, ex-advogado de Trump, emitiu um comunicado dizendo que as citações do livro que lhe foram atribuídas não são todas verdade, nomeadamente a parte de ter chamado mentiroso ao Presidente.

“Ainda não tive oportunidade de ler o livro do Bob Woodward, que parece ser a última de uma lista infindável de representações confusas baseadas em relatos anónimos de gente descontente”, disse Dowd, que garante não querer falar de cada citação mal atribuída, mas sim tornar claro apenas alguns pontos. “Não houve nenhuma sessão de prática para as eventuais perguntas do procurador especial e também não me referi ao Presidente como um ‘mentiroso’ e não disse que ele iria acabar ‘num macacão cor de laranja”, lê-se ainda no comunicado.

Mas no livro, ao qual a CNN também já teve acesso, Dowd é citado a dizer precisamente a Robert Mueller: “Ele só inventa coisas. É da sua natureza”.

Os trechos publicados pelo “Washington Post”, onde Woodward publicou originalmente a história sobre a invasão da sede do Partido Democrata a mando de Richard Nixon, conhecida hoje como "escândalo do Watergate", mostram um Presidente também zangado e bastante frustrado, principalmente com a progressão da investigação de Mueller.

Procurador-geral é um “burro lá do sul”

Segundo as entrevistas que conduziu, muitas delas não identificadas no livro por razões de segurança, Trump terá dito a um dos seus secretários, Rob Porter, que Jeff Sessions, procurador-geral que se tem recusado a intervir na investigação às ligações com os russos, é “deficiente mental”, um “burro lá do sul” e que “nem um advogado de um condado só com uma pessoa no meio do Alabama ele conseguia ser”. Sessions é um dos mais antigos aliados de Trump na sua carreira política.

Um dos episódios mais impressionantes contados no livro envolve um dos seus principais secretários negando-se a fazer o que o Presidente pede. Quando o Presidente da Síria, Bashar al-Assad foi acusado de utilizar armas químicas sobre a sua própria população, Trump ter-se-á enervado bastante.

“Vamos lá matá-lo! Vamos invadir, vamos lá matá-los todos”, disse o Presidente, de acordo com o livro. Depois de assegurar ao Presidente que ia “já preparar isso”, Mattis disse ao resto da equipa que não fizessem nada daquilo que Trump pedia e que seria em breve preparada uma abordagem mais “comedida” ao problema na Síria.

A Casa Branca diz que este livro é apenas uma “colectânea de histórias fabricadas por ex-funcionários rancorosos”.