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A floresta dos malditos

Na semana em que chega às salas de cinema portuguesas a nova versão de “Papillon”, um filme que, tal como o original de 1973, adapta os livros “Papillon” e “Banco”, de Henri Charrière, recuperamos uma reportagem publicada no Expresso de 16 de outubro de 1993. Na Guiana, uma visita à prisão mais ignóbil que o mundo alguma vez conheceu

Rui de Carvalho (texto) e Rui Ochôa (fotos), enviados a St. Laurent du Maroni)

A ruína a que chegou o sector disciplinar de St. Laurent dá uma imagem ténue da ruína humana que provocou

A ruína a que chegou o sector disciplinar de St. Laurent dá uma imagem ténue da ruína humana que provocou

rui ochôa

Vive-se uma época de euforia. Terminada há seis anos, a guerra já foi esquecida. Ainda pouco popular em Portugal, o belo Rudolfo Valentino é o primeiro grande ídolo do cinema e faz cair em êxtase três gerações de mulheres americanas. Enquanto isso, Georges Gershwin junta as últimas notas à sua “Rhapsody in Blue”. Estamos em 1924 e, em Praga, morre um jovem escritor de língua alemã praticamente desconhecido em toda a Europa, cuja obra exprime o absurdo da existência humana. Tem 40 anos e chama-se Kafka. Nunca escreveu sobre os 'bagnards' — a vida desses condenados já era suficientemente kafkiana.

Plantada sobre um pequeno planalto da região de Ardèche, a vila francesa de St. Etienne de Ludgares vive da criação de cabras e da agricultura de subsistência. É na pequena escola comunal que um esforçado professor primário, de apelido Charrière, procura aplainar os espíritos obtusos de uma geração de camponeses pobres. Dezoito anos antes, da sala de aula, nascera o seu filho Henri. Uma infância aparentemente feliz e uma adolescência sem história mal fariam prever o desenlace de uma vida marcada pela tatuagem de uma borboleta.

No ano seguinte, por uma bela manhã de maio, Henri diz adeus aos horizontes limitados da aldeia natal e alistasse na Marinha. Quinze meses mais tarde, o marinheiro de segunda classe Henri Charrière começa a escrever o primeiro capítulo do drama que lhe marcará o resto da vida. Indisciplinado, é levado a conselho e condenado a dois meses de prisão, antes de ser deportado para Calvi, na Córsega. É aí que, empregado nas tarefas mais penosas e rudes, começa a tecer a teia de relações que retomará mais tarde na Praça Pigalle, em Paris. É também aí que, certa noite, um 'artista' lhe tatua no peito uma borboleta. Para todo o mundo, ficará conhecido por Papillon e passará dos tormentos do degredo ao pedestal de herói nacional da França. Cada sociedade tem os seus.

Quando a rebentação das primeiras vagas da crise económica gerada na Wall Street caem sobre a Europa, em 1930, o acontecimento charneira da vida deste homem coincide com duas nódoas da história europeia: Mussolini organiza o fascismo italiano, e o partido nazi obtém seis milhões de votos nas eleições alemãs. É também nessa época que a questão do sexo dos anjos fica definitivamente resolvida: as maravilhosas pernas de Marlene Dietrich, o 'Anjo Azul', não deixam margem para dúvidas. Menos angélico é o tiro que um tal Roland Legrand recebe no ventre, frente ao Bar de Clichy, na avenida do mesmo nome.

Após um longo processo de inquérito, Henri Charrière é acusado do crime e, a 26 de outubro do ano seguinte, condenado a uma pena perpétua de trabalhos forçados — o 'bagne'. Papillon tudo faz para evitar o degredo mas, por uma manhã de Outono de 1933, os carros celulares alinham-se no pátio da prisão de Caen. Vão transportar a sua triste carga até Saint-Martin-de-Ré. Entre os 600 'transportados', Papillon sobe lentamente para bordo do “La Martinière”, o navio que o vai levar a Saint Laurent du Maroni, o centro administrativo da colónia penal da Guiana Francesa.

O monumento mostra que a Guiana perdeu a ânsia de esquecer o 'bagne'. O passado é penoso mas existiu

O monumento mostra que a Guiana perdeu a ânsia de esquecer o 'bagne'. O passado é penoso mas existiu

Quase a completar um século de existência na época em que recebeu Papillon, a colónia penal da Guiana representou a tentativa da França de matar dois coelhos de uma só cajadada. Pretendia livrar o país dos seus mais recalcitrantes criminosos e, ao mesmo tempo, usar o trabalho forçado para transformar o único território francês da América do Sul numa colónia de progresso. O primeiro objetivo foi conseguido, já que menos de dez por cento dos 'transportados' sobreviveram ao cumprimento da pena. O segundo falhou estrondosamente. Todos os projetos iniciados durante o século de existência da colónia penal foram um fiasco. Hoje, poucos vestígios restam do esforço de 70 mil condenados que trabalharam na floresta impenetrável e morreram das temíveis doenças tropicais, na guilhotina ou nas goelas dos tubarões. A colónia penal acabou por ser definitivamente encerrada em 1946, e o progresso só chegou à Guiana Francesa de foguetão: com o início dos trabalhos de implantação — há 25 anos — do porto espacial europeu de Kourou.

A maioria dos pormenores descritos por Charrière nos seus dois livros, “Papillon” e “Banco”, são falaciosos, e as aventuras que atribui a si próprio foram, de facto, vividas por outros prisioneiros. É verdade que conseguiu escapar do 'bagne' durante a Segunda Guerra Mundial mas, até à publicação de “Papillon”, em 1968, não havia referência ao seu nome em nenhum documento da colónia penal. Longe de ter executado os atos heroicos que se atribuiu, Charrière foi um preso completamente insignificante, que não atraiu nenhuma atenção durante a sua estadia na Guiana.

Mas foram os seus livros e o filme a que serviram de argumento que colocaram de novo na ribalta um assunto que os franceses, e em especial os guianenses, pretendiam esquecer. Especialmente depois das emoções desencadeadas em 1947 pelo regresso a França de Guillaume Sèznec, um inocente que passou 20 anos no 'bagne'. Quando morreu em Espanha, em 1973, Henri Charrière já recebera milhões em direitos de autor. Mas tanto os livros como o filme devem ser encarados como ficção. Pouco têm a ver com a realidade, apesar de o filme reconstituir bem a marcha dos condenados rumo ao navio de transporte.

Um odor a morte exala da barraca de Guillaume Sèznec, um inocente que passou 20 anos no 'bagne'

Um odor a morte exala da barraca de Guillaume Sèznec, um inocente que passou 20 anos no 'bagne'

É exatamente a recordação do filme que leva a maioria dos que atualmente visitam a Guiana a pensar que viram o 'bagne' depois uma excursão às Ilhas da Salvação, em frente de Kourou. Fizeram, de facto, parte das instalações da colónia penal, mas eram acessórias. A Ilha Real albergou algumas celas especiais e as casas dos funcionários por ser menos assolada pelas doenças tropicais que o continente; dispõe agora de hotel e de um restaurante, e a casa do diretor da prisão está a ser reconstruída.

A Ilha de S. José serviu para alguns presos mais recalcitrantes cumprirem penas de isolamento nas célebres 'caixas', celas de metro e meio por dois metros para onde só entrava uma réstia de luz através de uma grade no teto. Alguns presos chegavam a cumprir anos nestas condições, como o célebre Roussenq, que cumpriu 3.379 dias, ou seja, mais de dez anos. Aproveitou o tempo para compor um poema épico que constitui um dos mais pungentes relatos do sofrimento do 'bagnard'. A Ilha do Diabo foi inicialmente utilizada como leprosaria e, mais tarde, serviu de degredo a presos especiais: deportados por motivos políticos. Mas nunca albergou mais de meia dúzia de condenados simultaneamente. Papillon nunca lá esteve, e hoje raramente alguém lá vai.

A capital do 'bagne' sempre foi Saint Laurent du Maroni, na margem direita deste rio, que marca a fronteira com o Suriname, a antiga Guiana Holandesa. E foram as instalações criadas ao longo dessa margem, para montante — St. Louis, o ilhéu do mesmo nome, que serviu de leprosaria, St. Maurice, Ste. Anne e St. Jean e, mais acima, La Forestière, um estabelecimento especial para condenados oriundos da Indochina — que melhor traduzem a imagem do 'bagne'.

A última grande crispação da opinião pública francesa em relação ao 'bagne' ocorrera no início do século, em torno do chamado Affaire Dreyfus. Acusado de espionagem a favor dos alemães, o capitão Alfred Dreyfus nunca deixou de protestar a sua inocência. Mas nada impediu que fosse condenado ao “degredo em praça fortificada”. Partiu para a Guiana em março de 1895 e foi enclausurado numa cela solitária da Ilha Real, enquanto os presos lhe construíam uma barraca de pedra de quatro metros quadrados na 'praça fortificada' escolhida: a Ilha do Diabo que, dez anos antes, servira de leprosaria.

Quando Dreyfus completou um ano e meio de confinamento, o seu irmão Mathieu decidiu ressuscitar o seu caso junto da opinião pública e convenceu um jornal inglês a publicar uma história dizendo que Dreyfus escapara da ilha. O processo, que fora esquecido logo após o degredo, voltou à ribalta, e a vida piorou para Dreyfus. No seu livro “Prisioners of Honor”, David Lewis descreve assim as condições em que se encontrava o condenado: “Os seus membros estão imobilizados por barras de ferro em U aplicadas em blocos de madeira na cabeceira e nos pés da cama. Dreyfus jaz como um inseto numa preparação de laboratório desde o pôr-do-sol até ao alvorecer. A tortura, que até então fora essencialmente moral e espiritual, é agora a versão física acabada da crucificação.”

A 13 de Jjneiro de 1898, o jornal “L'Aurore” publicava o célebre texto “J' accuse”, em que Emile Zola acusava de conjura o Exército, a Imprensa e as testemunhas do julgamento de Dreyfus. O caso transformou-se num escândalo internacional e o processo foi reaberto. Ao fim de quatro anos e dois meses na Ilha do Diabo, o julgamento foi anulado e Dreyfus regressou a França. Acabou por ser absolvido de todas as acusações, reintegrado no Exército e condecorado. Mas o seu caso chamou a atenção mundial para o 'bagne', e o nome da Ilha do Diabo passou a ser confundido com toda a colónia penal.

A torre construída na Pointe des Roches — onde hoje se situa o Hotel des Roches, que albergou a recente delegação portuguesa que assistiu ao lançamento do PoSat e hasteou, na ocasião, a bandeira portuguesa — destinada à vigilância das Ilhas da Salvação, recebeu o seu nome. Hoje já só vigia o bronzeado das funcionárias da base espacial.

Com a partida de Dreyfus, a Ilha do Diabo ficou desabitada durante uma década, e a floresta rapidamente cobriu os caminhos então abertos. E o pequeno pontão usado como doca para os barcos de reabastecimento caiu em ruínas, tornando muito difícil o acesso à ilha.

Mas em 1908, a ilha teve um novo residente. Tal como Dreyfus, Benjamin Ulmo era oficial do Exército, acusado de traição e judeu. As semelhanças acabavam aí. Enquanto Dreyfus nunca deixou de protestar a sua inocência e de lutar pela reabilitação do seu nome, Ulmo confessou o crime. Perdoado em 1933, regressou a França no ano seguinte, mas ficou tão chocado com as transformações do seu país durante o quarto de século em que esteve cativo que decidiu regressar à Guiana de livre vontade. “Ao fim de 26 anos sem contacto com a civilização, o que mais me choca é a estupidez desta humanidade que se julga superior. Confunde quantidade com qualidade, tamanho com grandeza. A humanidade perdeu todo o sentido da realidade”, disse ele aos jornalistas que assistiam à sua partida para Cayenne.

Em 1595, Sir Walter Raleigh publicava “A Descoberta do Enorme, Rico e Belo Império da Guiana”, em que referia a lenda do El Dorado. O livro chamou a atenção da Europa, e todas as potências coloniais reclamaram a sua talhada do 'bolo'. Os espanhóis, ingleses e portugueses foram os primeiros a chegar, mas os franceses não quiseram ficar para trás.

No reinado de Henrique IV, o explorador Daniel de la Ravardière foi enviado à Guiana para fazer um relatório do seu potencial. Deixou o Havre em janeiro de 1604 e regressou em agosto. Embora não tivesse visto o El Dorado, e até duvidasse da sua existência, achou a região fascinante e recomendou ao rei a colonização.

A primeira vaga de colonos da Companhia Nacional de Ruão partiu para a Guiana em 1626 e estabeleceu-se na aldeia de Sinnamary, poucos quilómetros a ocidente de Kourou. Mais tarde, ocuparam uma ilha a que deram o nome de Cayenne e começaram a estabelecer colonatos na margem direita do Maroni.

No século seguinte, a Guiana mudou várias vezes de colonizador. Para os ingleses, depois para os holandeses e, de novo, para os franceses. Mas o problema do povoamento da colónia nunca foi resolvido. Na Europa, a sinistra reputação da Guiana ainda não passava de um boato difundido pelos poucos colonos que regressavam a França. As doenças mortíferas só ficaram conhecidas em 1763, com o pesadelo da expedição do duque de Choiseul.

Com o império a soçobrar, Luís XV elegeu a Guiana como zona de restabelecimento do colonialismo francês. E como as rebeliões de escravos se tornavam frequentes, decidiu enviar apenas brancos. Foi escolhido o litoral de Kourou e, em poucos meses, chegaram 14 mil colonos. Ignorando tudo sobre o clima e aterrorizados com a floresta, refugiaram-se em modestas construções na margem do Rio Kourou. As epidemias alastraram, e os cadáveres empilhavam-se a um ritmo que impedia qualquer funeral: os mortos passaram a ser lançados ao mar.

Em dois anos, morreram mais de 10 mil colonos, e os que sobreviveram refugiaram-se em três ilhas ao largo a que chamaram Iles du Salut — Ilhas da Salvação. E foi a sua salvação, já que o paludismo e a febre tifoide eram aí menos frequentes. O clima era mais saudável que nos pântanos de Kourou e o peixe abundava. Uns anos mais tarde, quando alguns sobreviventes regressaram a França, o horror do desastre tornou-se conhecido e a maioria dos franceses passou a encarar a Guiana como uma espécie de maldição.

De tal forma que os resquícios desta ideia ainda hoje podem ser encontrados, apesar de a Guiana Francesa ser um verdadeiro 'oásis cavaquista' na América do Sul. “Mas que vai o senhor fazer à Guiana? C'est le bagne!”, admirou-se a hospedeira de terra junto de quem procurávamos confirmar a reserva, apesar de os Boeing 747 que fazem a ligação estarem geralmente lotados.

No tempo da Revolução Francesa, havia 1500 brancos, dez mil escravos e 500 negros livres na colónia. A convulsão francesa trouxe a liberdade para os escravos, e muitos dirigiram-se para o interior, onde estabeleceram aldeias. Enquanto isso, na metrópole, o novo regime dera origem a muitos 'indesejáveis'. Os que eram poupados à guilhotina apodreciam nas prisões. A Guiana, com a sua horrenda reputação, parecia o local ideal para os opositores da nova ordem. Nascia assim o primeiro Gulag.

A deportação não se iniciou imediatamente porque as rotas marítimas estavam cortadas pela guerra com a Inglaterra. A primeira leva partiu em 1795 e, até 1798, foram deportados cerca de 700 'contra-revolucionários', que nada contribuíram para o progresso da colónia, pois ou morreram pelo caminho ou chegaram em tão mau estado que não podiam trabalhar.

Foi por isso que, quando o fervor revolucionário se diluiu, o governador não tardou em restabelecer a escravatura, já que a emancipação deixara as colónias sem mão-de-obra. A Guiana Francesa voltou então a mudar de mãos. A ocupação luso-britânica teve lugar em 1807 e perdurou oito anos.

Em 1852, Napoleão III enfrentava um grave problema criminal. Mais de seis mil presos sobrecarregavam o orçamento naval, pois eram mantidos em prisões flutuantes ao largo da costa. Porque não enviá-los para a Guiana? E, para garantir que ficavam por lá depois de cumprida a pena, estabeleceu a 'doublage': os presos condenados a menos de oito anos de trabalhos forçados deveriam residir na colónia por igual período. Os condenados a penas superiores teriam de ficar na Guiana pelo resto da vida.

Os tribunais franceses sentenciaram cerca de 70 mil réus ao degredo na Guiana. Alguns eram assassinos, outros ladrões de bicicletas. Está até registado um caso de “tentativa de atentado ao pudor”. Alguns eram inocentes, vítimas de erros judiciais ou tramas da Policia. Mas fosse qual fosse o crime ou a pena, um facto permanece: muito poucos voltaram a pisar solo da França.

Qualquer que fosse a prisão onde se encontrassem os condenados, a preparação para o 'transporte' era a mesma. De todo o país, os carros celulares encaminhavam-se vagarosamente para La Rochele. Daí, os forçados eram transportados de barco para a ilhota de Ré. Alguns aguardavam aí mais de um ano por transporte para a Guiana.

Nesta altura, a única maneira de um preso guardar dinheiro para uma eventual fuga era recorrer a um 'plan', um pequeno tubo roscado no meio onde se podiam guardar notas enroladas ou joias. Uma vez inserido no ânus e alojado no intestino, só uma busca com um dedo muito eficaz poderia revelar a sua presença. Mas poucos guardas estavam dispostos a tal zelo.

Mireille Maroger, uma advogada que visitou a colónia penal, ouviu a explicação de um guarda sobre o melhor processo de extrair um 'plan' a um forçado: “Os laxativos não funcionam, e o médico não aprova. O que fazemos é obrigar o homem a erguer os braços e damos-lhe um bom pontapé na pança. Por vezes tem que ir para o hospital.”

A caminhada dos forçados pelas ruas de St. Martin de Ré, rumo ao navio de transporte, era um acontecimento presenciado por milhares de pessoas. A viagem que se seguia não era um cruzeiro. As celas nos porões tinham 75 metros de comprimento por 2,5 de largura e alojavam 90 homens. Só os mais fortes conseguiam lugar nos estrados disponíveis, e como o transporte era contratado à empreitada, o capitão poupava o que podia na comida. As insurreições eram combatidas com jatos de vapor.

À chegada a St. Laurent, o diretor fazia o tradicional discurso de boas-vindas: “Vieram para aqui pagar os crimes que cometeram contra a França. São criminosos e não merecem a mais leve piedade. Para os que se portarem bem, a vida será suportável. Para os outros, temos excelentes métodos de punição. Sei que a maior parte de vocês pensa fugir — esqueçam isso! Mas nunca esqueçam que os verdadeiros guardas aqui são a floresta e o mar.”

Muitos ficavam em St. Laurent várias semanas até seguirem para um dos campos da selva. Os desterrados seguiam para St. Jean logo no dia seguinte, enquanto os homens considerados mais perigosos eram imediatamente conduzidos às celas de isolamento da Ilha Real.

Os crimes cometidos na colónia eram julgados por um 'tribunal' local, e os mais graves eram punidos com a guilhotina. O instrumento fatal, designado 'A Viúva Alegre', estava guardado debaixo de um telheiro em St. Laurent, que também albergava o setor das celas da morte, onde o condenado ficava acorrentado ao estrado que servia de cama. As execuções tinham lugar ao amanhecer e eram presenciadas por 30 forçados escolhidos ao acaso.

Um velho 'bagnard', entrevistado por William Willis, recorda uma execução particularmente arrepiante: “O condenado debatia-se e, quando a cabeça foi cortada, as correias que o prendiam partiram-se. A fúria era tal que o corpo, acorrentado e sem cabeça, a esguichar sangue, começou a saltar em torno da guilhotina. Os guardas fugiram com medo de serem atacados, mas a visão mais terrível era a do carrasco. Nunca a esquecerei. Estava encharcado dos pés à cabeça com o sangue do homem.”

Por razões que nunca foram esclarecidas, algumas das cabeças não foram enterradas — ou lançadas ao mar, pois era esse o 'enterro' reservado aos forçados — mas preservadas em recipientes com álcool. Ainda há poucos anos o museu de Cayenne as exibia.

Os que eram tidos como incorrigíveis eram colocados nos piores campos da selva, entre eles o de Charvein, a 70 quilómetros de St. Laurent. Para que não escapassem, os homens trabalhavam nus, geralmente acorrentados aos pares. Devorados pelos insetos e cortados pela vegetação, muitos mutilavam-se para conseguirem uma transferência para o hospital.

Entre as histórias de fugas, a mais repelente é a de Melino e Yvon, que fugiram para a selva acorrentados. Ao fim de oito dias, Melino foi mordido por uma serpente e morreu em agonia. Perdido na floresta, sem mantimentos, Yvon viu-se então acorrentado a um cadáver que teria de transportar às costas. Levou 14 dias a chegar a Orapu envolto numa nuvem de mosquitos atraídos pela carne em decomposição. Só então foi libertado do 'companheiro' e enclausurado na solitária por cinco anos.

Quando um forçado sobrevivia até chegar a ver o fim da pena, aguardava a libertação com uma mistura de ansiedade e medo. Os portões do 'Camp de la Transportation' abriam-se, e o homem via-se nas ruas de St. Laurent sem saber onde iria comer e dormir.

Foop-A-Man lembra-se de muitos deles: “O desespero nos seus rostos era chocante. Refletiam as tragédias e erros do passado à mistura com as incertezas do futuro. Moralmente alquebrados, só lhes restava mendigar uns francos para a garrafa de tafia — a sua passagem para o esquecimento.”

Em 1982 ainda havia uma dúzia de 'bagnards' a deambular pelas ruas de Cayenne ou internados no hospital de Saint Laurent, alguns com mais de 90 anos. Esta longevidade talvez traduza o lema da prisão mais abominável que o mundo conheceu: acima de tudo, há que sobreviver!