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“Não vamos parar enquanto Wa Lone e Kyaw Soe Oo sofrem esta injustiça.” Eles deviam estar na redação, não na prisão

À esquerda, Kyaw Soe Oo. À direita, Wa Lone

YE AUNG THU/ Getty Images

Wa Lone é mais velho, mais experiente na profissão. Casado e com uma filha. Kyaw Soe Oo tinha chegado há pouco tempo à Reuters, é mais novo. A primeira filha nasceu quando estava preso. Os dois jornalistas foram detidos num restaurante no final do ano passado numa cilada organizada pelas autoridades de Myanmar. “Foram detidos simplesmente por fazerem o seu trabalho como jornalistas”, garantiu o presidente da agência de notícias

O que fizeram Wa Lone e Kyaw Soe Oo? Segundo as autoridades de Myanmar: violaram a Lei dos Segredos Oficiais ao terem acesso a documentos confidenciais. Segundo a Reuters, e também muitas outras instituições e países democráticos, fizeram outra coisa: jornalismo.

Wa Lone e KyawSoe Oo. Jornalistas. 32 e 28 anos, respetivamente. Sete anos de prisão. Os dois foram esta segunda-feira condenados pela Justiça por terem sido encontrados “documentos confidenciais” entre os seus pertences que “poderiam ser úteis para inimigos do Estado e organizações terroristas”. A detenção aconteceu no final do ano passado, aguardaram julgamento, foram julgados e agora condenados.

“Hoje é um dia triste para Myanmar, para os jornalistas da Reuters, Wa Lone e Kyaw Soe Oo, e para toda a imprensa. Estes dois admiráveis jornalistas já passaram perto de nove meses na prisão com uma acusação falsa, desenhada para silenciar o seu trabalho e intimidar a imprensa”, disse o presidente e editor da Reuters Stephen J. Adler em comunicado. “Sem qualquer prova de irregularidade e perante uma convincente prova de que foi uma armadilha da polícia, a decisão condena-os a continuarem privados da liberdade e tolera a improbidade das forças de segurança”, acrescentou.

Wa Lone é o mais velho dos dois. Está há mais tempo na profissão também. Embora só tenha chegado à Reuters em julho de 2016, no ano anterior cobriu para o “Myanmar Times” as eleições que conduziram a Liga Nacional pela Democracia ao poder (o partido liderado pela Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi). Era o nome do homem que nasceu numa vila próxima de Mandalay que assinava quase todos os artigos da Reuters sobre as operações militares contra a minoria rohingya no estado de Rakhine. “As suas reportagens deram uma imagem vívida do conflito num Estado a que jornalistas e investigadores independentes quase não têm acesso”, descreveu a BBC dias após a sua detenção.

Há menos de um mês foi pai. Não viu a filha nascer porque estava preso. Pan Ei Mon, a mulher do jornalista, descobiu que estava grávida poucos dias depois de o marido ter sido detido.

As mulheres dos dois jornalistas

As mulheres dos dois jornalistas

YE AUNG THU/ Getty Images

Quando começou a investigar com Wa Lone, Kyaw Soe Oo tinha chegado há pouco tempo à agência. Entrara em setembro. Antes de ser jornalista, era escritor, natural do estado de Rakhine e, por isso mesmo, uma mais valia na cobertura jornalística daquilo que estava a acontecer na região. Segundo a BBC, normalmente a população não se sente à vontade com jornalistas de fora. Kyaw Soe Oo era próximo o suficiente para chegar às pessoas.

KyawSoe Oo é casado. É pai. Tem uma filha de três anos. As duas estiveram esta segunda-feira em tribunal. Quando se ouviu a condenação, a mulher chorou, teve de ser amparada por familiares para sair da sala de audiências.

São sete anos para cada um dos jornalistas, o tempo que já estiveram presos desde a sua detenção vai ser descontado na pena. “Não se preocupem”, pediu Wa Lonen aos amigos e à família. Tinha as mãos algemadas e estava escoltado por polícias.

Agora, a defesa pode recorrer da condenação para um tribunal regional e depois para o supremo.

“Este é um enorme retrocesso na transição para democracia de Myanmar, que não pode ser enquadrado num Estado de Direito ou liberdade de expressão, e deve ser corrigido pelo governo de Myanmar com carácter de urgência. Não vamos parar enquanto Wa Lone e Kyaw Soe Oo sofrem esta injustiça e, ao longo dos próximos dias, vamos avaliar como vamos prosseguir, incluindo se vamos pedir ajuda a instâncias internacionais”, defende Stephen J. Adler.

A noite em que tudo mudou

12 de dezembro de 2017. Terça-feira à noite. Os dois jornalistas encontram-se com a polícia para jantar, tinham sido convidados supostamente para falarem sobre o que andavam a investigar. Marcaram o encontro num restaurante a norte de Rangum, a maior cidade do país e antiga capital da Birmânia. E foi isso que aconteceu. Mas o desfecho dessa noite foi bem diferente do que, possivelmente, Wa Lone e Kyaw Soe Oo tinham imaginado.

Os dois investigavam a morte de dez homens da minoria rohingya e outros abusos de poder, envolvendo soldados e a polícia em Inn Din, no estado de Rakhine. Chegaram ao restaurante e sentaram-se à mesa com dois agentes que nunca antes tinham visto. Foi então que os militares lhes entregaram uns papéis enrolados. Minutos depois, Wa Lone e Kyaw Soe Oo foram detidos. O encontro era afinal uma cilada para apanhar os dois jornalistas.

YE AUNG THU/ Getty Images

Logo após as detenções, refere a Reuters, os militares admitiram ter participado no homicídio que Wa Lone e Kyaw Soe Oo investigavam. “Foram detidos em Myanmar simplesmente por fazerem o seu trabalho como jornalistas”, disse na altura o presidente daquela que é maior agência de notícias. “São indivíduos exemplares e repórteres brilhantes que são dedicados às suas famílias e ao ofício. Devem estar numa redação, não numa prisão.”

No dia seguinte, o Ministério do Interior publicou nas redes sociais uma fotografia dos dois algemados e ao lado de uns documentos. Assim, o Governo de Myanmar confirmou que ambos enfrentavam acusações de violação da Lei dos Segredos Oficiais, pois tinham em sua posse documentos confidenciais do Estado que não deveriam vir a público. “Adquiriram ilegalmente informação com a intenção de a partilharem com órgãos de comunicação social estrangeiros”, podia ler-se. A pena poderia chegar aos 14 anos de prisão.

Nos dias que se seguiram nem Wa Lone nem Kyaw Soe Oo tiveram contacto com familiares, amigos, colegas ou os advogados. Nem se sabia ao certo onde estavam.

Em tribunal, um polícia, que acabaria por ser também condenado a um ano de prisão, testemunhou que o encontro no restaurante foi uma armadilha para travar os jornalistas de contarem o genocídio – designação já usada pelas Nações Unidas - dos rohingya em Rakhine. Foram a tribunal 39 vezes, estiveram presos por 265 dias. Segundo a Reuters, passaram por privações de sono, foram forçados a ajoelharem-se e as autoridades insinuarem se seriam espiões.

Os documentos em causa teriam informação sobre as ações das autoridades e cujo excesso de violência . - muitas vezes, a morte – já foi denunciada por grupos de defesa dos direitos humanos e organizações não-governamentais. Os rohingya são uma minoria muçulmana que tem sido perseguida. Os dados das Nações Unidas apontam para que mais de 700 mil pessoas tenham fugido para o vizinho Bangladesh.