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Internacional

Atravessar o Mediterrâneo de barco é agora mais mortal do que alguma vez foi desde a crise migratória de 2015

David Ramos/Getty Images

Segundo a ONU, por cada 18 migrantes que chegaram a Itália de barco nos primeiros sete meses deste ano, uma pessoa afogou-se ao tentar fazer essa viagem, o que representa quase o triplo da taxa de mortalidade em igual período de 2015. A crescente taxa de mortalidade no Mediterrâneo deve-se sobretudo ao aumento dos naufrágios depois de o ministro italiano do Interior iniciar funções

A travessia marítima entre o norte de África e Itália é agora mais letal do que em qualquer outro momento desde o pico da crise migratória na Europa em 2015. Isto acontece apesar de a migração não autorizada ter caído para o seu nível mais baixo no mesmo período. A informação é avançada na edição desta terça-feira do jornal “The New York Times” (NYT), que cita dados das Nações Unidas.

Por cada 18 migrantes que chegaram a Itália de barco nos primeiros sete meses de 2018, uma pessoa afogou-se ao tentar fazer essa viagem, o que representa quase o triplo da taxa de mortalidade em igual período de 2015 e aproximadamente o dobro em relação a 2016. Nestes anos, um número recorde de migrantes desembarcou sem autorização em Itália, que tem sido a principal porta de entrada de quem tenta chegar à Europa de barco.

A crescente taxa de mortalidade no Mediterrâneo deve-se principalmente ao aumento dos naufrágios ocorrido depois de o ministro italiano do Interior, Matteo Salvini, ter impedido, em junho, que a maioria dos navios de resgate levasse migrantes para os portos do país. A conclusão é de uma investigação paralela do Instituto Italiano para Estudos Políticos Internacionais, também citada pelo NYT. Cerca de 1600 migrantes morreram no Mediterrâneo nos primeiros sete meses deste ano.

As controversas negociações com a Líbia

A taxa de chegada, que já tinha caído antes de Salvini assumir funções em maio, caiu apenas um pouco mais sob a sua tutela. Uma média de 2200 pessoas chegou a Itália em cada um dos três meses desde a tomada de posse de Salvini, em comparação com uma média de 2700 durante os três meses que lhe precederam. Este número situa-se cerca de 80% abaixo dos níveis atingidos no pico da crise.

A migração não autorizada entre a Líbia e Itália desceu significativamente em resultado de negociações controversas entre o antecessor de Salvini no cargo, Marco Minniti, e as milícias líbias que controlam o comércio de contrabando no sul do Mediterrâneo. Nessa altura, a taxa de mortalidade não aumentou, em grande parte devido à contínua presença na costa líbia de embarcações privadas de salvamento, administradas por organizações não-governamentais (ONGs), aponta o NYT.

Quase tudo nas mãos da Guarda Costeira líbia

O acordo de Minniti impediu os barcos de resgate de operarem perto da costa líbia e deu mais poderes à Guarda Costeira da Líbia para intercetar e devolver mais migrantes àquele país. No entanto, as embarcações privadas continuaram a poder desembarcar migrantes resgatados nos portos italianos. Isto mudou em junho, logo após a tomada de posse de Salvini, quando um barco das ONGs Médicos Sem Fronteiras e SOS Mediterrâneo se viu obrigado a navegar até Espanha depois ter sido impedido de entrar nos portos da Sicília.

Desde então, navios mercantes e navios da Marinha italiana também foram impedidos de desembarcar em Itália migrantes resgatados. Esta situação deixou as responsabilidades de resgate quase exclusivamente nas mãos da Guarda Costeira líbia, uma aliança informal de marinheiros com poucos recursos e mal preparados, conclui o jornal.