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Internacional

Os negócios do Espaço aceleram-se em terra (e têm dilemas humanos)

A indústria aeronáutica, do espaço e da defesa responde por 1,2% do PIB nacional

Foto NASA / Getty Images

A Agência Espacial Europeia vai apoiar os empreendedores portugueses no desenvolvimento de projetos inovadores que incorporem tecnologia aeroespacial. É já a partir de 12 de setembro, com uma nova edição da Coimbra Space Summer School.

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

O satélite Éolo, que a Agência Espacial Europeia (ESA) colocou em órbita na passada semana para estudar os ventos do planeta a partir do Espaço, tem tecnologia portuguesa. Leva incorporados equipamentos desenvolvidos pela empresas LusoSpace e pela Omnidea e é o espelho do crescente protagonismo que a indústria aeroespacial nacional tem vindo a alcançar lá fora nos últimos anos. Um reconhecimento que os especialistas do sector explicam com o trabalho desenvolvido pelas universidades nacionais na formação e qualificação de profissionais, mas também com um apoio cada vez maior à criação de novos negócios e inovação no sector aeroespacial. É nessa lógica que arranca a 12 de setembro uma nova edição da Coimbra Space Summer School, a iniciativa dinamizada pela Instituto Pedro Nunes que coordena o Centro de Incubação de Empresas da Agência Espacial Europeia em Portugal, o ESA BIC Portugal.

Esta é a quarta edição da Coimbra Space Summer School que tem como objetivo “incentivar jovens empreendedores a desenvolver soluções inovadoras que incorporem tecnologia aeroespacial”, avança fonte da organização. Ao todo são três dias de formação, centrada na partilha de conhecimentos, que garantirão aos participantes o acesso a tecnologias e recursos gerados nas missões espaciais e nas atividades científicas de exploração do Espaço. “O objetivo é dar-lhes condições para criar soluções inovadoras para negócios terrestres, em áreas como cidades inteligentes, transportes, saúde, agricultura e ambiente, ou para o mercado espacial comercial, o chamado new space”, explica a organização. Tanto mais que o Coimbra Space Summer School contempla também um concurso de ideias, onde os participantes responderão a desafios lançados por empresas que já operam na área do Espaço e terão mentoria para melhorar as suas propostas e apresentações.

Experiência de astronauta

Um dos especialistas que vai contribuir para este apoio aos empreendedores é João Lousada, o astronauta análogo português que foi um dos participantes da missão AMADEE-18, que em fevereiro deste ano simulou a vida em Marte a partir do deserto de Omã, perto da Arábia Saudita.

Formado em Engenharia Aeroespacial pelo Instituto Superior Técnico, João Lousada trabalha no Centro de Controlo Columbus, em Munique, onde opera todos os subsistemas do módulo europeu da Estação Espacial Internacional, apoiando astronautas que vivem e trabalham em órbita terrestre no seu dia a dia. Na missão AMADEE-18 foi, durante um mês, um “astronauta em terra” vivendo a experiência do isolamento com uma equipa de cinco elementos que realizou uma série de experiências de preparação para futuras missões humanas a Marte.

Talento precisa-se!

A indústria aeronáutica, do espaço e da defesa nacional responde por 1,2% do PIB. O objetivo é que em 2021 o contributo seja de 3%. Mas para isso o sector tem desafios mais humanos do que espaciais a cumprir. Já este ano, João Romano, diretor-geral da AED Portugal, a associação que representa o cluster nacional da indústria aeronáutica, do espaço e da defesa, fez saber que faltam pelo menos dois mil técnicos qualificados e 200 engenheiros que possam reforçar a capacidade de inovação que é essencial num sector desta natureza.

Para cumprir estes números é fundamental a atuação das universidades na qualificação dos profissionais, mas também a capacidade de atrair um número crescente de jovens e de desenvolver novos projetos e empresas na área. Até porque, segundo as contas de José Cordeiro, presidente da AED Portugal, só na indústria aeronáutica o parque europeu de aeronaves terá de duplicar nos próximos 20 anos.

Projetos que dinamizem a criação de novos negócios nesta área e o desenvolvimento de soluções inovadoras na área das tecnologias do Espaço, como a Coimbra Space Summer School, são por isso relevantes.

A ESA já criou 18 centros de incubação na Europa e admite como âncora o seu desenvolvimento a aceleração de novos projetos e empreendedores nesta área. Em Portugal tem um centro coordenado pelo Instituto Pedro Nunes, em Coimbra – que promove a Coimbra Space Summer School em parceria com o Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra, o Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas e o Ibservatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra – e tem o apoio do Gabinete do Espaço, da Fundação para a Ciência e Tecnologia e Agência Nacional de Inovação, entre várias instituições de ensino e outros parceiros institucionais.